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O impacto da pandemia e do isolamento social nos casos de violência contra a mulher

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Crédito: Equipe de Arte Aupa

A violência contra a mulher aparece constantemente em noticiários, só que o número de mulheres que sofrem caladas é expressivo. Somente em 2017 foram registrados 4.936 assassinatos de mulheres, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

A grande maioria não sabe como sair dessa situação tão delicada que vem se tornando um problema universal que atinge milhares de mulheres de forma silenciosa. Nesse sentido, soma-se a importância de ecossistemas de serviços para a organização das infraestruturas, Estados e sociedade civil, e, para que assim a violência em qualquer forma não seja mais aceita.

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O isolamento social, embora uma medida de precaução contra a Covid-19, tem propiciado mais riscos às mulheres que vivem em situações de violência doméstica – afinal, as famílias estão todas vivendo sob o mesmo espaço por mais tempo, sob diferentes tipos de pressão.Uma das principais estratégias de controle dos autores da violência é isolar a vítima.Segundo dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMDH).

Em abril, a quantidade de denúncias de violência contra a mulher recebida no canal 180 deu um salto: cresceu quase 40% em relação ao mesmo mês de 2019.
40%

Ainda de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2013 o Brasil já ocupava o 5º lugar dentre os territórios que mais matam mulheres. No ranking constavam 83 países.

Porém, mesmo com denúncias, os dados escapam das estatísticas oficiais. Isoladas dentro de casa, muitas sequer conseguem sair da residência para fazer uma denúncia, o que acaba comprometendo a vida dessas mulheres em todas as circunstâncias (como mental, emocional e física), e, ainda, possibilitando um possível cenário de tragédia – o feminicídio.

Crédito: Equipe de Arte Aupa.

Como forma de prevenção e punição à violência doméstica, foi criada a lei n° 11.340/06, intitulada Lei Maria da Penha. É considerada pelo Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) uma das três leis mais avançadas do mundo, entre 90 países que têm legislação sobre o tema.Há também a lei 13.104/15, mais conhecida como Lei do Feminicídio, que alterou o Código Penal brasileiro, incluindo como qualificador do crime de homicídio o feminicídio.

Uma vez que a violência não distingue classe social, raça, etnia, religião, orientação sexual, idade e grau de escolaridade, são imprescindíveis debates e ações sobre este problema de cunho social e de saúde pública. Faz-se também necessário entender como os negócios de impacto podem gerar soluções de mercado para as demandas e necessidades das mulheres, principalmente àquelas em situação de vulnerabilidade social.

A importância do ecossistema de impacto na violência contra mulher
A articulação de atores do ecossistema de impacto é fundamental para construir negócios que insiram um diálogo coerente e assertivo sobre a violência da mulher. Dessa forma, pode ser possível o impulsionamento de novas colaborações para enfrentar os crescentes desafios sociais.

Nesta reportagem, apresentamos o trabalho de três organizações. Todas são ligadas diretamente a trabalhos e projetos que envolvem a violência contra a mulher. São elas: Instituto Maria da Penha, Mete a Colher e Tamo Juntas.

Crédito: Equipe de Arte Aupa.

Quais os tipos de violência contra a mulher?
A violência contra a mulher é definida como “Qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada” (Capítulo I, Artigo 1º).

Estão previstos cinco tipos de violência doméstica e familiar contra a mulher na Lei Maria da Penha: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial − Capítulo II, art. 7º, incisos I, II, III, IV e V.

É a mais imediata de identificar, porque é visível. Os exemplos são: espancamento, atirar objetos, apertar os braços, estrangulamento, sufocamento, lesões com objetos cortantes, ferimentos em geral e tortura. São registradas mais de 50 ligações por dia, mas é de conhecimento que o número de casos de violência física contra a mulher é muito maior.

É assim considerada qualquer conduta que cause danos emocionais e a diminuição da autoestima. É a violência que a grande maioria das mulheres sofre, pois é camuflada pela sutileza das relações intra-familiares. Exemplos: ameaças, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição, insultos, chantagem, ridicularização, limitação do direito de ir e vir, entre outros.

É manter ou participar de relação sexual não desejada.Em 2014 foi registrado o aumento de 65,39% nos casos de estupros no Brasil. Mas este número é maior, porque muitas mulheres não fazem o registro. Estima-se que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgados em 2015. Alguns exemplos da violência sexual são: estupro, obrigar a mulher a fazer atos sexuais que causam desconforto ou repulsa, impedir o uso de métodos contraceptivos, forçar ou impedir aborto, entre outros.

Trata-se de controlar o dinheiro, deixar de pagar pensão alimentícia, além da destruição de documentos pessoais, estelionato, privação de bens, valores ou recursos econômicos e causar danos a objetos que a mulher goste. O Dossiê Mulher 2018 com dados do estado do Rio de Janeiro dá uma panorama sobre esse tipo de abuso. Estão o crime de dano representa (50,4% dos casos), seguido da violação de domicílio (41,8%) e supressão de documentos (7,8%).

Acusar a mulher de traição, emitir juízos morais sobre a conduta, fazer críticas mentirosas, expor a vítima e rebaixar a mulher por meio de xingamento que incidem sobre a sua índole.

Nessa lista, Renata Albertim, CEO da startup Mete a Colher, ainda acrescenta a violência virtual. “Está muito associado à violência moral, que é o compartilhamento de imagens de mulheres em situação íntima. Tudo com o objetivo de prejudicar a moral daquela mulher na sociedade”, explica.

Laina, da Tamo Juntas. Crédito: Eline Matos.
Renata, do Mete a Colher. Crédito: divulgação.
Conceição de Maria, co-fundadora e superintendente-geral do Instituto Maria da Penha. Crédito: Acervo IMP

Como a violência contra a mulher interfere na sua vida?
Quando uma mulher sofre algum tipo de violência, seja ela psicológica ou física, isso reflete em sua vida social. Laina Crisóstomo, criadora do movimento Tamo Juntas afirma que a violência contra a mulher “Impacta tanto na questão física quanto na psicológica. Gera transtornos, síndromes diversas, como a do pânico, transtorno de ansiedade, problemas com sono e enxaqueca crônica. Ou seja, desencadeia uma série de doenças mentais”, pontua Laina.

Ela também ressalta como a mulher violentada se sente afastada dos amigos e familiares e é desacreditada. “A mulher acaba sendo descredibilizada pelos meios que deveriam ser acolhedores, como as instituições. Isso gera traumas e medos, seguindo relacionamentos abusivos”, conta.

Para Conceição de Maria, co-fundadora e superintendente-geral do Instituto Maria da Penha, a violência contra a mulher compromete a saúde mental em diversos aspectos da vida, como também o profissional. “Ela fica com a carteira de trabalho com muitas passagens. Dificulta a tomada de decisão, da realização de tarefas complexas, fica mais estressada. Interfere em diversos setores:na saúde, no físico, no mental, na vida profissional e no mercado de trabalho, na Saúde Pública”, explica.

Uma questão bastante comum quando se trata de violência contra a mulher é: por que ela não deixa o companheiro nas primeiras agressões? Laina diz que são diversos os cenários, como o vínculo que essa mulher tem com o seu parceiro. “Quando eu sofro violência doméstica familiar, existe um componente diferenciado que é justamente pensar que se tem um vínculo com essa pessoa. Há muitas mulheres que têm 20 anos de relacionamento abusivo; esse homem é o pai dos filhos dela. A família inteira o conhece, várias pessoas o conhecem”, explica a criadora do Tamo Juntas.

