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A rota da madeira roubada de florestas brasileiras

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Crédito: Divulgação Policia federal. Operação Arquimedes contra o contrabando de madeira.

Segundo historiadores, o Brasil foi batizado com o nome da árvore mais abundantemente encontrada em suas florestas – o Pau-Brasil – pelos colonizadores portugueses no século XVI. Hoje, entretanto, é raro encontrarmos o Pau-Brasil nas florestas nativas do país. Foi a intensa exploração e comercialização de sua madeira, destinada principalmente à Europa, que levou a espécie ao risco de extinção.

Tal fato vem há anos trazendo ao debate público o papel de países colonialistas no desmatamento de florestas tropicais. Esse debate foi reativado recentemente pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), após dizer que divulgaria uma lista de países, incluindo empresas estrangeiras, que compram madeira ilegal do Brasil.

Apesar das críticas à fala do presidente, que surgiram dentro e fora do país, questões importantes foram trazidas à tona. Quem financia o comércio de madeira extraída ilegalmente das florestas brasileiras? Por que essas atividades ilegais não estão sendo controladas? E como é possível combatê-las, prevenindo assim seus impactos negativos?

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Madeira ilegal e países com histórico colonialista: um problema ambiental secular. Crédito: Equipe de Arte Aupa

Rastreando o dinheiro
De acordo com Leonardo Sobral, gerente de certificação florestal do Instituto Imaflora, o comércio ilegal de madeira nativa gera impactos ambientais, econômicos e sociais – sendo que, “Nos três pilares, as perdas são irreparáveis.” Com destaque para as perdas de floresta, biodiversidade, e serviços ecológicos, além de dinheiro que poderia abastecer os cofres públicos, há ainda a perda de condições de vida dos povos que dependem das florestas em pé.

Mas o que move esse comércio é o interesse de algumas pessoas e empresas em obterem ganhos financeiros, sem se preocuparem que seja de forma destrutiva, desleal e insustentável. Para dar ‘nome aos bois’, diversas organizações da sociedade civil vêm rastreando o fluxo do dinheiro associado às atividades de desmatamento ilegal no Brasil.

A Global Witness, por exemplo, um instituto internacional de pesquisa sobre direitos humanos, já identificou que grandes bancos internacionais, como BlackRock, HSBC e Santander, têm emprestado ou investido bilhões de dólares em empresas que estão desmatando a Amazônia brasileira em grande escala. Martha Marcuson, porta-voz da Global Witness, explica que “As instituições financeiras que aportam nestas empresas são cúmplices na destruição da floresta e nos abusos de Direitos Humanos associados.”

Porém, os principais cúmplices da exploração predatória de madeira e seus impactos negativos são instituições brasileiras. Instituições como Banco do Brasil, BNDES, Bradesco e Itaú se destacam na lista de bancos que financiam empresas madeireiras, entre outras do setor florestal, que apresentam “risco de desmatamento”, de acordo com estudos da coalizão internacional Florestas e Finanças. Estes bancos alegam adotar critérios de melhores práticas ambientais, sociais e de governança em seus planos de investimento, conhecido como ESG – embora pareça mais ESG-washing.

Aliás, o financiamento de empresas que desmatam, feito por bancos nacionais e estrangeiros, aumentou 40% desde que o Acordo de Paris foi estabelecido, em 2015. Isto indica que os compromissos para controlar a degradação ambiental e as mudanças climáticas ainda não estão sendo levados a sério por instituições do setor privado.

“O setor privado precisa entender seu papel dentro desse ecossistema e buscar diminuir o impacto ambiental de suas operações,” diz Bruno Hisamoto, pesquisador do Instituto ClimaInfo e especialista em negociações ambientais internacionais. Mas destaca que o maior entrave no combate ao desmatamento e comércio ilegal de madeira, é a falta de fiscalização e ação do governo brasileiro.

“Se não tivermos controles efetivos que consigam barrar a comercialização desses produtos dentro e fora do Brasil, a demanda por madeira ilegal continuará grande, alimentando assim a derrubada ilegal de floresta.”

Rastreando dados públicos
Embora o presidente Bolsonaro tente culpar outros países, é nas regiões Sul e Sudeste do Brasil onde se concentra o maior consumo de madeira tropical do mundo – mais que o dobro do que é importado por todo o continente europeu. Especialistas também estimam que cerca de 70% da madeira extraída ilegalmente da Floresta Amazônica, bioma onde esse tipo de crime acontece com maior frequência, é destinada ao mercado interno. É comprada e transformada principalmente por indústrias da construção, móveis, papel e celulose, entre outros fins.

A falta de dados acessíveis sobre a origem e o destino da madeira nativa, sobretudo por causa do alto nível de ilegalidade, tem prejudicado ações de controle dessa atividade no país. Além disso, a tendência atual de flexibilização de leis ambientais tem facilitado ‘passar a boiada’.

Trecho da fala de Ricardo Salles, atual Ministro do Meio Ambiente, na reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020, divulgada pelo Supremo Tribunal Federal em 22 de maio do mesmo ano. Crédito: Equipe de Arte Aupa

Em março de 2020, por exemplo, Eduardo Bim, presidente do Ibama eliminou uma barreira legal que existia há oito anos, liberando a exportação de madeira nativa sem a necessidade de autorização. E, embora o governo tenha R$59 bilhões para receber em multas ambientais, nenhuma multa foi cobrada nesse último ano – o que pode levar a uma sensação de impunidade, incentivando, assim, a atividade ilegal.

A insuficiência de verbas públicas para os órgãos ambientais é outro ponto crítico.

Desde 2019, órgãos vinculados ao Ministério do Meio Ambiente – responsáveis por ações de monitoramento, licenciamento e fiscalização ambiental – vêm sofrendo grandes cortes orçamentários. Apesar disso, o Projeto de Lei Orçamentária para 2021 prevê cortes ainda maiores para esses órgãos, podendo gerar um aumento nos crimes florestais e impactos socioambientais no país.

Para impedir que este risco seja aprovado pelo Congresso Nacional, 24 organizações da sociedade civil estão promovendo a campanha Floresta Sem Cortes.

Mudando a rota
Segundo Sobral, do Imaflora, a mudança dessa trajetória de degradação e ilegalidade é possível através da construção coletiva de soluções – por empresas, governos e a sociedade civil. O Imaflora, por exemplo, desenvolveu uma plataforma chamada Timberflow, que disponibiliza informações atualizadas e em “formato amigável” relativas ao transporte, ao processamento e à comercialização de madeira no Brasil.

“Através da obtenção de dados públicos – disponibilizados pelo IBAMA, pela Secretaria do Meio Ambiente, entre outros – nós reunimos e digerimos essas informações, e as tornamos públicas através da plataforma Timberflow,” explicou Sobral. Destacou também que a iniciativa tem como missão aumentar a transparência e o nível de legalidade no setor madeireiro. Mas observou que “comando e controle efetivo” pelos governos federal e estaduais, incluindo a garantia de orçamento para os órgãos de fiscalização ambiental, são essenciais para coibir a ilegalidade no setor.

A pressão popular é outro fator determinante no combate ao desmatamento e ao comércio ilegal de produtos florestais. “A sociedade civil tem um papel importante como indutora de transformações dentro das empresas e dos governos,” ressaltou Hisamoto, do ClimaInfo, uma das organizações participantes na campanha Floresta Sem Cortes. “Precisamos alinhar nossa atuação como cidadãos, consumidores e investidores para colocar mais força nessas demandas [por mudança] e exigir que as atividades predatórias sejam efetivamente combatidas e desincentivadas”.

Rede Tekoha promove Jornada PQPS gratuita e virtual

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Quem atua no setor de impacto socioambiental sabe que resolver problemas deste escopo e ainda ampliar as capacidades de gerar impacto positivo não é um caminho fácil. Afinal, são muitos desafios, incluindo lacunas na formação.

Para tornar esse processo uma experiência mais compartilhada, a Rede Tekoha promove a Jornada PQPS!Perguntas e Questionamentos sobre Projetos Socioambientais. A jornada foi viabilizada através do edital Elos de Impacto, com o apoio do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), organização que tem sido importante na cadeia de esforços e recursos para fortalecer o ecossistema de investimentos e negócios de impacto no país.

A Rede Tekoha é um coletivo de profissionais que há mais de 15 anos trabalha no setor de impacto socioambiental, atuando junto de organizações e setores que buscam gerar impacto positivo para aprimorar suas atividades.

