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Rodrigo Oliveira: “Não devemos aceitar gente morrendo de fome. Há certa normalidade, o que é um absurdo”

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Crédito: Divulgação

A cozinha sertaneja ganha vida na periferia da Vila Medeiros, na Zona Norte de São Paulo. É assim que acontece no conhecido Restaurante Mocotó, que foi fundado como uma casa do Norte, em 1973, pelo pernambucano José de Almeida e atualmente é dirigido pelo filho, Rodrigo Oliveira.

Em um Brasil que produz alimento para mais de 1 bilhão de pessoas, embora cerca de 10 milhões tenha sofrido com a falta de alimento entre 2017 e 2018, o chef de cozinha entende o papel social do restaurante neste cenário desigual.

Neste contexto de pandemia, o Mocotó tem apoiado a comunidade do entorno com entregas de cestas básicas no projeto Quebrada Alimentada. Entre junho e julho, 600 famílias estavam cadastradas para receber alimentos. Mas a ideia, segundo Rodrigo, é ir além e empoderar as pessoas para que elas possam sair da situação de vulnerabilidade.

O restaurante também fez parte da campanha contra a fome “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”, do Coletivo Banquetaço. No projeto, eles serviram almoço para três mil pessoas em uma ocupação próxima a Vila Medeiros. 

Nessa entrevista, Rodrigo Oliveira fala sobre esses projetos sociais, desigualdades e comida de qualidade.

AUPA –  O Brasil vive um paradoxo: somos uma potência agrícola e de exportação de alimentos, mas ainda há muitas pessoas passando fome. Como você enxerga isso?
Rodrigo Oliveira – Isso é um reflexo evidente e cruel da desigualdade que vivemos. Não faz diferença sermos um tremendo produtor, pois você vê a Ásia, que depende da nossa importação, e não tem essa desigualdade.

Isso não muda nada, afinal a diferença social é tão grande, um grupo gigante não tem acesso ao bom alimento. 

Vivemos em uma sociedade monetizada. Ter acesso ao capital é ter acesso ao alimento.

AUPA – Ainda na linha de fome e disponibilidade de comida, qual você acredita ser o papel de chefs prestigiados neste cenário?
Rodrigo Oliveira – O chef de cozinha tem um papel central nesse processo. No final das contas, nossa especialidade é relacionamento. Mais do que um arroz, um feijão, o chef de cozinha está construindo pontes. Entre uma ideia, um desejo e ainda um produtor de um produto muito específico nos sertões do país.

Fazemos a ponte entre cultura e natureza. A cozinha é a expressão desses dois universos. Acredito que só conseguiremos resolver o problema com uma mudança profunda.

O chefe de cozinha deve mostrar o que as pessoas têm direito a comer e o que a indústria e o mercado querem enfiar goela a baixo, com ferramentas de marketing poderosas. Estão destruindo a saúde da população em troca dos centavos que, empilhados, viram milhões de reais.

É importante o chef conseguir mostrar para as pessoas, colocar o gostinho na boca delas do que elas deveriam estar comendo, que os direitos delas estão sendo afetados, para assim, elas cobrarem isso. 

AUPA – Vocês têm distribuído marmitas para a comunidade da Vila Medeiros, além de distribuição de cestas, projeto conhecido como Quebrada Alimentada. Poderia contar um pouco como funciona e se pretendem continuar ou ampliar essas ações em um cenário pós-pandemia?
Rodrigo Oliveira – Adriana Salay, minha esposa, está à frente do Quebrada Alimentada. Ela é uma das idealizadoras e faz parte do Conselho do Mocotó, está sempre presente em tomar decisões importantes. O tema do doutorado dela é a fome. Ela está há 4 anos pesquisando esse tema que é muito dolorido e quando, viu uma crise de fome descortinando, ela ficou tocada.

Iniciamos logo que vimos o que estava por vir. Antes do decreto para o fechamento dos comércios, começamos a cozinhar para a comunidade e distribuir as cestas básicas e orgânicas.

É outro paradoxo, os agricultores que nos alimentam, produzem os melhores alimentos, estão passando fome. Restaurantes e feiras livres estão fechadas, então você vê agricultores com essa dificuldade.

Começamos a comprar deles para entregar nas comunidades. Atendemos com uma infinidade de parceiros cerca de 600 famílias por mês – esse número varia, porque as pessoas buscam os recursos em vários lugares. Atendemos famílias cadastradas e, às vezes, da lista de espera. 

Como imaginamos que é um problema cuja resolução está distante, pretendemos continuar por muito tempo, enquanto tivermos recursos. A ideia também é dar um empoderamento para as famílias saírem da situação de vulnerabilidade.

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AUPA – Você acredita que o fato de o restaurante estar em um local afastado do Centro e dos espaços mais nobres de São Paulo faz com que a proximidade e o impacto na comunidade sejam maiores? Como você vê a responsabilidade social do negócio?
Rodrigo Oliveira – Estamos em um contexto de vulnerabilidade. Nosso bairro é periférico e o nosso redor tem problemas graves, poucos recursos – não temos parque, biblioteca, praça ou centro de lazer qualquer.

Fizemos um estudo há pouco, como se fosse o IDH do Restaurante Mocotó. Queríamos ver a diferença que estamos fazendo nas pessoas que trabalham aqui, pois grande parte delas mora no bairro. A escolaridade do Mocotó é superior à média da cidade. A renda média do Mocotó é quase o dobro do que a renda média da região e maior do que em alguns reais do que em Pinheiros.

Se tivéssemos mais negócios prósperos em comunidades como a nossa, elevaríamos a qualidade de vida da comunidade como um todo.

Precisamos de massa crítica para isso. Se um restaurante de bairro consegue, outros podem prosperar nesse meio. Principalmente, contratando pessoas do entorno. É justamente trazer recurso de fora para cá

AUPA – A segurança alimentar é outro tema que merece ser olhado. Mais do que comer, uma comida de qualidade faz-se necessária. Com o movimento de liberação de mais agrotóxicos, por exemplo, como vocês atuam para conhecer a origem dos produtos que compram? Quais são as diretrizes estabelecidas?
Rodrigo Oliveira – O primeiro ponto é fugir do lugar comum. É necessário encurtar a cadeia, comprar de quem produz. Se o produto de excelência é mais caro, vamos tirar os atravessadores e colocar o recurso na mão de quem está cuidando da terra e dos animais. 

Entender que o fornecedor faz parte da nossa comunidade. Pessoas que têm afinidade, acreditam no que acreditamos. O fornecedor faz parte da nossa comunidade. Isso muda a relação. Nós processamos coisas que foram cuidadas por outras pessoas. 

AUPA – E os pequenos produtores? O Mocotó abrange esses profissionais no processo de escolha de fornecedores?
Rodrigo Oliveira – Sim. Pequeno produtor não necessariamente com o rótulo que entendemos. Lutamos pelo rótulo de excelência.O crivo é o produtor de excelência, pode ser um pequeno produtor de orgânicos de São Paulo, uma indústria no Ceará, um produtor de carne orgânica no Mato Grosso.Nosso fornecedor de uniformes, por exemplo, é alguém do bairro.

ODS 2, que trata de zerar a fome e promover agricultura sustentável. Crédito: Equipe de Arte Aupa.

Ela é excelente. Se ela crescer, vamos ajudar. Então depende muito. Às vezes, um pequeno produtor de cogumelo tem o faturamento 10 vezes maior do que alguém que produz alface. Quais os parâmetros que definimos para o pequeno? Então, falamos da busca por excelência.

AUPA – Como vê a importância da cultura nordestina na nossa identidade gastronômica?
Rodrigo Oliveira – Penso que toda grande cozinha nacional se tornou internacional. Na verdade, a cozinha nacional é um conjunto de cozinhas regionais. Vemos de maneira homogeneizada, mas aproximando um pouco mais, você vê muitas cozinhas. 

Para termos uma grande cozinha brasileira, precisamos decodificar nossas cozinhas regionais. O Mocotó conseguiu um feito: de alguma forma traduzir a cozinha sertaneja para uma linguagem universal. Quando começamos, nem o público paulistano entendia bem a cozinha sertaneja como gastronômica. E, hoje, vemos o Mocotó nas listas de melhores restaurantes no mundo. 

Recebemos o prêmio World Restaurant Awards – 2019 de melhor do mundo na categoria sem reserva. Os finalistas na nossa categoria eram restaurantes da França, Itália e Espanha. Fomos pra lá sem a menor esperança de ganhar e, pra nossa surpresa, ganhamos o prêmio.

Isso é óbvio que não mostra que somos melhores do que qualquer um finalistas, mas é tão subjetivo que é incomparável. É muito difícil criar um parâmetro para comparar. O grande prêmio é comprovar que agora temos um alfabeto, construímos uma linguagem capaz de se comunicar com o mundo tudo. Esse é o grande prêmio. Conseguimos conversar com o mercado.

AUPA – Como foi participação do restaurante na campanha “Gente é pra brilhar e não pra morrer de fome”?
Rodrigo Oliveira – Fizemos almoço em uma ocupação, a cinco minutos do Mocotó, servimos mais de três mil pessoas. É uma ação da sociedade civil, mas também um chamado para o Poder Público, afinal há direitos básicos sendo desrespeitados.

Não devemos achar normal gente morrendo de fome. E hoje há certa normalidade, o que é um absurdo. 