E, quando se fala da violência que a mulher sofre pelo companheiro, é válido ressaltar que, na maioria das vezes, ele não é um agressor 100% do tempo. Ele é marido, pai, trabalhador – e é visto assim pela sociedade, conforme explana Laina. “Muitas vezes, as pessoas vão pontuar que‘ele é um bom pai’, ‘é um bom marido’. ‘Ele lhe agride, mas sustenta a casa’. Sempre vai haver uma forma de relativizar esse processo de violência tentando encontrar outras maneiras”, exemplifica.

Laina afirma ainda que existe a crença de que o companheiro mudará o comportamento. “É muito difícil para as mulheres admitirem que o príncipe é um sapo – pra além de um sapo, é um criminoso que quer matar, que estupra, violenta na frente dos filhos, que destrói a casa”.

O que também contribui para muitas mulheres não denunciarem é o medo, conforme explica Conceição.

“Existe o medo de retaliação. A vergonha. O medo de não conseguir criar os filhos sozinha, além da dependência emocional e financeira. Tudo isso passa pela cabeça da mulher violentada. Ela pensa em todos e, por último, nela”.

Já sobre a impunidade que muitos homens acreditam ter, isso está muito relacionado à estrutura patriarcal de nossa sociedade. “Temos uma sociedade de bases patriarcais e completamente machistas. O campo do Direito, por anos, foi um campo totalmente masculino, e é claro que os homens não iam fazer nada contra eles mesmo”, tensiona Renata.

Violência contra a mulher e as consequências no mercado de trabalho
As consequências da violência contra a mulher são refletidas também no mercado de trabalho. Um dos fatores associados à esta agressão é o seu impacto no mercado de trabalho.

De acordo com o II Relatório da Prevalência da Violência Doméstica e o Impacto nas Novas Gerações (PCSVDF Mulher), Violência Doméstica e seu Impacto no Mercado de Trabalho e na Produtividade das Mulheres, as mulheres submetidas a situações de violência apresentam menor capacidade de concentração e, consequentemente, para tomar decisões no trabalho.

Sofrer violência afeta negativamente a confiança da mulher em si mesma, bem como o senso de controle de suas ações e consequências, impedindo que ela exerça seu trabalho de forma integral. Em pesquisa do Instituto Maria da Penha com a Universidade de Fortaleza, foi concluído que:

mulheres que sofrem violência doméstica faltam 18 dias ao ano no trabalho.

E, em meio à pandemia, as mulheres foram sentindo na pele as distintas maneiras pelas quais interseccionam classe, raça/etnia e gênero. Ficam mais sujeitas aos efeitos da redução das atividades e o aumento do trabalho em casa. “Na pandemia, estamos vendo que o grande número de pessoas que estão sendo demitidas são mulheres”, observa Renata Albertim. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnadc) mostrou que sete milhões de mulheres abandonaram o mercado de trabalho na última quinzena de março, quando começou a quarentena.

É o que também apontou uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva e pela Rede Mulher Empreendedora. A crise impulsionada pela pandemia de Coronavírus causou ainda a interrupção das atividades de 39% dos negócios conduzidos por mulheres. 

Este fato também pode ser observado na pesquisa O Papel dos Negócios Sociais no Apoio ao Empoderamento Feminino no Brasil, do British Council. 

O estudo apontou que as empresas brasileiras que não têm mulheres em posição executiva correspondem a:
66%

Aliada a essa questão, é possível observar a resistência de investidores e bancos no Brasil em emprestar dinheiro para mulheres empreendedoras. Segundo estudo feito pelo Sebrae, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, as mulheres foram as mais afetadas pela crise: 52% paralisaram “temporariamente” ou “de vez” suas atividades, contra 47% nos homens. Além disso, a proporção de empresárias com dívidas em atraso (34%) é maior que a encontrada entre os homens (31%).

A importância da denúncia
É imprescindível que as vítimas denunciem os agressores. A cada dois minutos, no Brasil, uma mulher registra agressão baseada na Lei Maria da Penha. Por isso, diversas ferramentas estão disponíveis para que a mulher possa fazer a denúncia, e,assim solicitar ajuda e evitar que outras vítimas sejam agredidas.

Denúncias por telefone podem ser feitas pelo 180, que é um serviço de utilidade pública, gratuito e confidencial (preserva o anonimato), oferecido pela Ouvidoria do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. A Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH) também disponibilizou uma conta no Telegram – aplicativo de mensagens instantâneas – para o registro de casos em todo o país.

Conceição de Maria indica que em caso de emergência é necessário ligar para o 190, para a Polícia do Estado que encaminhará o procedimento e, assim, dará prioridade – em virtude do aumento da vulnerabilidade dessas vítimas, principalmente neste contexto pandêmico.

Muitos estados estão adotando o Boletim de Ocorrência (B.O.) eletrônico durante a pandemia, já que muitas mulheres estão sem sair de casa. A Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres (SNPM) também elaborou uma cartilha com informações completas, de onde as mulheres podem saber como denunciar.

Laina indica o instrumento chamado Violentômetro, que evidencia como a violência dados sobre a violência contra a mulher.

Crédito: Tribunal de Justiça do ES

Infelizmente, muitas mulheres sofrem caladas, devido ao medo, à insegurança e às incertezas. Renata explica que: 

“A ameaça gera o medo, que, por sua vez, gera o silenciamento”.

Enfrentar a violência contra a mulher é uma luta, destaca Laina.“O combate é muito mais difícil, mas é necessário para fazer com que as pessoas consigam identificar quem sofre a violência. As mulheres têm dificuldade de identificar, porque existe uma normalização e naturalização dos padrões”, explica.

Conceição de Maria acredita e enfatiza o poder da Educação. “São necessárias novas culturas, posturas e ações. O instrumento para acabar com violência doméstica é a educação. Faz-se necessário que os currículos adotem uma disciplina sobre os conflitos das mulheres, para que essas crianças crescem de uma forma mais pacífica”, projeta ela.

O ecossistema do empreendedorismo social é fundamental para que se tenha uma rede que seja cada vez mais fortalecida e que a informação seja uma importante ferramenta, como fonte de enfrentamento. Desse modo, unidas, essa rede poderá quebrar violências estruturais, como o machismo.

Baixada que faz

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A Baixada Santista é a segunda região mais rica do estado de São Paulo, atrás apenas da própria capital. É composta por nove municípios, dois milhões de pessoas e abriga o Porto de Santos, o mais importante da América Latina. Podemos dizer que sua principal característica é ser uma terra de extremos, dotada de uma renda per capita altíssima, ao mesmo tempo que abriga a maior favela de palafitas do Brasil e possui a menor taxa de alfabetização e escolarização do estado.

A região também concentra o maior número de aldeias indígenas do estado de São Paulo, principalmente de Guaranis e Tupi-Guaranis, e é o território de Alzira Rufino e sua Casa de Cultura da Mulher Negra, do Terreiro do Pai Bobó, do Quilombo do Jabaquara, de Plínio Marcos, Pagu, um pioneiro carnaval, além de suas evidentes belezas naturais típicas da Mata Atlântica, uma rica biodiversidade com cachoeiras escondidas, ilhas caiçaras, etc.

Ainda assim, é comum termos que responder a pergunta “mas por que Santos?” quando vamos apresentar o Instituto Procomum, organização social que fundamos em 2016, ou o nosso laboratório de Inovação Cidadã, o LAB Procomum, cuja sede fica na cidade de Santos. 