O modelo da PQPS! foi inspirado nas Comunidades de Aprendizagem Autodirigidas, de modo que os participantes possam vencer os medos da solidão, da indisciplina e da falta de reconhecimento sobre seus próprios trabalhos, além do árduo processo de aprendizado. A metodologia usada no conteúdo é a Project DPro (PMD Pro).

Importância da Jornada PQPS! para o setor de impacto socioambiental
A jornada constitui uma relevante ferramenta para o ecossistema de impacto, pois ajuda a promover um espaço de troca sobre gestão de projetos em negócios socioambientais.

Ainda que muitos gestores de negócios de impacto socioambientais sejam tecnicamente bem preparados, porém com questionamentos sobre como conduzir e gerir os projetos pelos quais são responsáveis.

Desse modo, espera-se que, após a participação na PQPS!, os gestores estejam aptos a tomarem melhores decisões na gestão de seus projetos, bem como possam conduzir organizações a ampliarem seus impactos. Ou seja, estes profissionais e suas equipes poderão utilizar os recursos de forma mais adequada e efetiva, no que diz respeito ao impacto socioambiental positivo.

Não por acaso, o público central para a jornada são gestores de projetos e equipes que trabalham em negócios socioambientais. Os participantes podem ainda ser os próprios empreendedores dos negócios ou membros das suas equipes. Trata-se, portanto, de um espaço destinado aos pares de diferentes organizações, onde é possível discutir anseios e construir, a partir de experiências compartilhadas e soluções sobre problemas enfrentados na gestão dos projetos.

Como funcionará a Jornada PQPS?
Serão oito encontros virtuais, feitos uma vez por semana. Em cada diálogo, será abordado um tema sobre gestão de projetos sociais e, ao menos, um caso trazido por um membro do grupo será o sustentáculo da discussão.

Ao longo da semana, também serão enviados materiais, como podcasts, vídeos curtos e o próprio caso para serem ouvidos, lidos e preparados para a discussão durante o encontro.

Material disponível em uma biblioteca
A Jornada PQPS! está disponibilizada para o ecossistema de negócios de impacto por intermédio de uma biblioteca de casos e uma curadoria multimídia de conteúdos sobre gestão de projetos de impacto. Este material é público, gratuito e acessível aos gestores de todo o Brasil.

O material construído é fruto da parceria estabelecida previamente com ponteAponte, responsável pela curadoria, e Aupa – Jornalismo de Impacto, no que diz respeito à comunicação. Quem não conseguir participar poderá ter acesso ao material clicando no botão abaixo. Ainda: a página inicial da Aupa traz um espaço com a logo PQPS!: ao clicar na imagem, o usuário será direcionado para uma página de  acesso aos conteúdos.

Um longo trajeto

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O município de São Paulo é o mais populoso do Brasil, com 12,3 milhões de habitantes e residindo em 3.043 km².  Quem vive nas bordas da cidade sente na pele as desvantagens sobre a mobilidade urbana. Apenas 18,1% dos paulistanos moram num raio de até um quilômetro de estações do metrô, trem ou monotrilho, segundo dados do Mapa da Desigualdade, de 2020. O levantamento indica que 29 dos 96 distritos da capital paulista não têm acesso ao transporte de massa.

Os dados mostram ainda a desigualdade nos distritos por meio do “desigualtômetro”. A desigualdade de acesso ao chamado transporte de alta e média capacidades é enorme: 194 vezes entre o melhor e o pior, segundo a pesquisa. Por exemplo: enquanto o bairro República tem 88% dos moradores com a opção de utilizar metrô ou trem, a Sé tem 86% e a Santa Cecília, 73%, respectivamente; por outro lado, a população de outros 29 distritos só pode contar com o ônibus. 

Clique na imagem para ampliá-la. Crédito: Rede Nossa São Paulo.

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Mobilidade nas periferias
A Jaubra é conhecida como “o Uber da quebrada”. Trata-se de um aplicativo de mobilidade criado na Brasilândia, Zona Norte de São Paulo – região que foi vetada por algumas empresas de aplicativo de carro particulares – e, hoje, funciona como os aplicativos de mesmo serviço, como a Uber e a 99. Além do serviço de carros, o aplicativo oferece ainda o Jaubra Food, onde comércios na região podem se cadastrar e, assim, os motoristas da Brasilândia podem fazer as entregas. Há ainda o Jaubra Pay, uma carteira digital via aplicativo, onde o cliente coloca créditos via boleto e cartão de crédito, consegue realizar corridas e compras em comércios parceiros, além de transferir dinheiro para quem tem o aplicativo Jaubra.

Segundo Alvimar da Silva, fundador do Jaubra e ex-taxista, a ideia do aplicativo surgiu por ele não se conformar quando grandes aplicativos de mobilidade bloquearam o serviço na comunidade onde mora. Desde então, distribuiu cartões pela vizinhança e passou a receber pedidos de corridas dos moradores: “Temos o projeto de expansão. Em 2021, quando o aplicativo estiver funcionando 100% na Brasilândia, pretendemos iniciar a atuação em outras regiões de São Paulo, mas sempre focar em regiões que sofrem por não terem acesso a esses tipos de serviços”.

Alvimar da Silva, fundador da Jaubra. Crédito: Arquivo pessoal.

Por sua vez, presente em mais de 1.600 cidades brasileiras e contando com uma rede de 750 mil motoristas, o aplicativo de transporte 99 lançou a categoria 99 Poupa – cerca de 30% mais barata do que a categoria 99 Pop. A empresa também lançou o Guia da Comunidade em parceria com o Instituto Ethos. O documento tem como objetivo promover respeito e diversidade a mais de 20 milhões de passageiros e motoristas do aplicativo, além de contar com capítulos sobre o combate à discriminação a mulheres, negros e LGBTI+, entre outros grupos minorizados.

Davi Miyake, diretor-geral de operações e produtos da 99. Crédito: Arquivo pessoal.

O guia ressalta direitos, deveres e comportamentos esperados na comunidade, além de fornecer dicas práticas e exemplos de situações. A meta é criar um círculo virtuoso de gentileza para uma plataforma e sociedade melhores – diminuindo, assim, casos de desrespeito durante as corridas. Segundo Davi Miyake, diretor-geral de operações e produtos da 99, nas regiões mais pobres da cidade de São Paulo (cuja renda é de até dois salários mínimos) houve um aumento de 33% no uso do app desde fevereiro.

“O aplicativo não bloqueia áreas e, por isso, está presente em todas as regiões. Recentemente, para atender a uma demanda crescente da periferia, lançamos a categoria 99 Poupa”, conta Davi.

Durante a pandemia do novo coronavírus, a 99 fez doação de R$4 milhões em corridas aos governos de todo Brasil para profissionais essenciais, além de incentivar as campanhas de doação de sangue para hemocentros de todo o país. “Demos descontos em corridas para 180 delegacias da mulher e fizemos uma parceria com a CUFA [Central Única de Favelas] para a entrega de alimentos doados para famílias de comunidades vulneráveis de São Paulo, como Paraisópolis, Heliópolis e Parque Santo Antônio”,  relata Miyake. A 99 realizou uma pesquisa para entender como a pandemia impactou os passageiros que vivem fora dos centros expandidos. Segundo o levantamento, 20% daqueles que moram nas zonas periféricas afirmaram que não puderam fazer isolamento e trabalharam todos os dias; 32% fizeram de um a três meses de isolamento – ou seja, já retomaram suas atividades há, no mínimo, quatro meses.

A pesquisa também apontou que o uso de carros por aplicativo é o mais desejado (52%) e foi o meio de locomoção com maior aumento durante a pandemia. Mais da metade (55%) dos entrevistados no Brasil aumentaram o uso de aplicativos durante a pandemia.

Segundo Alvimar da Silva, os clientes do Jaubra são moradores de periferias, majoritariamente – pessoas que moram em comunidades e que são excluídas por alguns aplicativos. “Enxergamos que todos têm direito a usar as tecnologias. Se não existisse o preconceito, essas pessoas não seriam vetadas desse serviço. Alega-se que regiões de difícil acesso são consideradas áreas de risco, estas grandes companhias acham que os clientes não têm direitos a certos serviços”, diz Silva.