Lembrar que, sim, precisamos da sociedade civil organizada, mas que o Poder Público tem o poder central na questão de garantir os direitos básicos.

Muito ajuda quem não atrapalha

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Crédito: Fauxels

Por melhores que sejam as intenções dos financiadores ao oferecerem processos de aceleração e capacitação às organizações apoiadas, muitas vezes, eles se “esquecem” de perguntar o que as iniciativas sociais realmente precisam e acabam impondo uma visão top down, que nem sempre contribui, de fato, para o desenvolvimento institucional desses projetos.

Apesar de, em geral, ser impossível oferecer um programa de potencialização sob medida para cada organização apoiada, empurrar um “pacote padrão” de capacitações tende a não trazer muitos resultados. Afinal, muitas vezes, os líderes ou colaboradores já passaram (ou estão passando) por outras formações semelhantes. Sem contar que, se cada financiador exigir a presença dos líderes em seus processos de capacitação, é possível que esses empreendedores passem mais tempo participando de oficinas do que realmente liderando suas organizações…

Realizar um bom diagnóstico das organizações, num processo co-criado com elas, é o primeiro passo para um uso mais eficaz dos recursos (e do tempo de todos!) e para que se estabeleça um trilho de crescimento e desenvolvimento relevante e eficiente.

Uma escuta ativa e empática das dores desses líderes e de suas organizações somada a uma construção colaborativa de uma jornada de aprendizado tende a apresentar resultados mais satisfatórios para todos.

Ao longo dos últimos anos, a ponteAponte vem investindo em processos de potencialização que seguem esses princípios (inclusive já escrevemos um artigo sobre o tema para a plataforma do GIFE). Partimos sempre de um diagnóstico inicial, contando tanto com uma avaliação nossa quanto com uma autoavaliação da organização, para desenharmos uma trilha de encontros, oficinas e mentorias, que faça sentido para o grupo de apoiados, privilegiando, sempre que possível, a potencialização cruzada, isto é, a troca de saberes e experiências entre o próprio grupo.

Aos financiadores, sugerimos, quando viável, que participem ativamente do processo de potencialização também, ao invés de somente “assinar o cheque”. Conhecer o dia a dia das organizações, além de suas necessidades e potencialidades, contribui para um relacionamento mais próximo e fluido entre financiador e financiado. Mas, evidentemente, desde que essa relação seja construída com base na confiança e no interesse genuíno em participar. Caso contrário, se o financiador aparecer “do nada” em uma oficina no meio do processo, pode dar a impressão de estar lá para controlar, ao invés de colaborar.

Vale ainda ressaltar que, para boa parte das organizações sociais, processos de potencialização são importantes, mas o recurso financeiro é essencial. Assim, pode ser difícil esperar um grande engajamento em capacitações, se o recurso doado e/ou investido não fizer jus ao resultado desejado.

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Água negociada na Bolsa de Valores norte-americana

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Crédito: nasdaq

A água sempre foi um dos elementos fundamentais para a vida no planeta Terra. Recentemente, ela ganhou ainda mais importância, pois contribui para a prevenção contra Covid-19. E, dentro desse contexto, surgiu no estado da Califórnia (Estados Unidos) uma novidade relevante: a especulação sobre a água da região na Nasdaq, uma das principais Bolsas de Valores do mundo. O mercado financeiro poderá negociar contratos futuros desse bem em breve. O início dos investimentos deve acontecer em 7 de dezembro, a depender apenas de revisões regulatórias.

Crédito:Equipe de Arte Aupa.

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Especular na Bolsa de Valores sobre o preço da água gera uma preocupação natural. De imediato, pode não parecer uma boa ideia colocar preço e fazer negócios com um recurso vital. Mas é preciso aprofundar no assunto e entender possíveis pontos positivos e negativos.

Como vai funcionar
A Califórnia é também conhecida por seus problemas ambientais.Por isso, há 2 anos, criou um índice que estabelece um preço para a água. É uma forma de tentar controlar as negociações desse bem entre indivíduos, companhias de distribuição e governo. Agora esse índice servirá também para a Bolsa. E, a partir desse preço, haverá a negociação de contratos futuros. Na Nasdaq essas negociações serão identificadas como Nasdaq Veles California Water Index. O código que aparece nos sistemas tem um detalhe curioso, o H2O (remetendo H2O) no final: NQH2O.

Baseados neste índice de preço da Califórnia, que agora deve variar mais do que nunca, os investidores vão comprar ou vender contratos futuros de água. Se eles entenderem que a água vai ficar escassa, provavelmente haverá uma grande procura, afinal o preço subirá em breve.

Essa discussão sobre o preço da água tem ganhado espaço e gera controvérsias. “Sempre pensamos na água para abastecimento. Mas a água presta muito mais serviços para nós, enquanto reguladora do clima, por exemplo, e para manter a funcionalidade dos ecossistemas.

E, se estou precificando a água, estou junto com isso precificando a regulação do clima. É difícil precificar o quanto isso custa. É algo tão complexo e tem tantas variáveis, até com questões éticas relacionadas. A partir do momento que você põe valor, você diz que isso pode ser trocado por dinheiro. Mas um recurso natural não é tão substituível por dinheiro”, observa Leticia Marques, especialista e co-head da área de Direito Ambiental do KLA Advogados.

Leticia Yumi Marques, especialista e co-head da área de Direito Ambiental do KLA Advogados. Crédito: Arquivo Pessoal

A empresa que controla a Nasdaq, CME (Chicago Mercantile Exchange), garante que oferecerá a agricultores, empresários e prefeituras “transparência, mapeamento de preços e transferência de risco com o custo da água”.

Rodrigo Zeidan, professor da New York University Shanghai e da Fundação Dom Cabral. Crédito: Arquivo Pessoal

Apesar da novidade chamar atenção, a entrada dos investidores no mercado futuro da água deve ser tímida inicialmente. O economista Rodrigo Zeidan, professor da New York University Shanghai e da Fundação Dom Cabral, explica o motivo: “Esses contratos são rastreados em direitos de água de certos locais dos Estados Unidos. Não é um grande contrato para qualquer investidor querendo ter um seguro contra risco de falta de água. É algo bem local”.

Vantagens
Tanto Leticia quanto Rodrigo consideram que é possível encontrar vantagens nesses contratos futuros da água. Eles entendem que um dos caminhos para o sucesso do desenvolvimento sustentável é estimular as empresas a se engajarem nisso. Mas isso só vai acontecer se os cuidados ambientais gerarem dinheiro. “Pode não ser moralmente bonito de se dizer, mas é importante que a preservação gere lucro, afirma Leticia.

As possíveis vantagens dos contratos futuros da água estão ligadas ao que está sendo feito agora: as revisões regulatórias. É o estabelecimento de padrões para todos os contratos. Essas regras serão determinantes para o fracasso ou para o sucesso da proposta.

“Esses contratos futuros dão, para quem está vendendo, a obrigação de entregar água daqui a 1 ano ou 2 anos. E para você ter isso, precisa garantir estabilidade desse recurso. O que a legislação prevê é que precisa de base técnica para que esse recurso hídrico seja mantido. Então, é necessário preservar bacias e haver sustentação do meio ambiente. Caso contrário, o recurso fica escasso”, confirma Leticia.

Essa “obrigação de entregar” água não existirá em muitos casos, pois nem sempre os contratos futuros terminam com entrega física. Um investidor pode comprar um contrato futuro de água e vendê-lo antes do vencimento, para obter lucro. Rodrigo Zeidan acredita que isso deve acontecer com frequência: “Contratos futuros não costumam virar venda física. E não vai ser diferente com esses. A maior parte é para ser negociada financeiramente”.

Mas mesmo assim Rodrigo aponta para outra possível vantagem das especulações: o alerta que pode ser gerado pelo aumento no preço da água. Se muitas pessoas começarem a vender os contratos, para obter lucro com o preço alto, será preciso atenção. “Se água foi mais vendida que comprada, isso acende alerta e talvez antecipe investimentos públicos para suprir a água. Isso seria bom. Quando teve racionamento em São Paulo, por exemplo, se tivesse contrato futuro, com o pessoal apostando que ia ter falta de água, talvez acionasse uma luz na mente do gestor público para não deixar faltar água”, afirmou ele, referindo-se à crise hídrica que se agravou no Estado de São Paulo em 2014.

Essa “conversa” entre mercado financeiro e governo pode ser fundamental para o desenvolvimento sustentável. Rodrigo citou como exemplo as multinacionais que cuidam do meio ambiente porque precisam de recursos da Amazônia. Denis Minev, co-fundador da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), concorda que as empresas precisam ter um papel na preservação do meio ambiente. E explica a importância disso: “A geofísica da Amazônia é diferente, devido à cobertura (de árvores). A maior parte da chuva cai na árvore e não é drenada para os rios. Isso transpira e vira nuvem de novo e continua a jornada para o Oeste, batendo nos Andes e fazendo curva pro Sul do país. Essa chuva abastece essa região. Por isso o Centro-Oeste é úmido. Então, tem um serviço ambiental sendo prestado para tudo, até para o abastecimento das hidrelétricas, que geram maior parte da energia. Portanto, a manutenção da floresta tem sua importância. Se não tiver (a floresta), a água vai para os rios e vai pro Oceano Atlântico. O Centro-Oeste vai deixar de ser úmido e produtivo para o agronegócio”, explicou Denis, destacando a importância da preservação ambiental inclusive para os investidores do agronegócio, que, muitas vezes, são a favor do desmatamento desmedido.