A pergunta revela mais uma faceta da desigualdade sistêmica e complexa do Brasil. Um país de muitas histórias, muita culturas, muitas formas de vida, mas que é refém de uma concentração regional, econômica e narrativa. Para alguns, o litoral é apenas um local de veraneio e mais nada. Para nós, é território de potências, de gente que constrói soluções para uma vida vivível, para uma vida coletiva, todos os dias. 

Quais os corpos que inovam e quais as soluções que elegemos como inovadoras e criativas? O Instituto Procomum vem disputando o que se entende por inovação, empreendedorismo, Economia Criativa. Defendemos – e nossos resultados demonstram –  que a criatividade e a imaginação cidadã são e serão importantes aliadas nos próximos tempos e podem contribuir para a produção de soluções eficazes de combate à desigualdade e soluções para afirmação de modos de vida mais dignos. Sobretudo, se vierem de corpos que, historicamente, vivem essas exclusões e desigualdades ao mesmo tempo em que guardam uma inteligência sem igual. A isso, nós damos o nome de inovação cidadã, que impulsionamos por meio de diferentes projetos, como a nossa escola livre e colaborativa, a Colaboradora.

Acesse o estudo metodológico completo, desenvolvido pelo Instituto Procomum, na seção Dados. 

A Colaboradora – Empreender e Transformar, voltada ao fortalecimento de negócios de impacto social, está em sua segunda edição. No Instituto Procomum, temos o costume de trabalhar por meio de chamadas públicas, favorecendo populações sub-representadas, uma forma muito rica de mapear e evidenciar as iniciativas inovadoras da região. A quantidade e a qualidade de pessoas engajadas na transformação de seus territórios por aqui são de impressionar aqueles que não conhecem a fundo a região. Desde que começamos, entre nossas chamadas públicas, já mapeamos cerca de mil iniciativas, de quase todos os cantos dos nove municípios da Baixada.

Muito além de uma apropriação de ferramentas, a jornada compartilhada de aprendizagem e desaprendizagem (aprendemos que uma parte importante é desaprender certas ideias) da Colaboradora se concentra em promover e, sobretudo, praticar a convivência entre visões, onde caibam um mundo comum entre os diferentes, e construir uma rede ativa e permanente de cuidado mútuo e colaboração.

Estamos construindo uma economia a partir do comum, que, em nosso entender, deve recuperar o sentido original dessa área do conhecimento que se ocupa em organizar os meios e processos para a sobrevivência e o bem-estar. A ideia da economia, vinculada exclusivamente à produção financeira, nos parece uma redução que não nos serve. Acreditamos que alargar a percepção de sobrevivência, para além de respirar e consumir, e de bem estar, para além de distinguir e possuir, são requisitos para que possamos começar a construir trocas mais justas e equilibradas nos múltiplos campos onde as relações humanas são tecidas.

Economia, afinal, é vida, e é isso que temos em mente quando incentivamos a formação de redes de realizadores do setor criativo com impacto social na Baixada Santista.

Quatro anos se passaram e, a cada nova história e pessoa que chega, renovamos nosso compromisso e nossa razão de fazer o que fazemos. Temos uma visão privilegiada do território onde atuamos, porque ele nos é trazido a partir dessas pessoas e iniciativas. Para nós, é a Vila Margarida do Instituto Chegados, a São Vicente da Loja 370, da Itararé Cultural e do AfroTu, a Bertioga do Sarau Elas na Quebrada, o Guarujá da Chinua Acessórios, a Praia Grande da Contos de Fada Festas, a Santos do Elas em Movimento, da Tumulto Rec – e a lista segue.

São histórias que nos comprovam que a construção de programas de apoio e suporte a empreendedores sociais periféricos podem e devem aliar caminhos e ferramentas para a subsistência e o crescimento ao fortalecimento de sua percepção como agentes de mudança. E é aí que coisas bonitas e fortes acontecem.

Esse é o caminho que escolhemos: aliar escuta, cuidado e repertório para fortalecer a formação de redes e o protagonismo de agentes historicamente subalternizados, ampliando seu impacto social e evidenciando suas soluções.

Este artigo é fruto de diálogos entre Georgia Nicolau e Simone Oliveira.

Georgia Nicolau é  fundadora e diretora do Instituto Procomum, facilitadora de processos de desenvolvimento organizacional e consultora especialista em projetos de inovação, políticas públicas de cultura e desenvolvimento. Foi diretora de Gestão, Empreendedorismo e Inovação do Ministério da Cultura e secretária-substituta de Economia Criativa e de Políticas Culturais, entre 2013 e 2016.

Simone Oliveira é coordenadora da Colaboradora – Empreender e Transformar, escola colaborativa de empreendedores de impacto social do Instituto Procomum. Ë bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e Mestre em Cultura e Territorialidades pela mesma instituição. Atua há mais de 15 anos em produção, gestão e idealização de eventos e projetos culturais.

A imagem da capa é do período anterior à pandemia causada pela Covid-19.

Este texto é de responsabilidade das autoras e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Como a pandemia mudou o jogo nas instituições sociais ligadas ao esporte

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Onde havia esporte, agora há um vazio. Onde tinha luta por educação, agora existe combate contra a fome. E onde já existia exclusão digital, agora há uma carência ainda maior de recursos. O jogo mudou nas instituições sociais ligadas ao esporte. A pandemia de Covid-19 e o consequente adiamento da Olimpíada de 2020 mudaram profundamente o perfil de atendimento desses locais. Além disso, surgiram novas dificuldades, inclusive financeiras. Mas nada está parado.

Jorginho e as crianças do instituto Bola pra Frente. Crédito: Divulgação.

O Instituto Bola Pra Frente é um dos exemplos de resistência no Rio de Janeiro. Ele sofreu com as enchentes que atingiram o estado, no começo do ano, e logo depois teve que enfrentar a pandemia. Mas conseguiu se manter e já faz planos para o futuro, inclusive com a conclusão de um prédio novo.

E tudo começou com um sonho do adolescente Jorge, aos 11 anos, que imaginava a Disney em frente à casa dele. Ele virou o lateral Jorginho, titular na conquista do tetracampeonato do mundo, em 1994. E fundou a própria “Disney”, um instituto que tem atividades esportivas, com método e programa pedagógico próprios, o “Cruzamento Perfeito”.

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Gustavo Kuerten, o Guga, na icônica comemoração do tricampeonato em Roland Garros (França).

Outros ex-atletas têm histórias parecidas. Depois de brilharem no esporte, eles resolveram fundar institutos que usam o esporte como meio de transformação social. Gustavo Kuerten, referência mundial no tênis, criou um instituto que leva o nome dele em Santa Catarina. O local atende inclusive crianças especiais, pois Guga tinha um irmão com paralisia cerebral. Os irmãos Lars e Torben Grael, ídolos olímpicos, também possuem um projeto social. O objetivo deles é democratizar o acesso à vela, esporte que já rendeu 18 medalhas para o Brasil em Olimpíadas.

O adiamento da Olimpíada
Nenhum desses institutos tem foco no alto rendimento. O objetivo final não é formar um grande jogador de futebol, tenista profissional ou velejador. A missão é fazer com que o esporte traga benefícios para a educação e a formação de crianças e adolescentes. Mas, naturalmente, uma Olimpíada traz algum benefício para esses projetos: “Em anos olímpicos, o esporte fica em evidência. Temos ajuda de diversos setores, tem espaço na mídia e se fala mais disso nas empresas patrocinadoras”, explica Joana Dutra, gerente-executiva do Projeto Grael. 

"Temos oportunidades de falar sobre os benefícios dos valores esportivos, mas agora perdemos esta possibilidade”,

lamenta Joanna Dutra diante do adiamento da Olimpíada de Tóquio – agora os Jogos estão marcados para 23 de julho de 2021.