Trecho do bairro Brasilândia, em São Paulo. Crédito do gif: Instagram Jaubra

Tecnologia, gênero e raça/etnia
Falar de mobilidade e tecnologia é também tensionar questões de gênero e raça/etnia. Um levantamento da Olabi, organização social que trabalha para democratizar a produção de tecnologia, revela que 77% das mulheres negras em empresas de alta tecnologia alegam que precisam provar sua competência mais do que seus pares homens. A questão de grandes empresas de transporte não atenderem a periferia, por acharem arriscado, diz respeito ao preconceito de quem monta a programação. 

De acordo com o estudo Por que tão poucos? Mulheres afro-americanas em STEM – Parte II: Por Números, em 2010, 27.576 mulheres negras obtiveram diplomas como engenheiras ou cientistas, o que representa 10,7% dos diplomas concedidos a mulheres nos Estados Unidos. Mas elas representavam menos de 1% do total de mulheres empregadas nessas indústrias, com 75 mil engenheiras e cientistas trabalhando em qualquer nível ou posição em suas áreas.

O Minas Programam é uma iniciativa criada para desafiar os estereótipos de gênero e de raça que influenciam a relação com as áreas de ciências, tecnologia e computação. Promovendo oportunidades de aprendizado sobre programação e priorizando aquelas que são negras ou indígenas.

Bárbara Paes, co-fundadora do Minas Programam, conta que a ideia do projeto surgiu com uma vontade de criar um espaço onde meninas e mulheres pudessem aprender sobre tecnologia de forma acessível, através do conhecimento de outras mulheres. “Em 2015, havia poucas opções de cursos em São Paulo que fossem ambientes que funcionassem para meninas e mulheres, principalmente aquelas que vêm de periferias, que são negras. O perfil de alunas é bem variado, em geral, temos participantes de 14 a 40 anos e priorizamos mulheres negras e vindas de bairros periféricos”, conta Paes.

Bárbara Paes, co-fundadora do Minas Programam. Crédito: Arquivo pessoal.

O projeto Minas Programam acredita na importância da indústria da tecnologia, no que diz respeito à criação de tecnologias que não perpetuem racismo, machismo e outras formas de violências.“Achamos que o setor de tecnologia tem muito trabalho a fazer para ser mais inclusivo. Pesquisas mostram que mulheres negras e indígenas enfrentam dificuldades para acessar o mercado de trabalho e, mesmo quando elas têm a mesma formação, ainda são deixadas para trás”, observa Paes.

Em 2021, o Minas Programam pretende continuar realizando formações virtuais para meninas e mulheres negras. Além do curso de introdução à programação, o projeto vai focar em Ciência de Dados. “Nós já tivemos diversos cursos de introdução à programação, com turmas de mais ou menos 30 meninas por ano. Temos cerca de 150 alunas que ativamente constroem nossa comunidade, trocando informações sobre ciência, tecnologia e carreira. Também tivemos cursos de Python para dados, oficinas de JavaScript, WordPress, Segurança Digital, um grupo de estudos de tecnologia, gênero e raça, além de palestras, meetups”, comenta a co-fundadora.

Crédito: Equipe de Arte Aupa.

Márcio Black: “Ter foco nas juventudes é o melhor investimento que podemos fazer”

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Crédito: Arquivo pessoal

Vindo do Jardim D’Abril – periferia de Osasco, município vizinho da capital de São Paulo – Márcio Black celebra seu momento atual: “Cheguei vivo até os 42 anos, contrariando realmente a estatística” e acrescenta: “Chegar vivo não é trivial, considerando que os nossos corpos (negros), nascem para morrer muito rápido. Estar vivo e sendo capaz de influenciar na política, atuar politicamente para que outras pessoas, como crianças e adolescentes negros, não passem pelas mesmas violências que eu sofri, para mim, me bota num lugar de realização. Sei que posso chegar mais longe”.

O cientista político ocupa hoje a coordenação do programa “Democracia e Cidadania Ativa”, da Fundação Tide Setubal. Vale lembrar que a Fundação ganhou destaque no último ano devido ao Matchfunding Enfrente – plataforma de financiamento coletivo, feita em parceria com a Benfeitoria -, que destina recursos às iniciativas periféricas de enfrentamento da pandemia de Covid-19 nestes territórios.

Márcio conta que os efeitos da Covid-19 provocaram mudanças na Fundação e o Enfrente serve como um reflexo. “Entramos com o ano todo planejado e, de repente, fomos soterrados pela pandemia. Ela [a pandemia] apareceu como um grande risco e, por outro lado, percebemos que os projetos estavam pulverizados e meio triviais. O que fizemos foi pegar um projeto que estava pronto, o Enfrente, e redirecionar todo o orçamento da Fundação, mais as captações feitas com os parceiros, para a plataforma e, assim, chegar ao resultado atual”, explica ele.

Triplicando o valor de cada doação feita, a plataforma já mobilizou quase R$6 milhões para projetos das periferias brasileiras. Ao comentar sobre esses resultados, Marcio vê o saldo positivo: “Vários parceiros entraram na iniciativa junto com a Fundação, somando para que o Matchfunding Enfrente fosse o maior matchfunding da sociedade civil no Brasil. Houve o aporte de uma série de organizações, como Instituto Galo da Manhã e Itaú Social. Então, não tem como não ficar contente”. Além da abrangência nacional, a iniciativa destinou a maior parte dos recursos para itens de necessidade, como alimentação e produtos de higiene.

A seguir, leia a entrevista com Marcio Black sobre suas inspirações, os desafios com o Estado, as agendas antirracistas das organizações e a ascensão de movimentos vindos das periferias.

AUPA – Quais aprendizados ficaram desse ano pandêmico?
Márcio Black – Há o grande aprendizado, na linha “buscar parcerias sempre é interessante”, mas também há outro: “Não é o Terceiro Setor que vai resolver o problema”. Quero dizer, toda essa movimentação que aconteceu na sociedade civil, como um todo, não só na Fundação em particular. Se nós olharmos para o setor, os atores entraram entendendo a urgência do momento. Esse campo aumentou e aqui não me refiro só à filantropia, mas também às doações e tudo mais.

Outra coisa, foi a consciência de que o Estado ainda é o maior vetor para a redução da desigualdade no país. O Estado [governo] é quem mais tem capilaridade e está vocacionado para combater as desigualdades em geral e, principalmente, as desigualdades que ficaram em evidência com a pandemia da Covid-19. 

Precisamos fortalecer, cada vez mais, nossa aproximação do Estado, tanto no legislativo quanto no executivo.

AUPA – Quais são os desafios dessa relação com o Estado?
Márcio Black – Uma das crises que o Brasil sempre teve é a do patrimonialismo. Não podemos esquecer que o Brasil é justamente patrimonialista e que até leituras liberais lêem o Estado brasileiro como promotor de desigualdade. O que não estaria de todo errado, olhando pela ótica dos altos salários que são praticados.

No Brasil, hoje, contudo, quem é motor e promotor de redução de desigualdade é o Estado por excelência, porque precisamos pensar também que a desigualdade, tanto de distribuição de renda quanto de acesso, é fruto de fenômenos de desigualdade de poder. Por exemplo, um número pequeno de famílias ou de grupos controla terras, capital, acesso a emissoras de TV e rádio. Controlam o fluxo de informação e conhecimento.

Não existe qualquer possibilidade de pensar um horizonte de redução de desigualdades ou de distribuição de renda mais igualitária, se também não alterar essa concentração – que não é muito grande – dos meios de comunicação, produção e também dos meios de governança. O Estado cumpre todas essas funções. Acredito que o Estado regula essa distribuição de renda, por meio de reforma tributária e outros tipos de regulamentações. Ele [o próprio Estado] também precisa ser alvo dessa redução. Ou seja, mais pessoas negras e periféricas precisam acessar esses espaços para poderem coordenar Políticas Públicas direcionadas às periferias e a essas comunidades, que vêm sendo alvo de uma política desigualitária.

AUPA – Como você enxerga esse protagonismo das lideranças periféricas ao longo de 2020?
Marcio Black – Há dois eixos. Um lugar é o começo do ano, com a chegada da pandemia, quando ficou explicita a desigualdade que existe no país – quando vemos as populações negras e periféricas serem as mais atingidas pelos efeitos do Coronavírus. Um setor econômico completamente paralisado e todo o “papo” de capitalismo consciente que não sai do lugar, como se não tivesse acontecendo uma crise. O que temos é as periferias mostrando, mais uma vez, sua capacidade de articulação, movimentação e captação de recursos. Um grande exemplo é Paraisópolis (periferia da Zona Sul de São Paulo), com lideranças comunitárias capacitadas e mobilizadas de uma maneira que os efeitos foram menores naquele território, porque a União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis foi capaz de articular a captação de recursos, mobilizar a comunidade das demandas e criar mecanismo de distribuição e gestão do território. O que o Terceiro Setor e o Estado não foram capazes de realizar.