Riscos
Colocar a água na Bolsa de Valores não envolve só possíveis vantagens. Existem riscos que precisam ser bem protegidos pelas revisões regulatórias, que estão sendo elaboradas neste momento.

“O ponto negativo é ficar à mercê da flutuação do mercado. No mercado futuro, quem compra só se dá bem se lá na frente tiver havido falta de água ou carência de abastecimento. Isso faz o valor ser maior que o valor efetuado no passado. Em uma situação dessa, perde quem emitiu o título. E não sei se essa questão comercial, de perda de dinheiro mesmo, pode fazer com que essa briga interfira na preservação de recursos. Por isso precisa de uma regulação restritiva, para prever e mitigar impactos negativos, alerta Leticia.

Também é importante se preocupar com possíveis situações emergenciais. Ainda não está explicada qual será a prioridade dada para entrega dessa água se houver uma grande escassez do recurso.

“Existe na política nacional de recursos hídricos o uso prioritário da água. Ou seja, em situação de escassez, o uso prioritário é para abastecimento humano e de animais. Depois vai, como uma escadinha, flexibilizando até o uso menos nobre, que seria a água como recurso em uma indústria. Pensando no mercado futuro, em uma situação de falta da água, se houver declaração do governo de um estado de urgência hídrica, na minha opinião esse contrato futuro sofreria reflexo disso. Se eu fizer contrato para 2022, mas quando chegar em 2022 tiver outra crise hídrica, onde estaria a prioridade? Será que seria permitido entregar essa água pra usar?”, questiona Leticia.

É tendência para o futuro?
Investimentos ambientais não costumam virar uma grande tendência no mercado financeiro. E, como destacou Rodrigo, a iniciativa da Califórnia deve ficar restrita inicialmente. Mas o fato da água ser tão vital aumenta a importância dessa mudança, pois ela pode influenciar novas ideias. E se funcionar bem na Nasdaq, outros países podem fazer projetos parecidos em suas Bolsas de Valores.

Só as revisões regulatórias e o tempo vão dizer se é uma boa ideia. Mas a criação desse iniciativa deixa uma reflexão importante, levantada por Leticia: “Talvez eles (americanos) pensem mais no futuro do que nós. Aqui passamos por uma crise hídrica, que mexeu com a vida de toda a população, e como fica hoje? Tudo que foi feito pelo governo é para manter abastecimento. Mas não temos notícias do que está sendo feito para evitar que outra crise aconteça. Quando um Estado pensa no mercado futuro, me parece uma preocupação de que é possível que a água falte novamente”.

Portanto, ainda é cedo para afirmar se a entrada da água na Bolsa de Valores é uma boa ideia ou um risco para o meio ambiente. Mas é fácil cravar que esse projeto merece ser observado, pois tem chances de contribuir para um desenvolvimento sustentável que gera lucro.

Conheça a Economia de Francisco

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crédito: Equipe de Arte Aupa.

Entre os dias 19 e 21 de novembro, cerca de 500 pessoas participaram do evento on-line “Economia de Francisco: juntos por um novo pacto global”. Trata-se de um movimento convocado pelo Papa Francisco, que busca reunir e articular pessoas e organizações do mundo todo e que desejam construir um sistema econômico “mais justo, inclusivo e regenerativo”, segundo a descrição.

A programação brasileira foi feita a partir da parceria entre Associação Nacional por uma Economia de Comunhão (Anpecom), Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e Sistema B. Embora o movimento parta de uma iniciativa do líder da Igreja Católica, ele não se restringe a estes fiéis: o público-alvo são todos aqueles que operam nas estruturas do sistema econômico.

Maria Helena Faller, presidente da Anpecom, destacou que o evento é um início para os diálogos também com o ecossistema de negócios socioambientais no Brasil. “A profunda crise econômica, social e ecológica que vivemos é também uma oportunidade para dar à economia uma nova ‘alma’, que não desconecte propósito de lucro, mas que, acima de tudo, seja justa para todos os trabalhadores e também ao planeta”.

Ainda, nos dias 19 e 20, a agenda brasileira dedicou-se ao diálogo com empreendedores, investidores, intermediários, aceleradoras, economistas, jovens, dentre outros atores do ecossistema de impacto, além de pessoas interessadas na pauta. Participaram desta programação: Célia Cruz (diretora executiva do ICE), Pedro Tarak (líder sênior de pontes globais do Sistema B Internacional), Marcel Fukayama (diretor executivo do Sistema B Internacional), Renata Nascimento (fundadora e presidente do Conselho do ICE), Lucas Ramalho Maciel (coordenador da Enimpacto), Márcia Silveira (diretora de articulação e comunicação institucional do Sistema B Brasil), Ricardo Glass (membro curador do Sistema B Brasil), Julia Rodrigues Melo (diretora nacional do Instituto Amani) e Maria Helena Faller.

Representando a sociedade civil, sendo também um ator do ecossistema, Jean Santos (empreendedor social de Salvador, na Bahia) compartilhou: “Na minha realidade, na periferia, procurei criar minhas próprias oportunidades, dar a oportunidade sendo a oportunidade. O caminho é transbordar, prevenir, intervir sendo igual, equânime e equilibrado. Porque é a Educação que vai diminuir a pobreza”.

O último dia do evento (21) foi, sobretudo, dedicado à juventude e às gerações de futuros líderes, tendo como tema “Jovens juntos por um pacto global”. O foco foi o protagonismo destes indivíduos em prol do desenvolvimento humano e sua influência também em ações e decisões macroeconômicas.

Os interessados em assinar o novo pacto global podem acessar este link

 

Programa Mundial de Alimentos da ONU ganha Nobel da Paz e traz lições importantes sobre combate à fome

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Crédito: WFP Centro de Excelência contra a Fome Brasil

Alimentar por dia mais de 100 milhões de pessoas ao redor do mundo e apoiar a criação de Políticas Públicas para erradicar a fome nos países mais pobres são algumas das atividades do Programa Mundial de Alimentos da ONU, conhecido em inglês pela sigla WFP (World Food Programme).

A criação do programa aconteceu em 1961, quando o então presidente americano Dwight Eisenhower fez um pedido durante a Assembleia Geral da ONU para o desenvolvimento de um projeto capaz de promover assistência alimentar por meio do sistema das Nações Unidas. Em 2020, após 59 anos da criação, veio o grande reconhecimento: o prêmio Nobel da Paz.

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David Beasley, diretor executivo do Programa Alimentar Mundial da ONU, ao saber que o WFP havia sido laureado com o Prêmio Nobel da Paz de 2020. Créditos da imagem: News 19 WLTX.

A agência humanitária presente em mais de 80 países, com 17 mil pessoas, trabalha para cumprir o segundo ODS (Objetivos Desenvolvimento Sustentável) da ONU: fome zero e agricultura sustentável. Nesta direção, o programa distribui 15 bilhões de refeições anualmente.

ODS 2, que trata de zerar a fome e promover agricultura sustentável. Crédito: Equipe de Arte Aupa.
Daniel Balaban, representante do WFP no Brasil e diretor do Centro de Excelência Contra a Fome. Crédito: Divulgação

“No mundo, trabalhamos para levar comida onde precisa. Naqueles países já estáveis, ajudamos a criar Políticas Públicas para que não haja mais fome. Ensinamos a desenvolver estrutura e políticas através de especialistas. Trabalhamos também com países africanos e asiáticos”, conta Daniel Balaban, representante do WFP no Brasil e diretor do Centro de Excelência Contra a Fome.

Aqui no Brasil a atuação do Programa Mundial de Alimentos se dá pelo Centro de Excelência contra a Fome, com sede em Brasília. O principal foco no país é ser um hub global de diálogo para formação de Políticas Públicas, desenvolvimento de capacidades, aprendizagem e assistência técnica Sul-Sul para erradicar a fome.

O Brasil se tornou um centro de aprendizagem para outros países graças à saída do Mapa da Fome, em 2014, e ao conseguir tirar 50 milhões de pessoas da extrema pobreza.

“Mais de 50 países do mundo aplicam políticas sociais que foram desenvolvidas no Brasil, como a política de alimentação escolar, de apoio à agricultura familiar e o Bolsa Família”, explica Balaban.

Mas este quadro está ameaçado. No Brasil, segundo a agência, há uma previsão de que mais de 5 milhões de pessoas passem para a extrema pobreza por conta da pandemia. A ONU também tem alertado para o crescimento da fome em 269% na América Latina devido ao cenário – este dado diz respeito ao número de pessoas enfrentando insegurança alimentar severa.

O cenário mais frágil faz com que o trabalho do Centro de Excelência Contra a Fome seja cada vez mais necessário, principalmente no que diz respeito ao incentivo para investimento em Políticas Públicas. Com isso, a agência concentra esforços para convencer líderes da importância de focar na manutenção e aprimoramento das políticas.

“Nosso papel no Brasil é a participação no debate, mostrar a importância da retomada dos orçamentos das Políticas Públicas e sociais. Precisamos que aqueles que têm o poder decisório nas diferentes esferas entendam a importância da retomada disso”, afirma o representante do WFP no Brasil.