O adiamento da Olimpíada não é o pior problema para esses institutos. O que realmente causou transtornos e dificuldades foi a própria pandemia de Covid-19. Todas as atividades presenciais foram canceladas em meados de março. Então, os institutos partiram para dois tipos de ações. Primeiro, para cumprir a missão educacional, tentaram adaptar as atividades para a internet. Depois, para manter o apoio às famílias, ajudaram no combate à fome, principal problema dos alunos nessa época de crise social.

Exclusão digital

Fazer essas mudanças não tem sido simples. A pandemia deixou claro como a exclusão digital é grave no Brasil. Recentemente o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou que uma em cada quatro pessoas no Brasil não tem acesso à internet – isso representa cerca de 46 milhões de brasileiros excluídos digitalmente.

A pandemia escancarou esse problema, que tanto afetou os institutos sociais nos últimos meses. O Instituto Bola Pra Frente tentou realizar atividades pelo Facebook, mas não conseguiu atingir as crianças. “Vimos como a como população da favela é excluída digitalmente. As crianças não têm acesso ao computador. Algumas acessam só uma vez por mês. E não tem celular ou computador. Tentamos fazer encontros esporádicos no Google Meet, mas não deu certo”, conta Renata Siqueira, gerente do Instituto Bola Pra Frente.

O Projeto Grael também esbarrou em dificuldades causadas pela tecnologia, mas encontrou uma saída provisória: atividades educacionais são enviadas para os alunos pelo aplicativo WhatsApp: “Cada turma tem um grupo com um professor e um coordenador. A gente grava os conteúdos e manda. Quando o aluno tiver Wi-fi, ele baixa e vê”.

Lars Grael em evento no Instituto Grael. Crédito: Divulgação.

O projeto também teve dificuldades para contar com a participação dos alunos nas transmissões ao vivo. Mas, mesmo assim, continuou fazendo as “lives” para enviar tudo aos alunos por WhatsApp. O projeto também manteve contato com as famílias para tirar dúvidas sobre os auxílios concedidos pelo governo e até lidar com casos mais graves, de violência doméstica e assédio. Esses crimes aumentaram durante a pandemia e se juntaram a outras mazelas da crise, como o desemprego e a falta de alimentos.

Doações
O combate à fome virou um dos principais focos dessas organizações. O Instituto Gustavo Kuerten, por exemplo, tem distribuído cerca de 150 cestas básicas por semana. O Projeto Grael já entregou, ao todo, mais de 1.200 cestas básicas. E o Instituto Bola pra Frente encontrou outra forma de ajudar as famílias: “Nossos parceiros queriam doar cestas básicas. Mas pensamos que, se a gente abrisse o portão para entregar, ia criar aglomeração, era perigoso. E, muitas vezes, a pessoa recebe um alimento que não queria, porque já recebeu em outra cesta básica. Então, a colocamos em um cadastro da campanha ‘Em Campo com a Comunidade’, que dá R$ 300 em compras em um supermercado”, explica Renata. Essa campanha ajudou mais de 100 famílias nos meses de maio e junho. Em julho a expectativa é dobrar essa quantidade.

Joana Dutra, gerente-executiva do Projeto Grael. Crédito: Divulgação.
Renata Siqueira, gerente do Instituto Bola Pra Frente. Crédito: Divulgação.
Silvana Medeiros, superintendente executiva do Instituto Gustavo Kuerten. Crédito: Divulgação.

Impacto financeiro
É claro que manter a existência desses institutos e ainda fazer doações tem um custo. Em épocas normais, as organizações se apoiam principalmente em parcerias com empresas e na Lei de Incentivo ao Esporte. Em 2020, esses parceiros privados estão sendo essenciais para arrecadação de cestas e outros itens doados.

Já a Lei de Incentivo ao Esporte tem uma característica que foi importante para manter os institutos na ativa neste momento, mas também causa uma grande preocupação para o futuro. O valor dessa lei é arrecadado no começo do ano, através do pagamento de impostos – empresas investem parte do que pagariam no Imposto de Renda em projetos esportivos aprovados pelo governo. Portanto, grande parte do orçamento de 2020 já estava arrecadado e distribuído. Mas a crise econômica gerada pela pandemia fará com que as empresas tenham dificuldades para pagar os impostos a partir de agora.

“Arrecadamos os valores para esse ano, mas não sabemos como será em 2021. É uma preocupação”,

confirma Silvana Silveira Medeiros, superintendente executiva do Instituto Gustavo Kuerten.

A nova realidade
Outro desafio é preparar os institutos para a retomada das atividades. Apesar da pandemia ainda não estar controlada no Brasil, a maioria das atividades já voltou a ser realizada, com adaptações. No Instituto Gustavo Kuerten o retorno pode acontecer em breve: “A gente só depende do prazo de retorno das escolas. Quando as escolas voltarem, a gente vai voltar. Por enquanto tem uma previsão para 3 de agosto. A gente vai se adaptar com álcool em gel e distanciamento, talvez com menos crianças”, explica Silvana.

Guga e as crianças no Instituto Guga Kuerten. Crédito: Divulgação.

O Projeto Grael ressalta que não tem pressa para voltar, mas comemora, porque a prática da vela permite um retorno mais tranquilo: “Não é um esporte de contato, então a gente consegue manter a distância entre os praticantes. E já eram turmas pequenas, de 10 a 12 pessoas, sempre em espaço aberto. Estamos acompanhando o processo de reabertura na Europa para ver como as escolas estão fazendo e como é possível adaptar”, conta Joanna.

O Instituto Bola Pra Frente terá mais dificuldades nesse sentido, porque os alunos costumam praticar muitos esportes coletivos. Então, em 2020, o retorno será apenas com as atividades educacionais adaptadas. E com uma dose de otimismo. “A grande questão do momento é: o que vem depois da cesta básica? Isso está sendo construído e ninguém sabe. Mas é uma oportunidade para criar uma base do novo normal. E nós, do Terceiro Setor, podemos ser protagonistas nisso”, conclui Renata. 

As imagens utilizadas nesta reportagem são do período anterior à pandemia causada pela Covid-19.

Um pit-stop chamado pandemia

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Foi dada a largada
intermediários em disparada,
sem tempo para refletir sobre sua própria atuação
e sobre os rumos do ecossistema.

A correria é pesada e,
pra onde todos seguem,
ninguém sabe.

É saudável ter muita demanda?
Viver de projetos e ao sabor dos financiadores?

Já não vimos esse filme
no mundo das ONGs?

Mas aí veio a pandemia
e tudo mudou!

Projetos diminuíram,
foram congelados
ou cortados.

“Parças” foram deixados no acostamento.

Como diz o matuto da roça:
“farinha pouca, meu pirão primeiro”.

O quadro:
intermediários em aperto financeiro
e seus pipelines de negócios idem.

Enquanto assistimos ao recorde de doações,
que parecem passar ao largo
do campo do impacto.

Curioso, não?

Enquanto durar este pit-stop forçado,
como ficarão intermediários
e ‘seus’ negócios apoiados?

Alguém realmente se importa?

Então, por que não há mobilização de $
também para esta turma?

De um lado, critica-se a filantropia,
por não destinar parte de seus aportes
também pra cá.

De outro, fica a perplexidade com a
retração dos investidores de impacto.

Na hora em que o impacto
mais precisa de capital paciente e apoio

Parece se deparar com indiferença
e pouca empatia.

E os governos?
Não seria também papel deles
socorrerem essa turma?

Em tese, sim.

