Home Blog Página 13

Economia solidária nos pampas

0
Crédito: Equipe de arte Aupa

Nem a crise que está levando quase metade das universidades federais a respirarem com a ajuda de aparelhos impediu a Incubadora Social da Universidade Federal de Santa Maria (IS-UFSM) de prosseguir.

Faltam recursos humanos e financeiros, bem como investimentos para aquisição de materiais e manutenção das atividades, pois a cada ano o orçamento fica mais enxuto. “O que não diminui é a vontade de continuar trabalhando por uma educação de qualidade, mesmo que tenhamos que fazer cortes e adaptações em nosso planejamento”, afirma Elisandra Della-Flora Weinitschke, técnica em Assuntos Educacionais na IS-UFSM.

Elisandra Della-Flora Weinitschke, técnica em Assuntos Educacionais na IS-UFSM. Crédito: Divulgação

A incubadora tem papel relevante na cidade gaúcha de Santa Maria, atingindo municípios da região central do Rio Grande do Sul e do entorno dos campi da UFSM, de Cachoeira do Sul, Palmeira das Missões e Frederico Westphalen. Sua bússola aponta para a responsabilidade em articular a execução de projetos concebidos a partir de demandas locais, visando a geração de trabalho e renda para grupos em situação de vulnerabilidade social e em processo de organização solidária; e/ou que envolvam empreendimentos com o propósito de solucionar problemas sociais existentes.

AOCS Coração do Rio Grande, grupo de agricultores da região central do Rio Grande do Sul, é um exemplo. A formação do coletivo existe desde 2014, com a ajuda da Pró-Reitoria de Extensão (PRE) da UFSM. A partir de 2016, na Incubadora Social, as cinco famílias de agricultores conseguiram certificar seus produtos e, consequentemente, tornaram-se certificadoras, aprovadas pelo Ministério da Agricultura.

Hoje, o grupo tem nove famílias, algumas de assentamentos, outras de cidades próximas à Santa Maria. Para isso, a Incubadora garantiu bolsistas, profissionais da área técnica para acompanhar pesquisas e parceiros, como a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) do Estado.

Ascísio Pereira, docente e coordenador na UFSM. Crédito: Arquivo Pessoal

“O recebimento desse apoio estrutural, financeiro e técnico, com material produzido pela universidade, foi crucial para que o grupo se consolidasse. Um impacto positivo imenso, com acolhimento e desenvolvimento dessas famílias na economia solidária e na geração de emprego e renda”, conta Ascísio Pereira, docente e coordenador na UFSM, que tem o papel de facilitar o diálogo entre o grupo e a instituição.

Há três anos, o Coração do Rio Grande realiza a Feira Ana Primavesi, 100% orgânica, em Santa Maria. A feira também funciona como um espaço de encontro e troca de saberes, com atividades e dinâmicas organizadas pelos próprios membros.

Apoie o jornalismo crítico no ecossistema.

A história da Incubadora Social
A Incubadora Social da UFSM foi implantada em 2012, como um programa piloto. Ela oferecia suporte, de modo a qualificar e melhorar seus produtos, com foco em sustentabilidade, geração de trabalho e renda para coletivos e grupos demandados.

Em 2015, a incubadora intermediou convênio firmado entre a UFSM e a Secretaria Nacional de Economia Solidária para apoio da Feira Internacional do Cooperativismo (Feicoop), anualmente realizada em Santa Maria. No mesmo ano, encerrou-se o primeiro ciclo de incubação e iniciou-se um período de reestruturação da proposta inicial.

Esse processo culminou, em 2016, na institucionalização da Incubadora Social da UFSM como Órgão de Apoio da Administração Superior, vinculado à PRE para fins de supervisão administrativa. Atualmente, sua equipe é formada por um docente, dois servidores técnico-administrativos e três bolsistas das áreas de Administração e Comunicação Social. Também é apoiada por projetos de extensão, coordenados por servidores da UFSM.