AUPA – O debate racial foi um grande tema em 2020 no Brasil. Como você enxergou este debate ao longo do último ano?
Marcio Black: Acredito que a questão racial sempre foi muito forte no Brasil, não podemos atribuir o que está acontecendo agora ao movimento atípico que tem acontecido nos últimos dois anos. Com o Black Lives Matter batendo e influenciando alguns setores brasileiros (econômicos e sociais), fomos um pouco a reboque também, o que não tira nenhum mérito dos movimentos negros que vem acontecendo desde a década de 1930 no Brasil. Essa reivindicação é uma demanda de anos. Principalmente, aquela que reivindica o acesso ao espaço de decisão política, com candidaturas extremamente potentes, exemplo a Gabinetona (um mandato coletivo), em Minas Gerais, que elegeu a Áurea Carolina.

(Da esquerda pra direita) Elaine Mineiro e Erika Hilton. Crédito: Equipe de Arte Aupa.

Não podemos esquecer toda a movimentação que aconteceu após a execução da Marielle Franco em 2018. Ela [Marielle Franco], em si, já era uma potência política que estava ganhando protagonismo, tendo como base essa movimentação negra e periférica, e sua execução joga mais luz para o problema da potência das legislaturas negras e da sua fragilidade política, as quais elas estão susceptíveis, um ponto de atenção. O assassinato do George Floyd, em maio de 2020, é o que dispara e comove mais ainda nesse lugar.

Não é só o George Floyd. Precisamos ficar martelando esse dado, porque é real: a cada 23 minutos um jovem negro morre violentamente no Brasil. Fazendo um parêntese, ao escutar a introdução de “Capítulo 4, Versículo 3” do Sobrevivendo no Inferno – disco de 1997 do grupo Racionais MC’s – encontramos a mesma estatística. Quer dizer, ela [a estatística] ao longo de 20 anos, não se mexeu. Hoje temos alguns setores da sociedade realmente comovidos e criando uma grande aliança antirracista, entre brancos e negros, que vem permitindo certos acessos e avanços. Por outro lado, no final, ainda somos nós, negros, que estamos sendo assassinados na mão de segurança privada como aconteceu com o João Alberto, na véspera do Dia da Consciência Negra.

Minha leitura é que as mudanças estão sendo implementadas, não podemos tirar o valor delas, porém temos um longo caminho ainda para percorrer antes de dizer que a desigualdade racial, por exemplo, está diminuindo de fato. Porque quando olhamos para as principais organizações, os principais movimentos ou as lideranças ainda vemos majoritariamente pessoas brancas e ainda são majoritariamente masculinas, não se pode perder isso de vista.

AUPA – Você consegue citar alguns caminhos possíveis para diminuir essas desigualdades?
Marcio Black – Uma movimentação bem legal são os comitês de diversidade criados nas organizações e os programas de bolsas e de formação de lideranças com cotas para a questão racial. Outro movimento, que tenho acompanhado de perto, são as escolas antirracistas. Sobre como garantimos acesso à Educação de qualidade para crianças negras e periféricas. Vale dizer que esta discussão das escolas antirracistas é encabeçada por escolas particulares. É importante entender que a desigualdade racial promove também desigualdade na aprendizagem, quer dizer, o racismo, mesmo nas escolas públicas, é um dos vetores que leva também a desníveis de aprendizagem.

Há lugares para serem ocupados hoje e já existe uma movimentação em torno disso, mas, ao olharmos para as escolas e para as crianças, estamos falando de um novo marco civilizatório, futuro, projeto de país. Ou seja, é sobre reduzir as desigualdades e a percepção em relação ao racismo entre crianças e adolescentes. Hoje, vejo escolas e jovens como o lugar mais frutífero para isso.

Tanto politicamente, quanto em relação à questão racial, ter um foco nas juventudes é o melhor investimento que podemos fazer.

AUPA – Existem espaços de formação política dentro do ecossistema?
Marcio Black – Não temos espaço de formação, o que está acontecendo são organizações fomentando iniciativas que rodam dentro das escolas. Trazendo o lugar da cultura, nas periferias de São Paulo já existem espaços de formação política, são as Casas de Cultura, os saraus, os sambas. Sem parecer leviano, mas os espaços tradicionais de formação política ficaram esvaziados e falo desde os institucionais, como sindicatos, até aqueles religiosos. Os novos espaços estão sendo fortalecidos ao longo dos anos e são saraus, slams e pancadões. Esse último, inclusive, vem sucessivamente nas últimas eleições, lançando candidatas e candidatos da própria Liga do Funk de São Paulo.

Citando outras, existe essa formação política que acontece em espaços públicos nas periferias, as ocupações culturais, como a Ocupação Ermelino, a Casa Poética – inclusive esta última faz trocas muito legais entre estudantes da rede pública e esses movimentos culturais. Vale ressaltar que a maior parte dessas candidaturas – eleitas na última corrida eleitoral – negras, periféricas e LGBTQ+ têm como base justamente essa movimentação cultural que acontece nas periferias. Então, se queremos ver um espaço de formação por excelência, o foco são esses espaços.

AUPA – Segundo dados do Censo GIFE 2018, pretos e pardos são 24% no quadro de funcionários do ISP (Investimento Social Privado). O que mostra uma aderência tímida de pessoas negras dentro das organizações do Terceiro Setor. Quais os desafios e caminhos para aumentar essa participação?
Marcio Black – Esse lugar, por exemplo, é onde veremos a efetividade das agendas antirracista nas organizações. Tenho o privilégio de trabalhar na Fundação Tide Setubal, que conta com metade de seus colaboradores negros e de origem periférica, mas ainda é algo raro no setor. Vemos uma movimentação surgindo com a criação de comitês e a busca de quadros negros, o intuito é alcançar a paridade, porém o maior desafio ainda está em negros ocupando cargos de liderança dentro dessas organizações.

Acredito em dois desafios: esses quadros negros ocuparem lugares de liderança e serem também os financiadores. Hoje, ao olharmos para os principais financiadores, estes ainda são também majoritariamente brancos e majoritariamente masculinos. Segundo Sueli Carneiro – ativista e fundadora do Geledés – e outras pensadoras negras, isso cria o “pacto narcísico da branquitude”, afinal, temos as lideranças brancas no topo da cadeia das organizações negociando com os financiadores também brancos. Isso acaba enviesando, de certa maneira, a atuação das organizações.

Minha leitura é que, ainda assim, a movimentação para a concentração de mais pessoas negras vem acontecendo de uma maneira bem legal. Por outro lado, essa movimentação para ter pessoas negras em cargos de liderança ainda está rolando com uma certa timidez. Assim, tanto o Terceiro Setor quanto as empresas estão longe ainda de ser algo razoável.

AUPA – Devemos confiar nessas agendas antirracistas adotadas pelas organizações ou temos que desconfiar?
Marcio Black – Eu não colocaria nessas chaves, assim, os movimentos antirracistas brancos e negros têm que cada vez mais botar pressão. Não podemos, em nenhum momento, aliviar a tensão em relação a essa agenda, porque está longe de chegar perto do que consideramos – minimamente – razoável. Tendo avanços, o nosso papel é tensionar para que outros avanços aconteçam. Então, mesmo que eu confie na agenda de uma organização, não posso, em nenhum momento, baixar a guarda em termos de fiscalização ou de mobilização em torno do tema.

Gestos como fiscalização, monitoramento e tensionamento precisam ser diários, porque não é só colocar uma pessoa em um lugar X. É necessário ter toda uma rede de acolhimento e cuidado. Estamos falando de camadas, como essas agendas estão capilarizadas no corpo da sociedade, de como elas vão implicar na Educação tanto de base quanto universitária e como isso será refletido no mercado de trabalho. Temos uma jornada bem longa pela frente. E o acesso ao cursinho vestibular? A Uneafro e o Educafro realizam esse trabalho há anos. Garantimos a entrada na universidade e, chegando lá, a permanência é um problema. Como criamos garantias e fundos, por exemplo, para ter uma permanência tranquila para estudantes de baixa renda nas universidades públicas ou privadas? Depois, como garantimos o acesso ao mercado de trabalho? Não são questões tão simples.