Mas adoraria ver exemplos efetivos
de destinação de recursos não-reembolsáveis
para apoio emergencial a atores-chave
deste ecossistema.

E nós, cidadãos/pessoas físicas,
temos também “feito a nossa parte”?

Ou

Seguimos anestesiados
em lives-solidárias-pra-inglês-ver?

Ou pior:

Batendo palminha para os
solidários da última hora.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Mapeando violências contra pessoas LGBTI+ no Brasil

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O que é: “Este relatório pretende se somar às diversas contribuições já existentes, com o objetivo de avançar no conhecimento sobre as formas de violências sofridas pela população LGBTI+, combatendo a invisibilização constante, na qual essas existências são objeto. Para tanto, a equipe de pessoas pesquisadoras do TODXS Núcleo – Centro de Pesquisa em Políticas Públicas LGBTI+ se debruçou sobre dados primários e inéditos, coletados pelo TODXS App, com o intuito de perceber e compreender as diversas formas de violência sofrida pelas pessoas LGBTI+.”

Quem fez: TODXS Núcleo.

Autores: Aline Tusset De Rocco, Iuri Cardoso, Pedro Henrique Dias Alves Bernardes, Marcos Felipe Lopes de Almeida e Rafael Carrano Lelis.

Ano: 2019.

Clique aqui para acessar a pesquisa.

Mariana Almeida: “Ir contra a maré não é tarefa simples e é preciso bancar este posicionamento”

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Mariana Almeida,superintendente da Fundação Tide Setubal.

Qual o papel de uma fundação? E como ela pode exercer ações efetivas em um ambiente hostil e que pede urgência, como a atual crise que vivemos? Diante de um país marcado nos últimos anos pela polarização e suas violências, além do secular panorama caracterizado pelas desigualdades, sobretudo transversais às questões como raça/etnia e gênero, não são questões fáceis de serem respondidas. Porém, há caminhos e nele agentes e instituições que compõem o ecossistema de impacto têm sua responsabilidade social.

A Fundação Tide Setubal desempenha um papel estratégico e protagonista em suas ações voltadas às políticas públicas em territórios. É dela a iniciativa Matchfunding Enfrente, ampliada diante da pandemia do Coronavírus, para apoiar negócios periféricos do país todo. É iniciativa da área de Conhecimento da Fundação também que a pesquisa “O conservadorismo e as questões sociais” (2019). “Nosso papel também está ligado às formas de reduzir a polarização, indo para o concreto, mostrando a vida real – e que a vida real pode ser mais justa com exemplos”, explica Mariana Almeida, superientendente da Fundação e economista.

Na entrevista concedida à Aupa, Almeida destacou a urgência de ações feitas a partir do encontro de diferentes players e saberes, para o enfrentamento de problemas relacionados ao desenvolvimento, à pobreza e às desigualdades nos territórios. “Estar no Terceiro Setor é fundamental para entender os limites deste. Por isso, é preciso fomentar os encontros e a sinergia de pensar novas alternativas”.  Confira o diálogo completo.

AUPA – Diante da pandemia, como A Fundação Tide Setubal entende a urgência das atuações de Organizações da Sociedade Civil?
Mariana Almeida – A missão da Fundação sempre foi buscar alternativas para superar as desigualdades. A pandemia tornou isso ainda mais agudo e mais forte, porque aquilo que já é difícil no cotidiano se torna ainda mais agora. Você não pode, com as diferenças que existem nessa estrutura de sociedade, referente, por exemplo, ao acesso a serviços, dizer que é a mesma coisa para quem mora nos centros e nas periferias. São situações totalmente diferentes. Aí, na verdade, como sempre, o papel do Estado seria importante e, no nosso caso, a obrigação da sociedade civil é chamar mais ainda a atenção para isso. Devem ser soluções que devem ser pensadas sempre, não só agora.

AUPA – As ações da Fundação voltadas à pandemia também são de longo prazo, para abordar ainda mais pessoas, como no Matchfunding Enfrente.
Mariana Almeida – Para nós, as soluções para superar as desigualdades e criar as oportunidades nas periferias partem também das próprias periferias. Valorizamos muito a potência que existe na periferia e já vínhamos com essa intenção antes mesmo da pandemia: valorizar soluções em periferias, projetos e pessoas, a partir da combinação e da colaboração. Então, é preciso caçar recursos externos, captar também recursos de fundações e apoiar ideias vindas das e nas periferias. Esse era o plano inicial do Enfrente. Com a pandemia, muitas periferias deram uma grande aula de identificação das necessidades e de solução dessas necessidades. Quantas limitações locais não foram muito mais efetivas em fazer chegar o benefício, por exemplo, do que o próprio Estado, não é? Como é que, no longo prazo, podemos pensar nesse relacionamento e na valorização dessa potência periférica? O Enfrente se reorganizou tentando identificar justamente quais ideias vinham da periferia. Assim, ampliou sua rede de apoiadores e, com isso, conseguimos atingir mais projetos nesse momento. Então, continuamos captando e tentando seguir pensando qual deve ser o próximo passo. Hoje, o Enfrente conta com cerca de 790 iniciativas inscritas. A necessidade é grande. Por outro lado, é legal que tantas iniciativas se encontrem em algum lugar, porque também acreditamos muito na rede. É legal ter acesso a tantos projetos, idéias e gente que quer fazer coisas diferentes, porque podemos também tentar fomentar essa relação entre as pessoas e ampliar o impacto.

As organizações que fomentam o Matchfunding Enfrente hoje são: Itaú Social, Fundação Tide Setubal Instituto Galo da Manhã, Fundação José Luiz Egydio Setúbal, Fundação FEAC, Fundação ARYMAX, Instituto Humanize, Instituto GPA, Instituto Arapyaú e Benfeitoria. 

AUPA – Com a pandemia, as desigualdades ficaram ainda mais gritantes. E a Educação não escapou disso: a tentativa de ensino com aulas e atividades on-line esbarra no problema de acesso à internet e ao aparato eletrônico. Considerando a trajetória da Fundação, embora não trabalhe diretamente com educação, como se dará a atuação nesta área?
Mariana Almeida – A Neca Setubal [presidente da Fundação] tem uma trajetória na educação.  Trabalhamos no território e quando você está nele é impossível não falar de educação, porque ela é um grande organizador das atividades e permeia a vida da maioria das pessoas. Então, falamos também de educação, mas o nosso eixo principal é o território. Estamos sentindo exatamente por estarmos no território. Sentimos na pele – na nossa pele não, mas na de quem trabalhamos juntos –, as imensas dificuldades, que são físicas e de infraestrutura mesmo: da internet que não há, do espaço físico inexistente para estudar. Vemos esses vídeos que falam “Procure um cantinho em silêncio na sua casa”. Sabemos que há casas onde vivem muitas pessoas e não têm esse cantinho silencioso. Não é possível de se determinar, não é tão simples. Então, tem uma questão de infraestrutura e tem também uma questão também mais subjetiva. É um modelo totalmente diferente de processo de aprendizagem, que os pais também sentem dificuldade, no sentido de “Como assim? Meu filho vai ficar no celular, estudando, o que é isso?”. Há várias dificuldades envolvidas. Isso é um grande desafio, que certamente vai marcar, infelizmente, de maneira aprofundada as desigualdades já existentes no sistema educacional brasileiro e aí vamos ver como conseguiremos, a partir de agora, juntar forças para, então, criarmos a solução. Quanto à questão da desigualdade, dado o movimento todo que está acontecendo, a sensibilização pública para o tema, quem sabe conseguimos a solução comprometendo recursos públicos e privados para reverter essa situação.