Assim, por meio do ensino, pesquisa e extensão, bem como o desenvolvimento de diversos projetos envolvendo tecnologia e inovação, a incubadora proporciona aos estudantes o contato com a práxis e leva o conhecimento até a comunidade externa.

Além da IS, a UFSM conta com outras duas incubadoras de base tecnológica: a Pulsar e a Incubadora Tecnológica de Santa Maria (ITSM), ambas geridas pela Agência de Inovação e Transferência de Tecnologia (AGITTEC). Com isso, a universidade contribui para o desenvolvimento tecnológico por meio de projetos estratégicos, incubação de projetos de impacto social, incubação de empresas que geram inovação e empregos, além de diversas parcerias com os setores público e privado.

A jornada de incubação
O processo de incubação possui três etapas: pré-incubação, incubação e desincubação. Em 2021, ao iniciar um novo ciclo, a IS-UFSM também incluiu a etapa de mobilização e sensibilização, promovendo encontros on-line direcionados à comunidade acadêmica. O propósito foi apresentar a incubadora e incentivar ações extensionistas relacionadas à incubação social.

Os encontros tiveram participação de aproximadamente 200 docentes e técnicos administrativos em Educação. Posteriormente, foi lançado um edital de credenciamento de iniciativas e ações empreendedoras desenvolvidas nos territórios abrangidos pela UFSM, encaminhado diretamente às organizações públicas de apoio, lideranças de bairros e associações da sociedade civil.

Como resultado do trabalho de mobilização e sensibilização, tanto do público interno quanto do externo à universidade, o número de inscrições aumentou seis vezes em relação ao último edital de incubação. “Contabilizamos 60 inscrições de grupos e empreendedores individuais. Um índice histórico para a IS-UFSM”, comemora Elisandra.

Anterior
Próximo

Conheça algumas das iniciativas da IS-UFSM. 

Conectados ao ecossistema
A PRE e a IS possuem alcance de suas ações no contexto local, regional, nacional e internacional. Especialmente pelos projetos que estão sendo desenvolvidos, voltados às metas da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas. A Universidade, por meio dessas ações, está sendo reconhecida por relevantes rankings de sustentabilidade, como Times Higher Education (THE) e Green Metrics

A incubadora acompanha o ecossistema de impacto socioambiental em outras regiões do país, a partir da participação de fóruns da rede ITCPS (Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares) e outros encontros/eventos nos quais a temática é abordada.

“No edital de credenciamento recentemente homologado, procuramos incentivar projetos relacionados aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e à Agenda 2030, da ONU, no qual a UFSM é a 14ª instituição brasileira no ranking do cumprimento das ações”, comenta Elisandra.

Tais temas marcam presença durante o processo de incubação. No trabalho feito com a Associação de Catadores de Materiais Recicláveis Palmeira Verde, no município de Palmeira das Missões, por exemplo, foram desenvolvidas ações voltadas para a coleta seletiva

Uma das conquistas importantes do grupo, que fez parte do último ciclo de incubação, foi a substituição de veículos de tração animal por carrinhos, doados por meio da parceria entre a incubadora e a Sicredi (Sistema de Crédito Cooperativo) do município. O resultado atraiu outra doação fundamental: um terreno da Prefeitura para construção de um galpão destinado à guarda e à separação de materiais. 

Lucas Ávila, docente e chefe da Incubadora Social. Crédito: Divulgação

A pandemia está sendo um processo complexo e desafiador. A Incubadora Social teve um processo de adaptação para se manter conectada aos empreendimentos, auxiliando na manutenção de suas atividades e na busca de oportunidades para geração de renda”, afirma Lucas Ávila, docente e chefe da Incubadora Social.

Ele destaca que as principais mudanças ocorreram no trabalho da equipe e dos empreendimentos, como desenvolvimento de reuniões on-line, mini cursos e formações, de planos estratégicos para os empreendimentos, de documentários dos grupos, além da mediação de parcerias entre os empreendimentos e organizações de apoio.