E, olhando para um país caminhando, cada vez mais, para o conservadorismo – onde vejo como um último suspiro desse lugar -, que cria obstáculos para os avanços que tivemos no Terceiro Setor, nas empresas e no próprio tecido social. Muito foi perdido, em termos de Políticas Públicas, com a chegada do Governo de Jair Bolsonaro (sem partido) e sua agenda conservadora, que traz uma série de reduções de direitos já conquistados. Então, não enxergo como uma questão de confiança ou desconfiança, mas, sim, de vigilância permanente e de atuação constante para garantir que nenhum passo para trás seja dado.

AUPA – Quais são suas inspirações dentro do ecossistema? Quais trabalhos lhe inspiram?
Marcio Black – Hoje, há uma série de pensadores que podem ser lidos na chave negra desde o Túlio Custódio até o Silvio Almeida, a Djamila Ribeiro e a Juliana Borges. São autores que transitam muito no tema e tensionam essa agenda antirracista, inclusive, a produção de conhecimento científico nas universidades.

Na cultura, como já mencionado, há todo esse movimento cultural das periferias, onde há muitas pessoas tensionando o antirracismo a partir da agenda cultural. Estou falando de Cooperifa, Sarau do Binho, entre outros. Pessoas incríveis que conheci na agenda cultural, como Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa (dos Cadernos Negros) e Osvaldo de Camargo. Há 40 anos, essas pessoas publicam literatura negra sem nenhum tipo de suporte governamental ou privado, quer dizer, isso é extremamente inspirador.

No campo da política, o trabalho da Uneafro na Educação, no que diz respeito à projeção de novas lideranças políticas, como Douglas Belchior, a própria Erika Hilton, a galera de Minas Gerais – sou muito fã do trabalho do Dú Pente e da Áurea Carolina. Há ainda Mônica Oliveira, em Recife (Pernambuco), que toca a Juntas, um mandato coletivo na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Inspirações não faltam.

AUPA – Qual conselho você daria, com base na sua vivência, para um jovem ou uma pessoa negra que está chegando agora ao setor?
Marcio Black – Primeiro, não é fácil. Não dá para ficar romantizando, as pessoas vão estar o tempo inteiro dizendo que você não é capaz de ocupar os lugares que está ocupando ou que não está preparado. Minha dica: passe por cima disso e busque aliados no campo, tanto brancos quantos negros, para poder fazer um trajeto mais seguro. Basicamente, crie uma rede de segurança em torno de você, de pessoas que você confie. 

Crie essa rede de confiança, brancos e negros, para que elas sejam geralmente esse lugar de acolhimento, porque não é fácil, você vai ser o tempo inteiro bombardeado com uma série de coisas e, se você não tiver esses lugares para onde escapar, pode criar problema.

E, também, não perca a confiança no seu trabalho e na sua capacidade. Acredito que o que nos mantém vivos é isso, uma profunda crença em nossa capacidade e o que estamos fazendo é o certo. E tem uma outra parada, como diria o Emicida: “Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe”.

O Brasil tem ONG demais?

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Organizações de cunho social e filantrópico ainda são muito questionadas por parte da população brasileira. Tais questionamentos, que geralmente pautam casos de corrupção e até mesmo a efetividade das organizações, carregam diversas generalizações e mitos sobre um setor que é amplo, gera empregos e possui um papel fundamental em uma democracia.

Um dos grandes questionamentos é: será que há muitas ONGs no Brasil? Em 2019, uma imagem que circulou no Facebook e teve milhares de compartilhamentos, continha o seguinte texto: 820 mil ONGs no Brasil. Isso tem que acabar. Por isso não sobra dinheiro para escolas e hospitais”. Mas, afinal, o Brasil tem ONG demais?

Antes de explorarmos o tamanho do Terceiro Setor, precisamos compreender o que são as ONGs para garantir que estamos falando sobre a mesma coisa. Organizações da Sociedade Civil, ou simplesmente OSC, é o termo mais novo e correto (estabelecido pela Lei 13019 de 2015) para denominar esse grupo de organizações que normalmente são chamadas de organizações sem fins lucrativos ou organizações não governamentais – as ONGs. Conclui-se, então, a partir das nomenclaturas mais utilizadas, que estas organizações são caracterizadas como não sendo empresas (sem fins lucrativos) e não sendo parte do Estado (não governamental).

E o que elas são, então? As OSCs são parte fundamental da nossa democracia, pois permitem que um grupo de indivíduos se associe (se junte) em prol de um objetivo socioambiental. Este pode ser de interesse apenas do grupo ou de interesse público, como as organizações que combatem a fome ou os hospitais filantrópicos. A ideia é que cada pessoa possa utilizar do seu papel de cidadão e se unir às outras pessoas para praticar a cidadania e resolver um problema socioambiental juntos.

Falamos no início que trata-se de um setor amplo. Há duas principais fontes que permitem compreender o tamanho do Terceiro Setor: o Mapa das OSCs, do IPEA, e a pesquisa FASFIL, do IBGE. Por meio dessas duas pesquisas, é possível saber que há aproximadamente entre 236 mil e 781 mil organizações, segundo a FASFIL e o Mapa das OSCs, respectivamente. Neste universo, existem as organizações que não estão de fato ativas – ou seja, possuem um CNPJ ativo, porém não estão executando nenhuma atividade neste momento. Além disso, há uma grande variedade de tipos de organizações dentro do Terceiro Setor, o que desafia a nossa percepção tradicional sobre o que, de fato, é uma OSC. Dentro desse grupo de organizações, há creches, lares de idosos, associações comerciais, associações de taxistas, de pequenos produtores e até clubes de futebol. 

Então, quando falamos apenas de Entidades de Assistência Social (com base na pesquisa PEAS 2014-2015 do IBGE), a quantidade de OSCs que estamos tratando é muito menor do que o total de organizações do Terceiro Setor: aproximadamente 13.600 organizações em todo Brasil.

Um outro olhar importante é sobre a distribuição das organizações no território. Usando os dados sobre as Entidades de Assistência Social, notamos que os estados com maior proporção de pessoas em vulnerabilidade social são, na verdade, aqueles com menor número de organizações.

(Clique para ampliar o gráfico) Comparativo entre proporção de Entidades de Assistência e proporção de pessoas com restrições ao acesso social por UF. Créditos: Rodrigo Mendes.

Mas, como podemos responder à pergunta do título deste artigo? 

Sabemos que a informação do número de OSCs que circulou no Facebook não está incorreta (uma vez que o Mapa das OSCs apresentava o número de 820 mil OSCs à época da publicação), como erroneamente foi verificado pela agência de checagem. Quando compreendemos a diversidade de organizações e as grandes desigualdades que existem em nosso país, percebemos que não há OSCs demais e que ainda há um longo percurso de criação, formalização e fortalecimento das Organizações da Sociedade Civil para enfrentamento dessas desigualdades.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

 

Jornada da estratégia comercial: um guia para negócios de impacto

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O que é: Com o objetivo de apoiar o empreendedor social na jornada de negócios, o guia traz estratégias comerciais alinhadas com a geração de impacto socioambiental positivo. Além de empreendedores, o conteúdo pode ser utilizado por profissionais que apoiam negócios de impacto e profissionais que ensinam ou estudam a temática.

Quem fez: ICE e Mercado Livre.

Ano: 2020.

Clique aqui para acessar o guia.

A distância entre o discurso e a prática

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Crédito: Matheus Bertelli

Atuando em inúmeras formações e em programas de aceleração para micros e pequenos empreendedores nos territórios periféricos na cidade de São Paulo, tenho procurado aprofundar o meu olhar para as dores das e dos empreendedores. Neste artigo abordo três necessidades elementares desses empreendedores: desenvolvimento de competências empreendedoras, relação interpreendedora e dinheiro.

Inúmeras pessoas que empreendem têm buscado se capacitar, acessando programas de formação de empreendedores, lives, além de diversos conteúdos sobre empreendedorismo e gestão de negócios distribuídos na internet. Elas entenderam, diante de tantas dificuldades e desafios, que para empreender o conhecimento é fundamental, de modo a aplicarem os fundamentos de gestão de negócios, marketing digital, vendas e finanças nos negócios.  Para além das abordagens técnicas e operacionais, empreendedores reconhecem a importância do desenvolvimento das atitudes empreendedoras, elevando a autoestima e protagonizando a volta por cima, isto é, superando as dificuldades pessoais e profissionais.