AUPA – A Fundação tem uma área de Conhecimento e também trabalha com outros centros que fazem pesquisa, por exemplo, o portal IDeA – que surgiu de uma iniciativa da própria Fundação Tide Setubal. Comente, por favor.
Mariana Almeida – Entendemos o Terceiro Setor como um grande articulador. Não temos a pretensão de resolver os problemas diretamente nossos, com os nossos projetos e a nossa forma de fazer. Na verdade, tentamos justamente fomentar o encontro de diversos setores: cada um em sua área de expertise, de modo que possam se encontrar. A geração de conhecimento é muito importante, tem um papel fundamental. Então, fazer a academia se encontrar com projetos periféricos, por exemplo, faz parte da nossa missão. Como é que você permite esse encontro e aproveita esse conhecimento que é gerado no território e também reaproveita os conhecimentos do território na academia? É essa a via de mão dupla. Então, a nossa área de Conhecimento é de fomento à pesquisa e de estímulo à formação do próprio conhecimento.

Capa de "O conservadorismo e as questões sociais". Fonte: Fundação Tide Setubal.

“Na pesquisa, trouxemos como hipótese se o conservadorismo significa afastamento da importância da justiça social. Descobriu que não: às vezes, a forma de falar as coisas e pensar nas soluções é diferente. A intenção de uma sociedade mais justa está presente, pelo menos em um grupo dos conservadores. Entre os mais extremados [o meio entre as duas pontas] tem muita coisa, não é? É preciso entender como se comunicar com os diferentes públicos, tentar partir do que pode nos unir. Superar a polarização também significa superar os seus próprios preconceitos. Não é convencer o outro”.

AUPA – A Fundação tem um papel importante como intermediária, para fazer essa articulação que você mencionou. Há a atuação no Galpão ZL, no Jardim Lapena (São Paulo/SP), assim como o diálogo com outros players, como o BID. Como propor e deixar efetiva uma ponte em um ambiente tão polarizado como o que vivemos agora?
Mariana Almeida – Essa é uma grande pergunta. Temos estudado, inclusive, sobre como superar a polarização e procurar novos horizontes utópicos com o mundo. Quer dizer, como pensar a nossa sociedade de um jeito que faz sentido para todos? A nossa defesa é de uma sociedade de mais equidade, justa e isso tem que ser algo que tem a maioria, que tem adesão. Quando falamos de trazer a periferia e mostrar a potência desta, é mostrar que as pessoas que estão em uma ponta da ponte têm muita potência, têm muito conhecimento, têm muita capacidade de inovação. As outras também têm a aprender desse lado aqui.

É mostrando no concreto o que pode ser feito e o que já está sendo feito – e pode ser até ainda maior se as pontes forem cruzadas.

AUPA – Quando essa participação é pública, também há um aspecto que é político. Não tem como escapar. Qual é a atuação da Fundação junto ao Poder Público, no que diz respeito ao desenvolvimento de Políticas Públicas? Vocês têm algum diálogo com o grupo da ENIMPACTO?
Mariana Almeida – Na verdade, temos vários parceiros que estão mais envolvidos diretamente na ENIMPACTO. Não nos envolvemos tanto. Temos trabalhado com o Poder Público mais local, como a Prefeitura de São Paulo – trabalhando de que maneira a gestão dos orçamentos públicos pode favorecer a redução da desigualdade. Então, tentamos entender como o gasto público pode ser planejado, distribuído e dirigido de uma maneira mais efetiva. Então, desenvolvemos alguns sistemas para regionalizar o orçamento da Prefeitura de São Paulo, para saber aonde ela gasta, de que forma, que tipos de indicadores ela pode usar para distribuir melhor, como é que a gente usa os dados que existem para melhorar os gastos, principalmente de infraestrutura. Trabalhamos muito com o Poder Público nesse sentido, tentando ajudar ele a inovar. Junto com a academia é possível desenvolver e testar soluções, para que depois elas se incorporem à lógica pública, que é onde, de fato, pode fazer uma grande diferença.   

AUPA – Há um aspecto que chama a atenção na Fundação Tide Setubal: ela leva o nome de uma mulher, foi fundada e é presidida por uma mulher, tem várias lideranças que são femininas, vários cargos de chefia são de mulheres, como o seu. Comente sobre este protagonismo evidente, por favor.
Mariana Almeida – A Fundação tem um papel bem importante, com uma visão de que a sociedade é adversa e a diversidade passa pela questão de gênero, assim como pela questão de raça, então, ela traz para dentro, pois é preciso praticar isso. Não adianta só tratar tais questões como uma solução para fora. A Fundação se preocupa em ter diversidade de gênero e raça, tanto em geral quanto nos cargos de liderança. Temos um grupo estratégico dentro da Fundação que discute esta pauta, formado por 70% mulheres, 50% negros, 50% brancos. É uma preocupação mesmo. A sociedade, se você se deixar levar pela maré, ela vai reproduzir as desigualdades. Temos muita consciência disso: para acabar ou diminuir as desigualdades tem que virar uma chave e nadar contra a maré. Isso funciona para mudarmos também as Políticas Públicas e também pensarmos o investimento social privado. É um jogo que se joga em todos os níveis.

É preciso ter este cuidado também nos processos seletivos. Dificilmente, o currículo mais qualificado será de uma mulher negra. Porque no currículo das mulheres negras não vai ter a experiência (que dizem) que você precisa para um determinado cargo, porque possivelmente essa mulher não teve a oportunidade. Então, ir contra a maré não é tarefa simples e é preciso bancar este posicionamento. Por isso a importância da liderança para puxar esse assunto. A liderança tem que tomar isso para si e tem que constituir e ser institucional para isso. Nós também temos problema e é preciso estarmos atentos e repensando o tempo inteiro.  Constituímos neste ano uma comissão de diversidade na Fundação, que trata a diversidade em seu sentido amplo, além da acessibilidade. Apesar de termos uma equipe diversa, não havia uma comissão de diversidade para que pudéssemos avaliar o que significa, para a toda a equipe, isso e como é que podemos melhorar. Não está resolvido. É um processo contínuo de amadurecimento interno.

Capacitação para profissionais e futuros empreendedores sobre o setor 2.5

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O que seria uma nova economia voltada ao impacto social positivo? Difícil cravar, porém necessário dialogar, trocar experiências e fazer acontecer. Focados nessa provocação, que é também um estímulo, o Movimento Choice e a Pipe.Social lançam o curso “Onboarding de Impacto: A nova economia e os Negócios de Impacto Socioambiental”. A intenção desta troca on-line é trazer um panorama sobre as possibilidades de atuação no setor 2.5, tendo como gancho uma economia propositiva ao impacto social positivo.

As inscrições para o Onboarding de Impacto acontecem até o dia 26 de julho. O conteúdo do programa conta com 20 horas de aulas on-line e ao vivo e abordará temas como a Agenda 2030 da ONU, o contexto do setor 2.5 no Brasil, conceitos sobre negócios de impacto socioambiental, além de ferramentas, estudos de casos e conversas com empreendedores e profissionais do ecossistema.

O público-alvo são profissionais, executivos, pesquisadores e estudantes que tenham interesse em atuar com as temáticas apresentadas ou ainda com empreendedores voltados à geração de inovação aliada ao impacto positivo. Não há necessidade de conhecimento prévio sobre a área para participar.