Para Balaban, lidar com a miséria e a fome é muito mais custoso em termos sociais e econômicos do que investir em políticas sociais. A concentração de renda é outro problema que perpassa essas desigualdades.

“Por que o Brasil é tão rico e tão desigual? Poucas famílias detêm todo o dinheiro do país. Não falamos contra as famílias. O sistema está errado. Precisamos mudar o sistema. Ao criar novos formatos de políticas sociais, estamos levando renda para pessoas que não possuem renda”, reflete Baladan.

A seguir, clique no box para acessar o Centro de Excelência Contra a Fome. 

Crédito: Equipe de Arte da Aupa.

O agro é pop?
O Brasil vive um paradoxo. Enquanto produz alimento para mais de 1 bilhão de pessoas, cerca de 10 milhões de brasileiros sofreram com falta de alimento, ao menos, em alguns momentos de 2017 e 2018, de acordo com dados do IBGE. 

A necessidade de descentralizar a renda se coloca ainda mais forte e abrange o agronegócio, segundo Baladan. “O agronegócio está na mãos de poucas pessoas, o negócio está pensando no lucro. Nada contra, mas não dá falar que ele vai resolver os problemas sociais”.

Neste contexto, a importância de valorizar o pequeno agricultor familiar se mostra urgente, pois, sem apoio, essas pessoas abandonam as terras e migram para os grandes centros. Isso impulsiona a vulnerabilidade, já que muitos são alocados em subempregos ou ficam desempregados.

Outra problemática que brasileiros enfrentam é a qualidade e segurança alimentar. Em 2019, o Brasil aprovou a liberação de 474 agrotóxicos, maior número registrado pelo Ministério da Agricultura desde 2005, quando os dados começaram a ser divulgados.

Precisamos parar um pouco com a preguiça. É mais fácil jogar pelo avião o agrotóxico e não acompanhar a planta. Hoje, agricultores estão criando vacinas para as plantas ficarem mais resistentes às pragas e isso é mais natural. É uma questão de avanço tecnológico”, ressalta o diretor do Centro de Excelência Contra a Fome. 

Delegação de Uganda conhecendo a horta hidropônica em visita de estudos a uma escola localizada em Brasília. Crédito: WFP/Natan Giuliano.

A mensagem principal do Centro de Excelência contra a Fome é que o combate à miséria e à fome seja o foco em todos os poderes. Isso significa disponibilizar recursos orçamentários para Políticas Públicas.

Corremos o risco do país com a maior exportação ter pessoas morrendo de fome. Ainda há tempo. Desde que as pessoas se conscientizem e que quem detém o poder em todas as áreas trate o tema com prioridade”, afirma Baladan.

 

Imagem de capa extraída da página do WFP Brasil no Facebook.

HIV e AIDS: solidariedade de todos, responsabilidade coletiva

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Mundialmente, todo ano, em 1° de dezembro, se comemora o Dia Mundial de Luta contra à AIDS. O intuito da data é reforçar o debate sobre o tema, solidarizar com as pessoas que vivem com HIV e lembrar daqueles que partiram durante a jornada.

Ainda há muitos estigmas relacionados ao vírus, sejam eles por desconhecimento, estereótipos ou desinformação. Por isso, é fundamental abordar o tema em diferentes frentes. Sob a ótica do ecossistema, as mobilizações do Investimento Social Privado (ISP) na agenda – de diversidade – ainda são poucas. Iniciativas existem em centenas, porém os recursos, tanto privados quanto públicos, não chegam até a outra ponta. Tornando, assim, importante e urgente a sensibilização com o tema.

No player abaixo, o psicólogo Eduardo Oliveira explica sobre como se referir a pessoas com HIV e também como ressignificar os termos:

HIV x AIDS: quem é quem? 
HIV é uma sigla para vírus da imunodeficiência humana e sua principal forma de contágio é a via sexual. Ao contrário de outros vírus, como a gripe, o corpo humano não consegue “se livrar” do HIV. Então, uma vez contraído o vírus, você viverá com ele para sempre.

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) é o avanço dessa infecção pelo HIV, surge quando a pessoa – devido à baixa imunidade corporal, ocasionada pelo vírus – apresenta infecções oportunistas, como tuberculose ou pneumonia.

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Crédito: Equipe de Arte Aupa
Jonas Guerra, Designer. Crédito: Arquivo Pessoal
Jonas Guerra, Designer. Crédito: Arquivo Pessoal

Vivendo com HIV
Jonas Guerra nasceu em Manhuaçu, um município de 90 mil habitantes no estado de Minas Gerais. Em 2011, quando tinha 21 anos, deixou a pequena cidade para seguir o sonho de estudar a mais de 1.000 quilômetros distante de casa, em Curitiba. Lá, ele cursou Design na Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

Em um dos momentos mais importantes da vida, em que realizava o sonho de estudar fora do país pelo programa Ciências Sem Fronteiras, em 2015, o jovem designer descobriu que tinha HIV.

“Um mês depois que estava na Finlândia, apresentei alguns sintomas, como mancha na pele, garganta machucada. E realizei os exames lá. Estava com sífilis na segunda fase, fiz o tratamento e na semana seguinte saiu o resultado do HIV”, conta Jonas. 

Após a descoberta, vários exames foram necessários. Inicialmente, ele foi informado que o sistema de saúde finlandês cobriria os custos desses exames, porém, após realizá-los, o sistema disse que não iria cobrir os gastos. A conta ficou em R$12.000,00. 

A partir daí, Jonas travou uma extensa batalha para tentar o tratamento de HIV na Finlândia e terminar o semestre da bolsa do Ciências Sem Fronteiras. 

“O seguro saúde disse que não iria cobrir nada, pois era HIV. Iniciamos o diálogo com a embaixada brasileira para trazer o remédio brasileiro para lá, mas eles disseram que não tinha como. Entrei em contato com o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], e o órgão disse também que não conseguiria ajudar”, explica o jovem. 

Uma alternativa encontrada pelo designer foi solicitar um retorno temporário, na tentativa de conseguir o tratamento no Brasil e, depois, voltar ao intercâmbio. Após receber dois e-mails do CNPq confirmando que o retorno estava aprovado, uma terceira mensagem informava que o intercâmbio estava cancelado. 

“Tentei dialogar com todos os órgãos. Por fim, falaram que eu podia voltar, mas o médico precisava me dar um laudo e eu precisava pagar todos os custos do seguro. Mandei o laudo para o CNPq e a resposta que tive foi: ‘Prezado, não entendi sua solicitação’. Procurei apoio da Defensoria Pública de Manhuaçu, na  Justiça Federal e também no Núcleo de Práticas Jurídicas de uma faculdade, e ninguém me deu uma saída”, desabafa.

Todos esses entraves e a desorganização por parte de diferentes órgãos fizeram com que o então estudante não concluísse o intercâmbio. Além disso, o deixou com  uma dívida de mais de R$20.000,00, somando a devolução da bolsa, seguro saúde e hospital. Atualmente, o processo corre na justiça e Jonas solicitou o perdão da dívida.

“As pessoas que estavam lidando com o processo não tinham qualificação e nem buscaram entender o que estava acontecendo. Foi uma decisão precipitada e não foi profissional. Deveriam consultar alguém da área de Saúde”, afirma.

Apesar de todos esses desafios, Jonas relata que o apoio de pessoas próximas e a personalidade mais expansiva ajudaram nesse período. Eu sou da área criativa, tenho um olhar mais leve da vida. Conclui o semestre lá e voltei ao Brasil, fui recepcionado pelos meus amigos e minha família.”

Amante de jogos, ele afirma que o videogame e os jogos de tabuleiros colaboraram para tirar o foco dos efeitos colaterais do tratamento. O budismo foi outro apoio que o jovem encontrou. “Com a prática do budismo, os próprios budistas pediram para eu relatar a questão de superação. Entre maio e junho de 2017, assumi publicamente o meu status de HIV. Amigos e pessoas vêm até a mim pedindo para tirar dúvida”, conta.

Jonas é indetectável para HIV. Isso significa que, nos exames, a amostra do vírus é tão pequena, que não é possível detectar.

Nesta nota explicativa da UNAIDS, a instituição cita três estudos que afirmam que uma pessoa com carga viral indetectável há pelo menos 6 meses não transmite para outras pessoas em relações sexuais.

Mesmo assim, o jovem já enfrentou desafios com relacionamentos e também vivenciou preconceitos. “Já sofri preconceito sim, como ataques verbais. Falaram que saí contaminando os outros por aí, recebi mensagens anônimas, mas esses xingamentos diminuíram bastante”, completa. 

O acolhimento e a quebra de estigmas relacionados ao HIV é algo importante para a jornada de uma pessoa que testa positivo. O psicólogo Eduardo Oliveira, além de trabalhar com prevenção combinada no projeto PrEP 15-19, também presta atendimento psicológico para pessoas com HIV.

“Muita vezes, o estigma de uma pessoa com HIV está ainda associado a uma ideia dos anos 1980, uma culpa que essa pessoa tem que carregar, um castigo. Junto dessas pessoas, há a ansiedade e a tristeza profundas em virtude do estigma da discriminação”, comenta o psicólogo. 

Em São Paulo, 80,7% das pessoas que vivem com HIV entrevistadas para o Índice de Estigma relatam dificuldade para contar às pessoas sobre o diagnóstico, segundo pesquisa organizada pela UNAIDS (Joint United Nations Program on HIV/AIDS) e outras organizações.