Tem ficado cada vez mais evidente, para empreendedoras e empreendedores periféricos, que empreender requer acesso às informações, capacidade para aplicar os conhecimentos, competência criativa para solucionar problemas, gerar e entregar valor aos clientes.

Recentemente em programa de aceleração na Zona Leste da cidade de São Paulo,  tivemos a oportunidade de incentivar as e os empreendedores a estabelecerem relações interpreendedoras, para tornarem reais e efetivas as ações estratégicas para evolução dos empreendimentos. Durante esse estágio, diversas parcerias foram realizadas, possibilitando o fortalecimento da cadeia de valor das empresas no território, além da criação de diferenciais e vantagem competitiva aos negócios.

Os participantes do programa de aceleração foram estimulados a observarem que as relações interpreendedoras acontecessem dentro de abordagens amplas entre as quais: valorização da pessoa que empreende, tendo em vista seus princípios, valores e crenças; as relações existentes entre os negócios envolvidos; e sustentabilidade econômica, social e ambiental, com vistas às características do território. As e os empreendedores compreenderam a relevância da rede de contato alinhada com as potencialidades do território, definindo ações estratégicas de diferenciação de produtos e serviços, para aproveitamento das novas oportunidades de mercado identificadas.

Dois aspectos contemplam todas as empresas: econômico e social.Todas as pessoas que empreendem, especialmente micros e pequenos negócios, têm necessidade de dinheiro para a viabilização e a evolução dos seus negócios.

É incontestável que todas as empresas precisam captar e aplicar dinheiro, e gerar lucro – afinal, sem isso os negócios são inviabilizados.

Infelizmente, muitas e muitos empreendedores passaram anos sem planejamento financeiro pessoal e profissional, sem, minimamente, um controle de fluxo de caixa. Quando a abordagem vai para precificação, a situação fica pior, porque voltavam o olhar para a prática da concorrência, não considerando outros fatores de mercado como: perfil do cliente, custos operacionais, margem de ganho, entre outros.

Diante da necessidade de dinheiro e, por vezes, do desconhecimento em gestão financeira , acrescenta-se o fato de que os investimentos nem sempre tem chegado aos empreendedores dos territórios periféricos, para promover a evolução pessoal e profissional das pessoas. Isso diz muito sobre a existência e a disponibilidade de recursos financeiros com a finalidade de estimular o empreendedorismo e dar melhores condições para os negócios periféricos. No entanto, do discurso à prática há certa distância. 

O pensamento de alguns investidores, ainda que dentro do contexto do impacto social, considera a riqueza como o acúmulo de dinheiro e se limita à manutenção do status quo, sem interesse da promoção da transformação econômica e social das periferias. O acesso ao dinheiro, por vezes, é caro, têm exigências específicas e, em larga medida, nem sempre está orientado para promover o impacto econômico e social das regiões periféricas. Muitos investidores ainda mantém a mentalidade do dinheiro ser direcionado aos negócios prontos para a obtenção de resultados rápidos e crescentes no curto e médio prazos, o que tem causado desestímulos e frustrações em muitas e muitos empreendedores periféricos.

Na incessante busca para entender as necessidades das pessoas que empreendem nos territórios periféricos, observo as pessoas que empreendem reconhecendo a importância de se firmar parcerias estratégicas sustentáveis e de relação ganha-ganha, com firme interesse de se ajudarem mutuamente. Entendo que, quanto mais fortalecidas as relações interpreendedoras, gerando mais e mais negócios diferenciados e atrativos, tanto melhor para o protagonismo do empreendedorismo periférico nas exigências e nas transformações sociais e econômicas territoriais.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Uma nova economia florestal

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Desmatamento, queimadas e poluição. Perda de biodiversidade, morte de animais e genocídio dos povos que vivem na floresta. Improdutividade de terras, empobrecimento de famílias agricultoras e êxodo rural. Essa é a história da tradicional e velha economia florestal no Brasil.

É evidente que essa trajetória precisa ser reescrita para que haja um final feliz. Sobretudo, é importante que surjam novos personagens e ações para dar vida a uma economia florestal alternativa – baseada em reflorestamento, conservação e restauração.

Foi com esse objetivo em mente que a WRI Brasil, associada ao instituto global World Resources Institute, de pesquisas ambientais e socioeconômicas, criou a websérie As Caras da Restauração. A temporada conta cinco histórias de brasileiros, de diferentes regiões do país, que estão restaurando áreas florestais em situação de degradação, conservando a biodiversidade e a floresta em pé, enquanto ganham dinheiro com isso.

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Miguel Calmon, consultor do programa Florestas do WRI Brasil. Crédito: Linkedin
Miguel Calmon, consultor do programa Florestas do WRI Brasil. Crédito: Linkedin

“São pessoas que estão restaurando e gerando renda a partir dos benefícios da floresta”, diz Miguel Calmon, consultor do programa Florestas do WRI Brasil. “Além dos benefícios econômicos, a restauração tem muitos benefícios ambientais: melhora a qualidade da água e do solo, tira carbono da atmosfera e diminui os impactos das mudanças climáticas, destacou.

Os rostos da restauração
Atualmente, 140 milhões de hectares de terras no Brasil estão degradadas. Isso significa que 16,5% do território nacional está coberto por áreas rurais de baixa produtividade agrícola e ecológica – e, portanto, com baixa capacidade para gerar retorno financeiro e bem-estar social. Ainda, estima-se que o setor da agricultura seja responsável por cerca de 70% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa – devido, principalmente, às práticas de desmatamento, queimada e uso de agrotóxicos.

Apesar desse cenário, pessoas de diversas regiões do país estão começando a investir em um novo modelo de produção agrícola: em vez de desmatar e degradar, reflorestar e restaurar. E estão colhendo bons resultados.

A família Soares, por exemplo, decidiu trocar a velha prática de plantar uma única variedade agrícola em larga escala, por um sistema agroflorestal. Com este sistema, a família paraense que dependia apenas da mandioca, agora tem a oportunidade de vender mais de 20 produtos, incluindo frutas, óleos e outras variedades hortícolas. Além de aumentar a lucratividade e a segurança alimentar dos Soares, a nova prática contribuirá para restaurar o solo e conservar a biodiversidade da Floresta Amazônica.

Processo de preparo de aipim. Crédito: WRI Brasil.
Processo de preparo de aipim. Crédito: WRI Brasil.
Registro da Família Soares no trabalho. Crédito: WRI Brasil.

Já o produtor Bruno Mariani está tentando transformar o passado de destruição florestal da Costa do Descobrimento, em Porto Seguro, na Bahia. Seguindo um modelo, em sua fazenda há 40% das áreas destinadas para conservação e 60% para a produção de madeira nativa. Assim, ele consegue gerar benefícios ambientais e econômicos. Ao mesmo tempo que preserva a biodiversidade brasileira, incentiva a indústria madeireira a comprar produtos provenientes de reflorestamento, em vez de desmatamento, contribuindo para manter florestas em pé.

No sertão baiano, Silvany Lima descobriu que o umbu, a árvore sagrada do sertão, também poderia ser um “pé de dinheiro verde”. Junto com um grupo de mulheres, que fundou uma cooperativa agrícola em 2008, cultivam e comercializam frutas nativas da Caatinga. O projeto batizado de Delícias do Jacuípe, hoje transforma 2,4 toneladas de fruta por dia em polpa congelada. Práticas agroflorestais estão sendo adotadas pela cooperativa, ajudando a reverter o processo de desertificação e a degradação da Caatinga, ao passo que gera mais segurança financeira para produtores rurais da região.

O produtor Bruno Mariani. Crédito: WRI Brasil.
O produtor Bruno Mariani. Crédito: WRI Brasil.
Silvany Lima, da cooperativa Delícias do Jacuípe. Crédito: WRI Brasil.
Silvany Lima, da cooperativa Delícias do Jacuípe. Crédito: WRI Brasil.