Bebeto Zscaber, empreendedor do Choice, ressalta a importância da iniciativa para a inserção nas temáticas e possibilidades dentro do ecossistema. “O setor 2.5 ainda é pouco explorado e por isso pouco compreendido. Só para entender como eu poderia atuar no ecossistema, demorei aproximadamente 2 anos. Queremos diminuir esse tempo, cortar o caminho e facilitar o processo de aprendizagem destes profissionais, para que, dentro de dois meses, estejam prontos para atuar com impacto socioambiental”, explica ele.

Mariana Fonseca, cofundadora e CEO da Pipe.Social, destaca a importância da iniciativa, pensada para além do enfrentamento das crises atuais. “No Brasil e também em todo o globo já é visível o alinhamento de governos, grandes empresas e investidores às estratégias da Agenda 2030 da ONU. Esta nova economia, pautada por impacto positivo, é um futuro sem volta”, afirma.

A primeira aula acontece dia 23 de julho e será aberta ao público. Para saber os detalhes do programa, clique aqui.  

A física quântica da gestão de projetos de impacto

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Em meio à pandemia, a quantidade de cursos on-line, lives e webinários explodiu. Parece que a solução para todos os problemas de gestão das organizações sociais pode estar nos cursos.

Num esforço legítimo de atender às demandas, nós, organizações-meio, perguntamos qual é a necessidade. A dificuldade é preencher um edital para acessar recurso? Toma curso sobre preenchimento de edital. Dificuldade na prestação de conta? Live sobre boas práticas na prestação de contas! E entupimos a internet com esses conteúdos…

Acontece que a gestão de projetos não é nenhuma “física quântica”. No que se refere ao conteúdo técnico, engloba assuntos conhecidos e acessíveis: bastante discutidos e de domínio praticamente público. O que está escrito em guias de gestão de projetos pensados para o campo social, como o Project DPro, o ProgramDPro (da PM4NGOS), o PM4R ou ainda o PM4R Agile (do BID), também pode ser encontrado, ainda que em formatos distintos, em outros manuais e livros destinados a gestores de projetos. 

O intrigante é que, mesmo os gestores de organizações que já tiveram acesso abundante a conteúdos, ainda têm dificuldades para lidar com várias questões sobre gestão de projetos. E este é um forte indício de que o mero acesso ao conteúdo não basta para resolver os problemas que a gestão traz.

Quais seriam os outros fatores que poderiam ajudar gestores a responder seus questionamentos sobre a gestão e melhorar a tomada de decisão?

Convivo com gestores e gestoras de projetos do campo que são incríveis! E aqueles que têm mais facilidade para responder suas próprias dúvidas, que desenham projetos que fazem mais sentido para os beneficiários e que mantêm suas equipes mais alinhadas apresentam três atitudes comuns:  

(i) Aumentam continuamente suas experiências sobre gestão de projetos de impacto – se não praticando, ao menos, conhecendo a fundo as experiências de outros gestores.

(ii) Fazem perguntas sobre o que está acontecendo – questionamentos baseados em conhecimento prévio e dados concretos; e não só em achismos.

(iii) Reconhecem que seu comportamento influencia na gestão, na sua equipe, nos resultados dos projetos e procurar mudá-los quando necessário. 

Não é uma jornada fácil!

É um desafio enorme para o campo de impacto socioambiental investir na qualificação da sua equipe. Seja porque este conhecimento específico é escasso, seja porque os recursos destinados são enxutos, seja porque sempre há trabalho demais e resta pouco tempo para dedicar à formação. Além disso, estamos pouco auto-disciplinados, especialmente em ambientes organizacionais, a incorporar nossas experiências e práticas diárias como um dos possíveis processos de aprendizado: esquecemos que somos capazes de aprender de muitas maneiras!

Há tantos gestores de projetos sofrendo porque trabalham incansavelmente e ainda não encontraram respostas para perguntas complexas e profundas sobre o gerir projetos no campo. Perguntas que se espera que tenham as respostas como num piscar de olhos: como atender às demandas dos beneficiários sem perder de vista os interesses do financiador? Como gerenciar um portfólio com uma quantidade grande de projetos sem uma estruturação de programas bem definida? Como abordar novos modelos de gestão e como aplicar na vida cotidiana? Como garantir no dia a dia que o projeto tenha relação com o impacto esperado?

E esse texto é um convite! Se você também acha que responder a essas perguntas é ainda mais difícil do que desenhar um cronograma bem feito, venha conversar! Estamos buscando meios novos de pensar e fazer gestão de projetos no campo de impacto. A utilização de ferramentas técnicas é uma etapa importante do processo, mas elas sozinhas não têm dado conta da complexidade do campo: nas organizações de base, nas grandes fundações e também nos negócios sociais. Quem também sente as dores no dia a dia da gestão de projetos está mais do que convidado a se juntar a essas reflexões, tentativas e erros de desenho. 🙂  

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Colaboradora – Empreender e Transformar

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O que é: “Esta publicação é a sistematização da metodologia que construída ao longo do ano de 2019 na Colaboradora – Empreender e Transformar. A Colaboradora é uma jornada de formação e prática para empreendedores e empreendedoras sociais, artistas e outros profissionais criativos com o objetivo de fortalecer a colaboração, expandir redes e ampliar repertórios e oportunidades – e, principalmente, fortalecer a disposição desses agentes para transformar a realidade de seus territórios. Eles ingressam em uma escola livre com oficinas, mentorias e participação em diferentes eventos e, além disso, passam a integrar o LAB Procomum, um espaço coletivo com todos os recursos para um empreendimento decolar. E, como toda colaboração precisa de comunidade, o percurso inclui também articulações com diferentes grupos e territórios.”

Quem fez: Instituto Procomum.

Autores: Rodrigo Savazoni, Georgia Nicolau, Niva Silva e Simone Oliveira.

Ano: 2020.

Clique aqui para acessar a pesquisa.

Racismo: o que vem depois da hashtag?

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Atenção: esta reportagem tem uma trilha sonora como complemento. Amplie sua experiência na narrativa a seguir apertando o play.
Boa leitura!

No enfrentamento ao racismo ainda há contradições e a permanência de preconceitos estruturais. Enquanto as mobilizações em torno de pautas sobre raça nascem e somem na velocidade de uma hashtag, o Terceiro Setor ainda caminha para alcançar a igualdade dentro das organizações. Será que estamos fazendo todo o possível para conter a disseminação da violência e o desrespeito à população negra?

A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil. O dado da ONU, divulgado em 2017, vem de um longo processo histórico refletido na população negra até hoje. “Desde o ‘descobrimento’ do Brasil o racismo foi um elemento extremamente ativo, com a brutal perseguição e a escravização de diversos grupos indígenas, que foram dizimados. Com a chegada da população escravizada de origem africana, no final do século XVI, essa violência consolidou-se por longos séculos, naturalizando-se aos olhos da elite branca. Esse passado deixou marcas que ainda ferem a atualidade”, explica Gustavo Higa, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP) e doutorando no Departamento de Sociologia na mesma instituição..

Séculos depois, as estatísticas não mudaram: 75,5% dos homicídios no Brasil são de pessoas negras, de acordo com o Atlas da Violência. Segundo Gustavo, a violência direcionada apresenta-se hoje, por exemplo, na seletividade penal, na abordagem e na letalidade policial, além do sustento das relações de poder. “A ‘lista’ é tradicionalmente longa e se atualiza a cada dia”, aponta. 

Crédito: Equipe de Arte Aupa

Policiais em serviço e fora de serviço foram autores de 2,4 mortes intencionais por dia no Estado de São Paulo em 2019, uma estatística crescente em relatórios do Instituto Sou da Paz. A ONG dedicada a mobilizar a agenda pública para reduzir a violência e preservar vidas reivindica o que, sem o racismo estrutural, poderia ser o mínimo: checagem do uso legítimo da força policial, devida responsabilização em casos de uso ilegítimo da força e estratégias de formação desses policiais.