Eduardo Oliveira  trabalhou no atendimento de prevenção e orientação no projeto PrEP 15-19. Crédito: Arquivo pessoal.
Eduardo Oliveira trabalhou no atendimento de prevenção e orientação no projeto PrEP 15-19. Crédito: Arquivo pessoal.
Crédito: Equipe de Arte Aupa

Outro ponto de reflexão é sobre a discriminação de pessoas com HIV estar ancorada a outros preconceitos. “Seja uma discriminação quanto à orientação sexual, à identidade de gênero ou até mesmo quando falamos de cor da pele. Acho que o estigma do HIV acaba dialogando com outros estigmas sociais, que tendem a deixar a pessoa ainda mais em situação de vulnerabilidade”, afirma Eduardo.

Para o psicólogo, é fundamental que o diálogo sobre HIV aconteça em vários espaços, para além do serviço de saúde. “Não temos educação sexual nas escolas, as pessoas crescem com medo do HIV justamente porque elas não têm acesso ao que é o HIV e  quais os tipos de prevenção que há. Ainda estamos em uma sociedade que costuma associar a prevenção à camisinha, quando, hoje em dia, já falamos em prevenção combinada, PEP (profilaxia pós-exposição), PrEP (profilaxia pré-exposição), testagens, outros aspectos”, explica.

Prevenção e tratamento
Atualmente, há diversas estratégias de prevenção e tratamento para o HIV. É a chamada prevenção combinada, que traz diversas possibilidades para evitar a infecção. 

Além do conhecido preservativo (masculino e feminino) e uso do gel lubrificante, a profilaxia pré-exposição, conhecida como PrEP, é ofertada pelo SUS. Ela consiste no uso diário de medicamentos antirretrovirais antes de uma exposição de risco ao HIV. 

“A pessoa pode tomar a PrEP por um, dois anos. Depois deste período, se ela não quiser mais, interrompe – afinal, a vida das pessoas não é linear a todo momento. Essas escolhas são feitas a partir da informação que o paciente tem sobre prevenção e do contexto de vida dele”, afirma Adriano Silva,  coordenador de prevenção da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

Outra forma de prevenção é a testagem para HIV, sífilis e hepatites virais B e C, além do diagnóstico e o tratamento das infecções sexualmente transmissíveis (IST), já que elas podem ser a porta de entrada para o HIV.

Para os casos de pessoas que foram expostas a uma relação sexual sem proteção ou que houve falha do preservativo, também é possível utilizar a PEP (profilaxia pós-exposição), que consiste em uma medicação antirretroviral ingerida até 72 horas após a exposição e por 28 dias seguidos. Essa opção pode ser escolhida por qualquer pessoa que se sinta em situação de vulnerabilidade para a infecção.

Mas e quando a pessoa testa positivo para HIV? Atualmente, há  medicamentos antirretrovirais (ARV) disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) para pessoas vivendo com HIV, sendo fundamentais para a qualidade de vida do paciente.

Segundo o coordenador de prevenção da Coordenadoria de IST/Aids, Adriano Silva, em 2020, na cidade de São Paulo, a média para iniciar o tratamento com os antirretrovirais após a descoberta do HIV é de 20 dias. Em 2016, o tempo médio era de 180 dias. 

“O tratamento precoce traz duas vantagens. Uma primária: quanto mais cedo a pessoa se trata, mais ela preserva a própria saúde. E uma secundária: a pessoa fica indetectável e não transmite o vírus, então quebra a cadeia de transmissão”, pontua Adriano. 

Todas essas alternativas podem ser encontradas na rede pública de saúde, de graça para a população. A cidade de São Paulo, por exemplo, tem 26 serviços municipais especializados em ISTs/Aids, que abrangem nove Centros de Testagem e Aconselhamento (CTAs) e 17 Serviços de Atenção Especializada (SAEs). Confira os endereços aqui.

Ação de testagem. Crédito: Coordenadoria de IST Aids.

O trabalho dentro do ecossistema
Desde 1993, a Gestos vem trabalhando na garantia dos Direitos Humanos das pessoas que vivem com HIV e AIDS no Brasil. Um de seus trabalhos é no Recife (PE), onde está a sede da organização, que oferece gratuitamente serviços sociais, psicológicos e jurídicos.

Outra frente é a da formação política, chamada de “GTs em Ativismo”. O objetivo desses grupos de trabalho é fortalecer a incidência política na promoção de novas Políticas Públicas e específicas da agenda. Participam desses grupos mulheres, travestis, homossexuais masculinos e jovens (12 a 29 anos).

Alessandra Nilo, co-fundadora e coordenadora geral da Gestos. Credito: Arquivo pessoal.
Alessandra Nilo, co-fundadora e coordenadora geral da Gestos. Credito: Arquivo pessoal.

Alessandra Nilo, co-fundadora e coordenadora geral da Gestos, explica que essa atuação “expandida” é intencional: “Enxergamos que não é possível tratar o HIV e a AIDS apenas do ponto de vista da saúde. É preciso trazer os aspectos dos Direitos Humanos e a questão do desenvolvimento sustentável também”. Ela ainda completa que “A Gestos acredita que, sem um mundo sustentável, mais justo e equitativo, não será possível responder a esses números (do HIV/AIDS)”.

Entre os desafios atuais do tema, Alessandra cita o preconceito e a discriminação: “Ao observar o perfil das pessoas mais atingidas pelo HIV/AIDS – jovens, LGBTQ, mulheres, população negra – vemos uma parcela da população que historicamente vem sendo deixada para atrás pelas políticas públicas no Brasil”.

Outro desafio, segundo ela, é a sustentabilidade das organizações: “Nos últimos anos, o fato do Brasil se tornar um país de renda média (renda per capita anual entre entre R$17.400,00 e R$53.800,00, segundo o Banco Mundial) fez com que muitas agências de cooperação internacional saíssem do país. Elas foram incentivadas por um discurso de que existia uma política para AIDS muito consistente e consolidada”. Alessandra completa: “Porém, essa política não dá conta de cuidar das necessidades das pessoas e as desigualdades tornam essa questão ainda mais complicada, inclusive no Nordeste”, ela conta.

O trabalho de assessoria jurídica da Gestos, de 1995 até hoje, beneficiou diretamente mais de 3 mil pessoas. Em 2019, 141 pessoas foram atendidas, entre elas, 60 que tiveram seu primeiro atendimento. “Muitas pessoas chegam na Gestos, como indivíduos pobres e que estão sendo deixados para trás, sem ter nenhuma ciência dos seus direitos. Então, quando elas chegam na instituição e são atendidas na hora marcada por profissionais com um nível de acolhimento forte, amoroso e que gera confiança, elas ficam nos agradecendo, de uma forma, como se não tivessem direito aquilo. Mas todos têm o direito de ser bem atendido”, explica Alessandra.

Alessandra ressalta que “As Organizações da Sociedade Civil (OSC) são essenciais e fundamentais para o Brasil”, citando o contexto da Covid-19 onde essa percepção ficou mais evidente. “Mesmo o Governo Federal dizendo que não é sua responsabilidade cuidar das pessoas. Foram as OSCs que conseguiram – de alguma maneira – aliviar e continuam aliviando no momento em que as Políticas Públicas falham ou não possuem qualidade e capacidade de ajudar”, afirma ela, que completa: “O papel delas (OSCs) é fundamental, inclusive, na estrutura democrática e na promoção de direitos. Infelizmente, não temos um Estado que se preocupe em disseminar direitos na sociedade. Quem faz e vêm fazendo isso há anos são as OSCs”.

Ao citar o decreto federal de 2019, que oficializou a extinção de conselhos e comissões nacionais onde a sociedade civil participava, Alessandra alerta para necessidade de retomar a política de participação social no país. “O Estado brasileiro precisa reconhecer e respeitar o trabalho importante dessas organizações”, diz Alessandra, que enxerga o decreto como uma tentativa do Governo liderado por Jair Bolsonaro (sem partido) em acabar com o direito constitucional.

“Além da falta de cuidado e estímulo, o Governo Federal vem realizando um trabalho consistente para tentar criminalizar as OSCs e não proteger os defensores e as defensoras dos Direitos Humanos no Brasil. Um trabalho sistêmico para devastar essa política social”,

 salienta Alessandra.

Laiza Lopes

Laiza Lopes

Laiza Lopes é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e especialista em Direitos Humanos, Diversidade e Violência pela UFABC. Com mais de sete anos de carreira, já atuou em agências de comunicação e consultoria de responsabilidade social, além de escrever para sites com foco em causas sociais e periféricas.

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Leonardo Nunes

Leonardo Nunes

Leonardo Nunes é morador do distrito de Campo Limpo e jornalista formado pela FIAM-FIAM. Trabalhou com comunicação na AsBoasNovas.com, Embarque no Direito/Historiorama, Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), Malhação (Rede Globo), Prefeitura de São Paulo e SPTrans. Apaixonado por narrativas e histórias de vida, escreveu seu primeiro livro e já teve seu próprio projeto social.

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Mariana Fernandes: “A educação política é indispensável na vida do cidadão”

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A educação política é um processo de transmissão de informação e conhecimentos, com objetivo de disponibilizar às pessoas um repertório que lhes permita compreender o que acontece no setor da política, a função de cada cargo, a importância de democracia, a história do voto, além de engajar as pessoas a participarem da política.