O casal Emerson e Viviane Miranda tem como plano de negócio salvar a palmeira juçara da extinção. Para conseguir esse feito, pretendem popularizar a venda e consumo da polpa dos frutos de juçara, similar ao açaí, em vez do palmito – o qual tem historicamente levado a palmeira a ser derrubada e extinta da Mata Atlântica. É um trabalho que, com auxílios do governo do Espírito Santo, como o programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), está contribuindo para a conservação da juçara e a restauração de áreas degradadas no estado.

Em São Paulo, Patrick Assumpção está realizando o plantio de árvores nativas de fruta e madeira, com leguminosas e Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), de forma orgânica. Já fechou parceria com 11 restaurantes em São Paulo, incluindo chefs de cozinha famosos, como o Alex Atala. Seu protagonismo poderá ajudar a restaurar a fertilidade do Vale do Paraíba, tornando-o um polo agroflorestal de produtos madeireiros e alimentares sustentáveis.

O casal Viviane e Emerson Miranda investe em palmeira juçara. Crédito: WRI Brasil.
O casal Viviane e Emerson Miranda investe em palmeira juçara. Crédito: WRI Brasil.
Patrick Assumpção, produtor do Vale do Paraíba. Crédito: WRI Brasil.
Patrick Assumpção, produtor do Vale do Paraíba. Crédito: WRI Brasil.

Os desafios da nova economia
Para fazer desabrochar uma nova economia (agro)florestal no Brasil, é fundamental garantir espaço de mercado para produtos provenientes da restauração e da conservação da natureza. Assim como provar que há impactos positivos em fazê-lo. “Ao mostrar que [essa nova abordagem] já é uma realidade, com benefícios mensuráveis, esperamos inspirar produtores rurais, cooperativas, organizações, empresas e governos a também investirem na restauração e reflorestamento”, comentou Calmon, do WRI Brasil.
O Brasil é o país que mais perdeu florestas na última década, segundo avaliação global da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO/ONU). Condição que tem ameaçado as relações comerciais com a União Europeia e recentemente, com os Estados Unidos. Assim, o investimento em restauração florestal e sistemas sustentáveis de produção agrícola é hoje necessário tanto para recuperar a economia, quanto a credibilidade do agronegócio brasileiro.

Pedro Nogueira, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e CEO da Cumbaru. Crédito: Linkedin
Pedro Nogueira, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e CEO da Cumbaru. Crédito: Linkedin

Aliás, este plano de investimento está na agenda das políticas ambientais brasileiras desde 2016. O país, ao assinar o Acordo de Paris, assumiu o compromisso de fazer sua parte no combate às mudanças climáticas, estabelecendo a meta de restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares até 2030. Uma estratégia que poderá “Resultar em benefícios econômicos, ambientais e sociais para o Brasil e o planeta”, diz Pedro Nogueira, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e CEO da Cumbaru, startup de parcerias produtivas na área da agropecuária sustentável.

Segundo Nogueira, o principal desafio nesse processo é garantir uma destinação eficiente de recursos financeiros, públicos e privados, além do acesso inclusivo ao conhecimento técnico necessário para uma nova economia florestal. “A boa notícia é que este recurso financeiro existe e o conhecimento técnico também”, destacou. “O trabalho agora é fazer estes recursos chegarem a quem mais precisa.”

Miguel Nicolelis: “O Brasil só começou a dar importância ao setor de pesquisa durante essa emergência global”

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O projeto Mandacaru é um coletivo de pesquisadores voluntários no combate à pandemia causada pelo novo Coronavírus. O projeto tem como objetivo arrecadar recursos financeiros e materiais para as equipes de saúde. Com a criação do neurocientista Miguel Nicolelis, que é também coordenador do Comitê Científico de Combate ao Coronavírus do Consórcio Nordeste, o Mandacaru pretende criar o maior instituto virtual de pesquisa científica da história do Brasil.

Nesta conversa, Nicolelis explica como funciona a iniciativa, a atual situação da pandemia no Brasil e em outros países, além de como as medidas de flexibilização podem aumentar os casos e óbitos nas próximas semanas. Confira a entrevista.

Clique na imagem para ampliá-la, Crédito: Equipe de Arte Aupa.

AUPA – Qual é a importância de investir no setor de pesquisa e existirem Políticas Públicas para apoiar a pesquisa e o desenvolvimento científico?
Miguel Nicolelis O Brasil só começou a dar importância ao setor de pesquisa durante essa emergência global. Sem pesquisas públicas, baseadas em desenvolvimento científico, não conseguimos desenvolver uma vacina, por exemplo. Então, a importância de investimentos já começa por aí.

Aupa – Qual é a relevância da divulgação científica e da realização de um projeto como o Mandacaru no Nordeste?
Miguel Nicolelis – O projeto está sendo essencial desde o começo de abril, quando propomos a criação. A minha ideia não era só ter uma rede de cientistas, como muitas que foram criadas pelo mundo a fora, mas de ter uma complementação desse trabalho científico, com profissionais de comunicação, artes gráficas e redes sociais. Afinal, era evidente, desde o início, que nós teríamos, além da batalha sanitária e cientifica, uma batalha da comunicação. Eu acho que o Mandacaru inovou muito na sua missão científica, a missão de divulgação científica.

Aupa – Como você analisa esse momento de nova alta de casos da Covid-19? As medidas de flexibilização estão corretas?
Miguel Nicolelis – O Brasil fez tudo errado. Boa parte do que foi flexibilizado ocorreu no momento errado. São Paulo, por exemplo, nunca passou por um lockdown e é onde tratamos horário de shoppings, bares, parques e restaurantes como mais importantes do que a prevenção e números de casos e óbitos. Então, a flexibilização no Brasil foi incorreta e, mesmo nos lugares onde a flexibilização foi correta, a hesitação em retornar as medidas de isolamento social, no momento em que os casos começaram a aumentar, jogou contra. Entendemos que todo mundo está cansado do vírus e que, talvez, seja uma medida impopular, mas é em um momento desses que se precisa de liderança.

Uma política que não tenha medo de ir contra medidas que podem ser impopulares, pois estas são as únicas ferramentas disponíveis para evitarmos um número de mortes maior.

AUPA – Como podemos conter o contágio do vírus, sem o relaxamento das medidas de proteção, com a chegada da vacina no Brasil?
Miguel Nicolelis – Nós nem temos a vacina ainda e não sabemos qual vacina vamos usar. Provavelmente, surgirão várias vacinas ao mesmo tempo – no Brasil, pelo menos duas. Ainda não temos uma definição do resultado de uma delas, pois a CoronaVac ainda não divulgou seus resultados – todos ainda são preliminares; então, estamos colocando os carros na frente dos bois. O governo federal não planejou, meses atrás, o que iria fazer e o jeitinho brasileiro está sendo aplicado em uma crise sanitária, onde as consequências serão terríveis. Estamos nos aproximando, novamente, de mil óbitos por dia e é muito possível que os números de casos dupliquem nas próximas semanas com as festas de final de ano.

AUPA – É possível afirmar que o Brasil emendou as ondas da Covid-19? Houve algum momento de superação da primeira onda?
Miguel Nicolelis – O Brasil ficou em um platô, durante vários meses, que começou a cair, mas, ao final de outubro, voltou a subir. Então, as liberações desenfreadas no meio de uma pandemia somadas às campanhas eleitorais, à votação, aos jogos de futebol e todos os outros absurdos que testemunhamos, fizeram com que, entre o final de outubro e começo de novembro, os casos voltassem a subir – e, consequentemente, houve uma subida no número de óbitos. Além disso, estão acontecendo discussões infinitas sobre se é segunda onda ou ainda o pico da primeira onda. Não faz diferença. A realidade é que os números estão crescendo e precisamos focar em diminuir os casos. Portanto, essa segunda onde pode ser pior que a primeira no Brasil.

AUPA – O que falta ao Brasil para evitar essa possível segunda onda? O que faltou para evitar a primeira?
Miguel Nicolelis – Faltou um governo federal, com uma mensagem clara à população. Faltou também a preparação do Brasil antes do vírus chegar aqui, pois tivemos tempo [o primeiro caso de Covid-19 aconteceu em 1º de dezembro de 2019, em Wuhan, na China; o primeiro caso brasileiro confirmado aconteceu em 26 de fevereiro de 2020, em São Paulo].

Faltou usar a estratégia nacional e as ferramentas que o mundo todo tinha noção que seriam úteis. Cada governo estadual agiu sozinho e cada um teve que atirar para um lado.