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Crédito: Equipe de Arte Aupa.

“Há racismo ou não há racismo nas polícias? Essa é uma pergunta não só para apontar o dedo e dizer ‘polícia racista’, mas para incentivar a polícia a olhar para si, fazer um debate público franco sobre recorte racial. Também existem negros lá dentro, mas reconhecer e buscar trabalhar o racismo estrutural ainda é um tabu”, observa Carolina Ricardo, diretora do Instituto Sou da Paz.

Entre as iniciativas lideradas pela organização está o Prêmio Polícia Cidadã, que identifica práticas de inteligência policial, não discriminação e aproximação com a comunidade.“Jogar luz no que existe de bom também é exercer o controle social positivo”, defende a diretora.

Outro ponto de atenção é reconhecer que uma série de práticas governamentais acaba por legitimar a violência. Com a vitória de Jair Bolsonaro (sem partido), venceu o discurso de militarização, uso da força para resolução de problemas e incentivo ao armamento dos cidadãos. Em maio de 2020, disparou a compra de munições por pessoas físicas. “Nunca se falou tanto em defesa dos Direitos Humanos, mas, ao mesmo tempo, fortaleceu-se um discurso contrário a ele”, analisa Gustavo, pesquisador do NEV. Enquanto isso, cresce o número de assassinatos em meio a pandemia da COVID-19 e ainda não se sabe exatamente o porquê.

#VidasNegrasImportam: o debate contemporâneo
Entre maio e junho começou a circular em diversos veículos de comunicação a hashtag #BlackLivesMatter – no Brasil, também com a versão em português, #VidasNegrasImportam. A manifestação pelo racismo e a truculência policial começou motivada pela morte de George Floyd, sufocado durante 8 minutos e 46 segundos por um policial em Minneapolis (Estados Unidos), há pouco mais de um mês. O assassinato, que foi gravado em vídeo, foi disseminado nas redes sociais e rapidamente surgiram muitos outros exemplos: Breonna Taylor, morta a tiros por policiais em Louisville; no Brasil, João Pedro, atingido por um tiro de fuzil dentro da casa de um primo, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio – a residência foi alvejada por mais de 70 tiros numa operação policial realizada no bairro.

Crédito: Reprodução / Equipe de Arte Aupa

Com a pauta racial inflamada nas redes, em poucos dias a hashtag virou espaço de apoio, visibilidade e valorização de profissionais, artistas e pensadores negros, além de um grande movimento de protesto virtual por vidas ceifadas de forma cruel e infundada. Até 14 de junho, a busca de #BlackLivesMatter no Instagram já apresentava mais de 22 milhões de resultados.

A questão é que, ainda que um post nas redes sociais viralize com o uso de hashtags populares, a vida útil de uma publicação pode variar entre 21 horas, no caso do Instagram, e 18 minutos, no caso do Twitter, segundo o Inbounder. Ou seja: se um debate nasce no meio digital, ele corre o risco morrer tão rápido quanto começou.

No mesmo dia do “blackout”, a realidade off-line atingiu de forma chocante mais uma vez: o menino Miguel Otávio, de 5 anos, morreu por desleixo de Sari Gaspar Côrte Real, que o deixou andar sozinho no elevador à procura da mãe, que trabalhava como empregada doméstica para a família de Sari e passeava com o cachorro da patroa. Nas ruas, cartazes manifestando que uma vida teria valido apenas 20 mil reais – o preço pago por Sari pela fiança, após sua prisão. Mas e as hashtags, quantas seriam necessárias para salvar uma vida?

Por dentro e por fora: o combate ao racismo nas organizações de Terceiro Setor
“Quando acontece um caso muito emblemático, como os de George Floyd ou de Miguel Otávio, se fala muito sobre isso, mas restringe-se àquela semana. Depois passa. É um desafio como o das instituições de Terceiro Setor: fazer a discussão ser permanente, nunca sair da agenda”, reflete Carolina. A sensação é de que o ecossistema de impacto passa por uma tomada de consciência acerca do racismo estrutural, já que o empreendedorismo negro começa a encontrar espaço no setor com o crescimento de iniciativas como Fa.vela e Preta Hub.

Crédito: Equipe de Arte Aupa

No entanto, é exatamente o fato de que os negócios do ecossistema liderados por negros ainda podem ser contados nos dedos que representa a urgência do debate. De acordo com Carolina, a necessidade de “encabeçar a mudança” e começar a enegrecer as organizações pode ser impulsionada por discussões internas e a formulação de políticas de ações afirmativas para a inserção de negros entre os profissionais, como tem feito o próprio Instituto Sou da Paz.

Pautas como essa têm sido levantadas também por organizações ,como a Fundação Tide Setubal, que lidera debates sobre equidade de gênero e raça no mercado de trabalho e em instituições públicas e privadas. A proposta da organização é diminuir a desigualdade socioespacial por meio do aumento do potencial de vozes da periferia, apoio de práticas que fomentam ações afirmativas, mobilização do investimento social privado para a agenda racial de gênero e impulsionamento do letramento racial.

Crédito: Equipe de Arte Aupa

“É importante participar do debate nas redes sociais, mas também pensar de que forma a gente coloca tudo isso em ações práticas e concretas. Pensar em cotas e em como a gente coloca pessoas negras em espaço de decisão – executivo, legislativo, líderes de empresas”,

reivindica Viviane Soranso, coordenadora do programa de raça e gênero da Fundação Tide Setubal. 

Entre as 500 maiores empresas do Brasil, os negros ainda ocupam menos de 5% do quadro executivo e conselhos de administração, segundo o Instituto Ethos. Estatísticas como essa têm sido pautadas nas redes temáticas do GIFE, que mobiliza empresas em torno do investimento social privado. Ao lado de outras empresas, a Fundação Tide Setubal tem coordenado debates sobre raça em instituições tradicionalmente lideradas por brancos. “Mesmo no investimento social privado o maior desafio é olhar pra dentro. Não é qualquer empresa que topa se abrir e repensar a maneira como está sendo estruturada, quem compõe o quadro de tomadores de decisão – é o próprio racismo estrutural sendo efetivado”, revela.

O papel de cada um
Entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU está a redução das desigualdades (ODS 10), representando que até 2030 o mundo deve ter alcançado a inclusão social e a igualdade de oportunidades para todas as pessoas, independentemente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, origem, religião, condição econômica ou outra. Os desafios trazidos pela pandemia da COVID-19 podem fazer a Agenda 2030 parecer um sonho distante, mas isso não exclui o compromisso de governantes, tomadores de decisão e civis de fazer sua parte para mitigar questões urgentes como o racismo e discriminação. É o decente a se fazer, para não dizer o mínimo.

“O Estado precisa realmente priorizar e alocar as políticas de saúde, educação, assistência, cultura e também de segurança não apenas em áreas centrais e ricas na cidade, mas principalmente nas áreas periféricas, onde policiais têm sido alocados como forma de punição”,

recomenda Carolina, diretora do Instituto Sou da Paz. 

A pauta de combate ao antirracismo deve permanecer para além de momentos de inflamação internacional – afinal, assim como as hashtags, as práticas racistas estão sempre em renovação. A mobilização em torno da COVID-19 mostra que é possível, sim, captar investimentos, trazer visibilidade e mobilização a uma causa que diz respeito a todos. Já imaginou se pudéssemos movimentar bolsos e cabeças em torno de uma doença crônica muito mais antiga?

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