Politize, Organização da Sociedade Civil (OSC) sem fins lucrativos voltada à educação política, produz conteúdos sobre o tema, desde corrupção, passando por Direitos Humanos, política internacional, constituições do Brasil até eleições e partidos. Além da criação de conteúdo, a Politize, atua em escolas públicas e oferece programas para jovens de todo o Brasil se tornarem capazes de resolverem problemas sociais em seus municípios. Segundo a OSC, 91% das pessoas não estão satisfeitas com a democracia, 41% dos brasileiros acreditam que tanto faz viver em uma democracia ou não e 25% dos cidadãos aptos a votar não compareceram às urnas em 2018.

Nesta conversa com Mariana Fernandes, coordenadora de comunicação e conteúdo da Politize, discute-se o entendimento do termo analfabetismo político e como a OSC ajuda os brasileiros a entenderem um pouco mais sobre política. Confira o diálogo completo.

AUPA – Qual é a importância da educação política e como a Politize forma as pessoas?
Mariana Fernandes – Primeiramente, a educação política é fundamental para tomarmos decisões enquanto cidadãos. Não existe a possibilidade de não participar da política, pois as pessoas precisam entender que ela está em tudo, desde as menores ações, como o modo de se vestir, se posicionar, enxergar a sociedade, até grandes ações, como maneiras de votar e melhor, escolher em quem votar. A educação política serve para as pessoas saberem o papel de cada cargo político e entenderem o que uma cidade, um estado e um país precisam.

Entender o valor da democracia e como ela funciona é fundamental para o dia a dia.

A Politize oferece mais de dois mil conteúdos sobre educação política para quem tem ou não internet, além de parcerias com as Secretarias Estaduais de Educação, onde sugerimos que os alunos façam matérias eletivas relacionadas à educação política para aprenderem o papel dos políticos, a história do voto e outros aspectos que envolvem o tema. Disponibilizamos em nosso site um plano de aula sobre política e qualquer professor pode baixar, por exemplo.

AUPA – O que é o analfabetismo político e por que isso acontece no Brasil?
Mariana Fernandes – O analfabetismo político afeta pessoas de diferentes classes sociais, raças e etnias. Trata-se de um problema que atravessa todos os recortes e percebemos a falta de preparo político das pessoas. Ouvimos por muito tempo que política, religião e futebol, são assuntos que não se discute, então, falar sobre política continua sendo um tabu e, assim, muitos não entendem sobre o tema. Não é um assunto que está nas escolas e nas rodas de conversas – e isso está começando a mudar agora.

AUPA – Como a Politize vê os espaços ocupados ou não pelas pessoas minorizadas (mulheres, negros, LGBTQI+s e moradores das periferias) na política?
Mariana Fernandes – Os dados mostram que a representatividade é importante e o quanto isso muda quando as mulheres, negros, grupo LGBTQI+, indígenas, entre outros grupos, estão no poder. A democracia tem a característica de representação da população, e se a população é diversa, a política também precisa ser. Acho que esses grupos minorizados estão começando a ser ouvidos agora, mas ainda é bem pouco.

AUPA – Como articular a população a se engajar politicamente sem que isso tenha relação com partidos?
Mariana Fernandes – As pessoas até têm interesse pela política, mas, como não se sentem representadas ou acham o tema burocrático e difícil, acabam desistindo. Nós da Politize, buscamos mostrar como a política impacta no dia a dia e muda a vida das pessoas. Não é uma atividade feita apenas no Congresso. Mostrar que a política pode, sim, ser didática, interessante e ter histórias inspiradoras de pessoas que fazem uma política correta, é uma forma de engajar a população a participar.

AUPA – O que é preciso mudar no sistema para que mais pessoas se engajem ou se reconheçam nos representantes eleitos?
Mariana Fernandes – A representatividade tem que ser prioritária. Como a população vai se reconhecer nos representantes se eles são diferentes dela? A educação política precisa estar presente na vida dos jovens, criando um novo Ensino Médio, e inserir essa educação para ter uma geração que sabe dos seus direitos e deveres, saiba as funções dos cargos políticos, a história do voto, a importância da democracia e saiba escolher seus representantes.

AUPA – Quais são as novas práticas políticas de inovação e democracia?
Mariana Fernandes – A inovação dos mandatos coletivos. Nessas candidaturas, o vereador eleito compartilha as decisões do mandato com um grupo de pessoas e os grupos minoritários, como as mulheres, por exemplo, estão se fortalecendo dentro da política e isso é muito positivo. Essa nova forma de mandato é um acordo informal entre pessoas de um mesmo partido para ter mais visibilidade política.

AUPA – Qual é importância da democracia? Como isso funciona no Brasil?
Mariana Fernandes – A democracia é fundamental para uma sociedade. É o melhor sistema político que combina representações, participação, entre outros pontos. Podemos ser donos das decisões, eleger pessoas que nos representam, cobrar, falar e ser ouvidos.

AUPA – Como você vê questões como líderes que duvidam dos processos eleitorais e o espalhamento das fakes news?
Mariana Fernandes – A política está muito relacionada com a fakes news e isso prejudica o segmento das eleições. As notícias falsas afetam o processo eleitoral e confundem as pessoas na hora de votar.

Precisamos de disseminação na hora de ler uma notícia, porque as fake news alimentam a falta de conhecimento político e são mais fáceis de serem espalhadas.

Integração de projetos

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Organizações que crescem frequentemente começam a realizar diversos projetos simultâneos. É muito comum que os projetos ataquem problemas parecidos, ainda que por óticas distintas. Isso é compreensível, porque as soluções de problemas complexos, como os vividos por organizações de impactos socioambientais, requerem estratégias e intervenções igualmente complexas.

Projetos são a maneira pela qual organizações – sejam OSCs, sejam negócios de impacto, sejam coletivos – orientam suas atividades para alcançar os resultados e objetivos que buscam. Mas, quando múltiplos projetos começam a ser realizados por um mesmo grupo de pessoas, a gestão pode complicar, encarecer, inchar ou até mesmo ficar irreconhecível. E pior: passa-se a ter dificuldades para ver se o problema realmente está sendo resolvido. 

Algumas organizações usam a prática de gestão de programas para tentar organizar este emaranhado de ações, que muitas vezes se interligam e influenciam umas às outras. Temáticas como pobreza, fome, aquecimento global, desastres humanitários, degradação ambiental, injustiça social, violência, dentre outras, não têm causas (e consequências) independentes: a ação de um projeto, pode influenciar – positiva ou negativamente – em outro. 

Os termos “projetos” e “programas” são, na maioria das vezes, usados indistintamente não apenas por organizações sociais, mas também por empresas. Um programa, na perspectiva da gestão de projetos, é um grupo de projetos coordenados entre si para entregar um objetivo relacionado com os objetivos estratégicos da organização que o executa. A gestão de um programa objetiva maximizar os benefícios de múltiplos projetos. Nada mais adequado quando estamos falando de organizações que lidam com problemas que têm múltiplas facetas. 

A ChildFund é uma organização social que orienta seu portfólio de projetos evidentemente seguindo a lógica de programas e de projetos. Como podemos ver em seus relatórios anuais e em seu site oficial, os projetos e o modelo de atuação para a infância e juventude são separados pela idade do público. Para cada programa, definem-se objetivos, metodologias e tecnologias sociais específicas. 

Qual a economia, o ganho de escala, a capacidade de troca e o aprendizado entre os projetos que se é capaz de adquirir quando os profissionais dedicados a uma mesma temática passam a trabalhar juntos? Para a realidade da ChildFund, foi relevante aglutinar os projetos pela idade do público. Em outras organizações, este ganho poderia ser feito, agrupando os projetos por região da atuação: ganhos logísticos poderiam ser o benefício, por exemplo. 

Para além de um ganho de eficiência na implementação de projetos, olhar para um grupo da ChildFund e pensar como eles interagem é dar um salto na visão de impacto de qualquer organização. Um projeto tem prazo determinado para terminar; a transformação que sua teoria de mudança pretende promover garantidamente ultrapassa esse prazo.

As ferramentas de gestão de programas podem ser aliadas para conduzir a teoria de mudança ao caminho – e ao impacto – esperado.

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Política para todos: conhecer para escolher

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O jargão de que “política, futebol e religião não se discutem” é utilizado quando não se tem mais argumentos em uma discussão. Quando se trata de política, o assunto precisa ser mais do que discutido: é necessário que ele seja entendido.

Com o intuito de construir uma sociedade mais sustentável, onde todos possam ser ouvidos e viver dignamente, a Organização das Nações Unidas criou os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para a Agenda de 2030. E elas estão intrinsecamente relacionadas com a política e, obviamente, com o desenvolvimento de territórios e comunidades.

Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS/ONU). Crédito: ODS Brasil.
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Sugestões para eleições 2020 Crédito: Equipe de Arte da Aupa.

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Segundo a Politize, organização da sociedade civil sem fins lucrativos (OSC) voltada para educação política, 91% das pessoas não estão satisfeitas com a democraci­a. E há mais evidências: 41% dos brasileiros acreditam que tanto faz viver em uma democracia ou não e 25% dos cidadãos no país aptos a votar não compareceram às urnas em 2018.

Na eleições de 2020, 34 milhões de brasileiros não foram votar no primeiro turno das eleições municipais, ou seja, 23,14% da população votante. 