AUPA – Como você vê o financiamento às pesquisas no nosso país? Você acha que falta maior proximidade ou entendimento da população acerca da cadeia científica necessária para o desenvolvimento de uma vacina, por exemplo?
Miguel Nicolelis – Isso é um problema crônico de como a ciência é vista. Quando eu estudei isso em 2014, o investimento máximo no Brasil era na ordem de 1,15% do PIB, sendo que os grandes países científicos no mundo, como os Estados Unidos, aplicaram durante décadas 5% do PIB em ciência e tecnologia. Contudo, não é uma questão apenas de dinheiro: a sociedade precisa entender a relevância do trabalho científico de alto nível. Os cientistas brasileiros vivem hoje em meio a uma burocracia em relação ao financiamento, e, assim, a ciência nunca chega a ter um contato com a população, pois o sistema não permite que os cientistas tenham como se comunicar com as pessoas.

Os impactos da indústria têxtil e da moda no meio ambiente

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Não serão raras as críticas à indústria da moda acerca de questões sociais e ambientais. Por exemplo, mais e mais pessoas estão se perguntando sobre quanto este setor polui. Com mais acesso à informação, o público está mais consciente, exigindo a sustentabilidade das marcas.

Vale dizer que os impactos dos negócios da moda são relevantes e fazem parte de uma agenda pública global. Estima-se que a indústria da moda seja o segundo maior consumidor de água, segundo a Global Fashion Agenda (1,5 trilhão de litros por ano), por exemplo.

Mas como pensar quem produz e de qual forma é feita a cadeia produtiva? Quão conectados estamos realmente com o desenvolvimento socioambiental no que diz respeito às roupas? Quais impactos a indústria da moda causa? E como a moda pode também propor soluções para um sociedade mais sustentável? São algumas das perguntas que guiam esta reportagem. 

O que é fast fashion?
O modelo fast fashion é o que prevalece na indústria da moda. Ele se baseia na oferta constante de produtos de tendência e nos preços baixos. Para que as peças sejam produzidas em um ritmo tão rápido, as empresas usam muito mais recursos naturais e insumos químicos para fabricar as roupas. De acordo com a Fundação Ellen McArthur, a produção de roupas aproximadamente dobrou nos últimos 15 anos. Ainda segundo o levantamento, 73% dos resíduos têxteis ou são queimados ou enterrados em aterros sanitários. Cerca de 12% dos resíduos têxteis vão para reciclagem – em sua maioria, são triturados para encher colchões, utilizados em isolamentos ou panos de limpeza. Menos de 1% dos resíduos é usado para fabricar peças de roupas novas.

Ou seja, há um modelo industrial que trabalha com base na produção em grande escala de roupas e no consumo constante dos consumidores.

Mas há bons exemplos de marcas brasileiras que vem apostando em uma pegada menos agressiva ao meio ambiente.

Barbara Mattivy, fundadora da InsectaShoes. Crédito: Arquivo Pessoal

Uma deles é a InsectaShoes, que surgiu em 2014. Barbara Mattivy, fundadora da InsectaShoes, empresa que que desenvolve sapatos e acessórios unissex com design contemporâneo e produção ecológica, vegana e brasileira reflete: “Sobre o modelo fast fashion, de forma geral vimos que toda semana tem coleção nova. Para lançar uma coleção nova, é preciso tirar uma antiga. E esses produtos geralmente acabam indo para aterros. Eles não são reciclados da forma correta e, às vezes, são queimados”.

Na Insecta, todo material utilizado nos sapatos é também ecologicamente correto e vegano, não havendo utilização de matéria-prima de origem animal. “Queremos focar em realmente resolver esse problema do lixo da indústria da moda e entender que somos responsáveis também pelo lixo que colocamos no mundo”, declara Barbara.

A importância dos ODS
Em virtude do crescimento do modelo fast fashion, nos últimos anos se iniciou uma cobrança da sociedade pelos impactos socioambientais da moda, como os danos irreversíveis à natureza, a degradação social em diversas regiões do mundo e o desrespeito às condições básicas de trabalho.

Neste cenário, a declaração dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU assume papel de destaque. Destaca-se o ODS 12, que trata de assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis com redução de produtos químicos e de resíduos por meio da prevenção, da reciclagem e do reuso. Nesse sentido, este objetivo quer auxiliar na promoção de campanhas de educação ambiental orientadas ao consumo responsável.

Taciana Abreu, head de marketing da Farm. Crédito: Arquivo Pessoal

Taciana Abreu, head de marketing da Farm, marca carioca que vem reforçando iniciativas sustentáveis, explica como a empresa vem inserindo os ODS na política de atuação no que diz respeito à equidade de gênero, redução de desigualdades e questões raciais. Sobre a escolha dos materiais para confecção das peças, ela destaca a linha de jeans, que passou a ser feita 100% de algodão responsável brasileiro, que segue as certificações ABR e BCI de cultivo correto.

Um dos desafios é sobre como as empresas relacionadas à moda podem dialogar sobre os impactos da indústria aos consumidores. “Como eu traduzo para o cliente a importância dele pensar em carbono e o desafio de manter a temperatura global?”, expõe Barbara.

Os impactos na linha de produção também devem ser considerados neste movimento mais sustentável. Um exemplo é o trabalho da Pano Social, uma startup que tece moda sustentável e reinsere ex-presidiários no mercado de trabalho. “Os maiores impactos são sobre o que comemos e o que vestimos.  A importância da olharmos para o que estamos vestindo é, mais do que nunca, visto que o planeta vem dando seus recados”, enfatiza Natacha Barros, uma das fundadoras da Pano Social.

Natacha Barros (à esquerda), uma das fundadoras da Pano Social. Crédito: Arquivo Pessoal.

Além do cuidado com a questão ambiental, pois as peças são feitas a partir de algodão 100% orgânico ou 100% PET reciclado, a Pano Social emprega e capacita os ex-detentos. Vale lembrar que o Brasil tem a 3ª maior população carcerária do mundo e apenas 9% dos ex-detentos conseguem se reinserir no mercado de trabalho.

Como bem retrata o documentário The True Cost (2015), dirigido pelo norte-americano Andrew Morgan, com o fenômeno da moda rápida, também surgem preocupações sociais e trabalhistas, como o abuso no trabalho em países subdesenvolvidos. A maioria dessas empresas paga o menor salário possível para ter preços competitivos no setor. Essas marcas procuram países onde a mão de obra é a mais barata possível, o que significa que os funcionários devem trabalhar em condições desumanas que colocam em risco sua segurança.

Foi o que também apontou o relatório Lista de bens produzidos por trabalho infantil ou trabalho forçado do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos, que comprovou a existência de trabalho infantil e de trabalhos forçados na indústria da moda em países como Argentina, Bangladesh, Brasil, China, Índia, Indonésia, Filipinas, Turquia, Vietnã, entre outros. Outro dado do The Global Slavery Index 2018, da Fundação Walk Free, apontou que a moda é a segunda categoria de exportação que mais explora o trabalho forçado, ficando atrás apenas do setor de tecnologia.

Cerca de 40,3 milhões de pessoas estão nessa situação, das quais 71% são mulheres. No mundo, 24,9 milhões de indivíduos exercem profissões forçadamente.

Seguindo essa linha, em muitos locais, empresas cortam custos na gestão e na segurança para atingir o limite solicitado, o que gerou desastres como o que aconteceu em 2013 em Rana Plaza (Bangladesh). Mais de 1.129 pessoas morreram. Hoje, considerado o pior desastre de todos os tempos na indústria do vestuário.

Clique na imagem para ampliar.Crédito: Equipe de Arte Aupa.

Um fato positivo é que há uma quantidade considerável de marcas emergindo para trabalhar em prol da moda sustentável e da ética, o que poderá levar a uma mudança sistêmica necessária.  Afinal, consumidores se preocupam também com uma moda mais sustentável, segundo mostra a análise do Lyst, site especializado em consumo on-line. Um mercado tão em voga, que é perceptível pela demanda por pesquisas sobre moda sustentável – um crescimento de 66% em 2018.

Com isso, a cada dia, instituições que se dedicam à sustentabilidade da moda buscam soluções para tornar esse fenômeno menos nocivo possível. Resta a nós, como consumidores, a tentativa de consumo consciente e sustentável.

Clique para conhecer o projeto. Crédito: Equipe de Arte Aupa.
Clique para conhecer o Projeto Moda pela Água.Crédito: Equipe de Arte Aupa.

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