 

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou nas eleições de 2020 um aumento de 60,4 mil pedidos de registros de candidatura em comparação com o pleito de 2016. Ou seja, neste ano, foram 557.342 pessoas com desejo de serem candidatos a prefeito, vice-prefeito ou vereador, ao passo que em 2016 o número foi 496.892 brasileiros, ainda de acordo com o TSE. Desses, 528.421 tiveram suas candidaturas aceitas pela Corte eleitoral.

Representatividade na política
O Brasil ocupa a 134ª posição, dentre 193 países pesquisados, no que diz respeito à representação de mulheres na política. Isso quer dizer que há 15% de participação feminina na política, de acordo com o Mapa Mulheres na Política 2019, relatório da ONU e da União Interparlamentar. O governo de Jair Bolsonaro (sem partido) tem 9% de representatividade feminina, com duas mulheres entre os 22 ministros – Tereza Cristina (Agricultura) e Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), segundo a Agência Câmara.

Crédito: Equipe de Arte Aupa
Maria Victoria Benevides, socióloga e membro da Comissão Arns, Organização da Sociedade Civil em defesa dos Direitos Humanos. Crédito: Arquivo pessoal.

Para Maria Victoria Benevides, socióloga e membro da Comissão Arns,  Organização da Sociedade Civil em defesa dos Direitos Humanos, a organização dá visibilidade e acolhimento a graves violações da integridade física, da liberdade e da dignidade humana cometidas por agentes do Estado contra pessoas e populações discriminadas. “Nosso trabalho é realizado junto a organizações sociais para detectar esses casos, para dar suporte à denúncia pública dos mesmos, encaminhá-los aos órgãos do Judiciário e organismos internacionais, promover ações específicas junto à classe política e mobilizar a sociedade. Todos têm o direito de ocupar os espaços públicos”, enfatiza a socióloga.

De acordo com Marcelo Rocha, também conhecido como DJ Bola, cofundador da ANIP (Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia), as minorias não estão sendo representadas na política e, mesmo que isso esteja diminuindo, a falta de representatividade ainda é gritante. “Hoje, tem muita gente da periferia se candidatando na política, coisa que era muito difícil há 10 anos. Esses espaços precisam de nós. Se sentir representado é importante”, relata Rocha.

Marcelo Rocha, também conhecido como DJ Bola, cofundador da ANIP (Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia). Crédito: Arquivo Pessoal
Beatriz Pedreira, cofundadora e diretora de pesquisa do Instituto Update. Crédito: Arquivo pessoal.

Para Beatriz Pedreira, cofundadora e diretora de pesquisa do Instituto Update, organização que estuda a inovação política, existe uma grande barreira no Brasil: é preciso considerar a diversidade, afinal, sem ela não há democracia. “O que temos hoje é democracia decorativa. No Update temos os movimentos de renovação política, como o Tamo Juntas, Muitas e Frente Favela Brasil. São vários grupos, que não são partidos políticos, para engajar a população”, explica.

O Instituto Update tem parceria com outras organizações acerca de estratégias de candidaturas femininas, como a plataforma Impulsa e o Fermenta, um projeto de formação para campanhas políticas inovadoras. “Essas iniciativas são um processo de formação e informação para fazer as pessoas se aproximarem da política”, conta Beatriz.

Democracia no Brasil
Segundo a Comissão Arns, não podemos admitir que estamos vivendo numa democracia. Exemplos do autoritarismo, do desmonte de órgãos de controle, do clima de ódio e da exclusão social são evidentes, assim como a fragilidade do princípio republicano e democrático nos poderes constituídos. 

“O voto é de maior importância e deve continuar obrigatório. É pelo voto que a escolha de um trabalhador rural pode valer o mesmo que o voto de um latifundiário. A opinião política é formada por informação e comunicação democráticas”,

explica Maria Victoria de Mesquita Benevides, socióloga e membro da Comissão Arns.

Beatriz Pedreira, por sua vez, destaca que é preciso mudar no sistema a renovação dos partidários. A diretora do instituto Update e o DJ Bola concordam  sobre a criação de leis que obrigam os partidos a serem mais transparentes e terem cotas para representatividade. “Democracia interna dos partidos seria uma forma das pessoas se engajarem também. Democracia é vida e é melhor com ela do que sem ela, mas precisamos atualizar esse sistema político que foi criado no século XX para atender as demandas do século XXI”, enfatiza Beatriz.

“O processo devia ser mais humanizado, além de obrigar os partidos a receberem as minorias e, assim, todos poderiam ser representados – pois isso, sim, é uma representação democrática”,

explica o DJ Bola.

Beatriz ainda afirma que é um desafio engajar a população, que está distante do entendimento do que é política. Segundo a co-fundadora do Instituto Update, os partidos não cumprem suas funções e precisamos de leis para cobrá-los, para que possam atuar de forma mais transparente.

Analfabetismo político
A democracia existe para que as pessoas possam escolher os seus representantes, mas, se não houver a fiscalização, os direitos e as promessas não podem ser cobrados. Para isso, é preciso entender sobre o assunto – e, justamente por este motivo e visando a prática cidadã, existe a educação política.

Segundo Marcelo Rocha, o processo precisa ser mais humanizado, indo além da época de candidaturas e é necessário dar mais oportunidades e fazer investimentos para quem quer se candidatar.“Deveria ter cotas de mulheres, LGBTQI+, negros e periféricos – e, assim, todos serem representados”, afirma.

Vale dizer que o analfabetismo político se aplica aqueles que não se interessam, não pesquisam, não se informam e não participam como se espera da política. Por outro lado, a educação política é um processo de transmissão de informações e conhecimentos, cuja finalidade é disponibilizar ao cidadão um repertório que lhe permita compreender os diálogos dos debates políticos. Por isso, há organizações que oferecem cursos de formação política para a população.

Para a Comissão Arns, a construção de uma sociedade melhor decorre de um esforço coletivo, não só da sociedade civil, mas do conjunto dos poderes constituídos, como Legislativo, Executivo, Judiciário e Ministério Público.

Política na periferia
Segundo o DJ Bola, os movimentos políticos na periferia ainda são tímidos e não tem mecanismo para cobrança de direitos. Não existe um diálogo simplificado para que as pessoas da periferia acessem os centros. Os movimentos periféricos têm tentando conscientizar a população e, mais do que isso, fazem doações de comida, material escolar e o que mais as pessoas precisarem – coisa que o governo deveria fazer”, destaca ele.

Maria Victória Benevides, da Comissão Arns, completa: os grupos de periferias têm o direito de ocupar espaços públicos para expressarem livremente suas reivindicações. “São justamente tais minorias as mais atingidas pela atual ‘tempestade perfeita’ da crise sanitária, social, econômica, ambiental, política e da violência policial”, explana.

O cofundador da ANIP reforça ainda que há diversos tipos de desigualdades, relacionadas ao social, à econômica, à Educação, à qualidade de vida.  E a má política é causa de todas elas: “Isso precisa acabar e as pessoas precisam reconhecer seus privilégios. É necessário rever a taxação de impostos, pois os mais pobres pagam mais impostos e ficam cada vez mais pobres. O governo tem que investir em Educação, acesso à tecnologia e olhar para a diversidade”, enfatiza Rocha.

Mundo pós-pandemia

Com tantas questões pendentes no setor da política durante uma pandemia e com as mudanças trazidas por um ano atípico, surge uma pergunta: “Como será quando tudo isso passar?”. 

Bruna Toni, historiadora e professora. Crédito: Arquivo pessoal.

As dúvidas quanto ao futuro têm feito parte da vida muita gente e segundo a historiadora Bruna Toni, muitas adaptações vieram para ficar.“O que podemos esperar do dito novo normal é um mundo que vai rever o home office, pois antes as empresas tinham medo de como seria e hoje está dando certo. Mas ao mesmo tempo, as pessoas acreditavam que o ensino on-line seria bom, mas tem gente prezando pelo presencial. Então, fomos obrigados a experimentar o que funciona e pode continuar”, explica Toni.

A historiadora Bruna conta que a economia pode demorar para se estabilizar. “Até todo mundo voltar a ter emprego e as pessoas viverem com a redução de salários, vamos continuar nos adaptando. Os brasileiros tendem a se preocupar mais no coletivo. As pessoas precisam estarem dispostas a mudanças e pensarem nas futuras gerações, precisamos cuidar de onde vivemos para deixar um mundo melhor e se todo mundo pensar assim, os problemas sociais vão ser revistos”, conta Toni.

Denis Minev: “Amazônia está no terceiro grande ciclo de atenção”

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A Amazônia está no centro das discussões, em escala mundial. Mas o debate sobre ela não é uma novidade. Por isso, para entender os problemas atuais e as possíveis soluções da região, é importante falar com quem já cuidou disso anteriormente. E sobre este assunto, Denis Minev, co-fundador da Fundação Amazônia Sustentável e ex-Secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico do Amazonas, tem muito a ensinar. Ele atesta que esse ciclo de atenção com a Amazônia já aconteceu antes, mas dessa vez tudo pode ser diferente.

De acordo com Denis, os outros ciclos de atenção da Amazônia foram o “Ciclo Chico Mendes” e o “Ciclo Marina Silva”. Eles tiveram méritos e falhas. O ciclo atual tem diversos protagonistas, sendo que um deles surgiu nos últimos meses: Joe Biden, apontado como vencedor da disputa presidencial dos Estados Unidos, costuma falar bastante sobre a Amazônia. Já prometeu ajudar a região financeiramente, mas colocou condições para isso. E segundo Denis Minev, a experiência dos americanos pode ser importante para o Brasil avançar nesse assunto.

Trecho do primeiro debate entre os candidatos à presidência nos Estados Unidos: Donald Trump e Joe Biden. A partir de 5’49”, as queimadas nas florestas tropicais brasileiras e o investimento internacional voltado à Amazônia entram na pauta. Créditos: CNBC.

Quanto ao Brasil, Denis entende que falta desenvolvimento em duas frentes: primeiro é preciso mudar a forma como a população enxerga a preservação da Amazônia. Ele entende que a região não deve ser vista apenas como um parque que precisa ser preservado como está. Além disso, para o ex-Secretário, faltam ações políticas mais eficientes, que envolvam principalmente as prefeituras.

Saiba mais sobre as ideias e propostas de Denis Minev na entrevista a seguir.

AUPA – Quais são os recursos e as ações da Fundação Amazônia Sustentável atualmente?
Denis Minev – A fundação foi estabelecida em 2008. Sou co-fundador e permaneço no conselho. Ela é voltada a dois temas: conservação do meio-ambiente e eliminação da pobreza em unidades de conservação da Amazônia. Ela foi estabelecida com três grandes doadores, a Coca-Cola, o Banco Bradesco e o Governo do Estado da Amazônia, com R$20 milhões. Nós buscamos mais recursos e usamos os juros para aplicar nas áreas de conservação.

AUPA – Como a Covid-19 afetou as ações da Fundação?
Denis Minev – A pandemia foi uma situação nova. A Fundação agilizou doadores para fazer ações de traslado de pessoas doentes e para distribuição de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), para as pessoas se protegerem, principalmente as equipes de saúde do interior. Lá, ainda tem um aspecto indígena forte, que são pessoas com menos anticorpos, então foi um desafio significativo.

Ações da FAS durante pandemia. Crédito: FAS.
Click nas imagens para ampliá-las. 

AUPA – Em 2012, você foi selecionado como Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial. Como esta experiência influenciou na sua atuação sobre a Amazônia?
Denis Minev – Antes disso, servi ao Governo do Estado do Amazonas. E a seleção foi em grande parte por estar ligado ao Governo. Trabalhei como Secretário de Planejamento e foi um período de grande redução do desmatamento (de 788 km² desmatados em 2006 para 405 km² em 2009), ao mesmo tempo que a economia teve um bom índice de prosperidade. Aquilo chamou atenção do Fórum. De lá pra cá, tenho envolvimento com o Fórum, que é uma instituição global, onde jovens líderes trocam ideias e, para mim, tem sido muito útil ver como outras lideranças estão agindo ao redor do mundo. Tem pessoas que lideraram a Primavera Árabe e enfrentaram problemas que, sob alguns aspectos, eram mais complexos que os meus. Então, tem sido um processo de aprendizagem de liderança.

AUPA – Você tem longa formação no exterior, nas universidades de Stanford e da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Como é a visão americana sobre investimentos e meio ambiente?
Denis Minev – Passei 10 anos nos Estados Unidos e tive a oportunidade de estudar e trabalhar. Sempre foi muito útil essa conexão com os Estados Unidos. Durante o período em que estive no Governo, estabelecemos ligações com o governador da Califórnia, que na época era o Arnold Schwarzenegger. E na época (entre 2007 e 2009) se formou uma união razoável, que envolveu 20 estados e líderes da Amazônia. Aquilo surgiu, em parte, devido ao meu foco de trazer o grau de inovação e empreendedorismo da Califórnia, que são ingredientes que a poderíamos ter na Amazônia, para tentar virar o jogo. Temos um olhar de que a Amazônia é um problema. Essa visão é persistente. Já existia nos governos federais desde 2007. Encarar assim é muito ruim, até para avançar nas soluções. Claro que a Amazônia tem problemas ambientais, sociais, políticos e econômicos.

Mas a resolução disso envolve um conhecimento profundo da região, além de um alto grau de empreendedorismo e inovação. Temos que nos libertar de modelos mentais que imaginam a Amazônia como um parque nacional protegido para visitação.

É uma região para 20 mil pessoas, que estão tentando ganhar a vida. Isso não é compatível com uma visão de parque. Quando nos livrarmos da visão de parque, vamos entender que a necessidade de desenvolvimento econômico e social precisa estar embutido na conservação ambiental.

Floresta tropical amazônica. Crédito: Google Maps.

AUPA – Você acha que, quando falamos da Amazônia, ainda faltam informações sobre a realidade do território? Isso influencia nas medidas de impacto para a Amazônia?
Denis Minev – Atrapalha muito. Cria uma falta de empatia com os habitantes locais. O mundo externo tem um elevado grau de empatia com o tema ambiental, mas falta empatia com os habitantes. Assim, na hora de conceder licença para manejo florestal, mesmo um para um projeto sustentável, vem alguém com preocupação ambiental e tende a criar entraves. O resultado é um sistema no qual os empresários, mesmo aqueles que se preocupam em seguir as regras e obedecer as leis, não conseguem operar. E dentro desse sistema, quem consegue operar é quem escolhe informalidade e ilegalidade. É quem escolhe o caminho da propina, do suborno e do transporte ilegal na calada da noite. Isso impera na região e precisa ser contonardo e vencido. Não vai ser vencido com o envio do Exército apenas. Eles são importantes, mas isso vai ser vencido com outras alternativas, com cidades inteira tendo atividades econômicas.

AUPA – O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, fala muito sobre a Amazônia. Como você vê o posicionamento dele?
Denis Minev – A Amazônia passa por ciclos de atenção internacional. Vou chamar o primeiro ciclo de “Ciclo Chico Mendes”. Com ele e com a morte dele, o mundo despertou para a Amazônia, nos anos 1980. Depois teve um segundo ciclo, que vou chamar de “Ciclo Marina Silva”, que é entre 2003 e 2005. Até tivemos um pico de desmatamento, mas com uma redução grande depois. Agora vivemos um terceiro ciclo. Já está virando rotina. De 15 em 15 anos, o mundo desperta para a Amazônia. Nos ciclos passados, cometemos erros de desenho que fizeram com que não conseguíssemos resolver problemas. O problema é não ter encontrado um modelo econômico que permita prosperidade com conservação. A esperança é que agora encontre. Com Biden, provavelmente, a Amazônia terá um alto grau de atenção. Essa atenção pode tomar várias formas.

A esperança é que tome uma forma que se preocupa não só com a conservação, mas com eliminação da pobreza. A economia subsiste na Amazônia, é apenas por programa de transferência de renda, como o Bolsa Família, do Governo Federal. Isso não é economia de verdade. Economia de verdade é aquela onde as pessoas produzem.

A esperança é que, com esse clima internacional, se adquira compreensão mais profunda da região para entender os mecanismos que a gente precisa desenvolver. Para não voltar ao cenário anterior e falar disso em 2035.

Chico Mendes foi um seringueiro, sindicalista, ativista político e ambientalista brasileiro. Crédito: Xapuri Socioambiental.
Marina Silva é historiadora, professora, psicopedagoga, ambientalista e política brasileira Crédito: Wikipédia.

AUPA – E no Brasil? Como vê a atuação da política brasileira sobre a Amazônia?
Denis Minev – Minha leitura é de que falta empatia nacional. Na eleição de 2018 o povo da Amazônia votou em massa em um candidato da direita. Tem um motivo evidente. A partir de 2013 ou 2014, quando encerrou o superciclo de commodities, o Brasil entrou em uma fase ruim. A Amazônia dependia de repasses e entrou em depressão. Como a região é grande, a depressão é distribuída. Ainda hoje há lugares onde essa depressão acontece. As cidades são quase ilhas e têm depressão desde 2015. A Amazônia nunca saiu daquela crise que saímos, de 2015, que levou ao impeachment da Dilma. Tudo isso teve implicações regionais enormes. A Amazônia continua convivendo com elas. Por isso o povo votou pela mudança. Isso, obviamente, em uma leitura rasa. O resto do Brasil olha pra Amazônia e não entende por que acontece desmatamento. Mas ninguém desmata por desmatar. A maior parte está ligada a algum grau de atividade econômica que precisa existir. E quando isso não acontece, eles buscam meios ilegais. Um dos erros, durante a gestão da Marina Silva, foi o alarmismo, porque se instituiu em muitas leis que se tornaram dificuldades enormes para as atividades econômicas. Isso fez com que se buscasse a informalidade, que hoje é a principal fonte de renda. Quando mandam exército para abrandar e interromper atividades,  em geral, isso não terá apoio local. Esse é o problema. Sempre insisto que o prefeito é ator principal e mais relevante. E eu posso dizer que o tema ambiental não está na vista maioria dos prefeitos hoje. Já esteve no passado, quando o Governo Federal fazia convênios com as Secretarias de Meio Ambiente. Fez isso de 2005 a 2008. O dinheiro capturou a atenção dos prefeitos. Você teve dinheiro alinhado para redução do desmatamento. Mas o prefeito hoje sabe que o dinheiro não vem do Governo Federal. Essa é a falta da compreensão do problema político da Amazônia. 

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