“Estamos atentos às inovações que ocorrem no segmento, no contexto mundial e na sociedade, com o objetivo de fomentar projetos na perspectiva da sustentabilidade socioambiental para a geração de trabalho e renda”, destaca o docente. “Se seguir esses propósitos, a incubadora passará de referência regional à nacional, especialmente pelo seu modelo de atuação e resultados eficazes”, acredita.

________________________________________________________________________________

Assine Correio Aupa – receba jornalismo de impacto em seu e-mail.

Cooperação: o segredo para gerar impacto social em grande escala

0
Crédito: Equipe de Arte Aupa

Imagino que o sonho de todo negócio de impacto social é tornar-se escalável para gerar impacto real e mensurável. Além disso, dizem, negócios escaláveis são aquilo que os investidores procuram; assim, ter um modelo de negócio escalável seria uma forma de viabilizar a sustentabilidade do próprio negócio.

Pensando nisso, relatar uma experiência que gera impacto social em grande escala pode ser de grande utilidade para pensar os desafios de se realizar uma ação com esse propósito. Mas a experiência escolhida não é um negócio, mas, sim, uma política pública, que foi escolhida propositadamente para tornar mais explícitos os dilemas com os quais os negócios que buscam contribuir para resolver problemas sociais precisam lidar. A experiência escolhida é o Programa Bolsa Família, o maior programa de transferência de renda do mundo. Sua importância se dá, pois, em um período de menos de 20 anos, conseguiu tirar grande parte da população brasileira da situação de pobreza extrema.

Oriundo da fusão de programas de transferência de renda anteriores, o primeiro desafio que precisou enfrentar foi sobre tecnologia. O Cadastro Único para Programas Sociais, registro de famílias que identificava os possíveis beneficiários ao programa, apresentava várias deficiências. Existiam famílias duplicadas, excluídas e, sempre que uma família mudava de município, era necessário excluí-la para depois incluí-la novamente. Imagine quantos problemas isso causava!

Nesse sentido, a solução para as dificuldades que o programa enfrentava parecia a que, em geral, é preconizada para escalar negócios de impacto: melhorar a tecnologia envolvida. E isso foi feito: auditorias regulares na base do Cadastro Único passaram a ser feitas, assim como melhorias contínuas no sistema de cadastramento.

Feitas essas auditorias, contudo, a solução não mais poderia ser tecnológica. Com uma equipe que nunca foi composta por muito mais do que 100 funcionários, a Secretaria responsável pela gestão do programa não tinha estrutura para chegar a cada pessoa que registrava a família e orientar como isso deveria ser feito. Para resolver esse problema, foram feitas pactuações com Estados e Municípios, dividindo tarefas e criando um esforço conjunto para que as famílias pudessem receber o benefício.

Essa força-tarefa, contudo, não foi um ato de altruísmo dos Estados e Municípios. O Governo Federal passou a transferir recursos para que estes pudessem realizar suas atividades adequadamente. E foi somente a partir da construção dessa estrutura que o Programa Bolsa família conseguiu ter escala e gerar impacto mensurável na vida de milhões de pessoas.

O Auxílio Emergencial, que vem garantindo a sobrevivência de milhões de pessoas durante a pandemia de Covid-19, foi construído em cima da estrutura desenvolvida para gerir o Programa Bolsa Família. O próprio aplicativo de solicitação do auxílio só foi viável porque as discussões sobre o futuro do Cadastro Único para Programas Sociais já apontavam para a possibilidade do autocadastramento e da integração automática com os registros da Previdência Social e do mercado formal de trabalho. Contudo, todo o arranjo cooperativo entre Governo Federal, Estados e Municípios foi jogado fora. Resultado: quem mais precisava do auxílio foi quem mais demorou a receber, porque não tinha acesso à internet ou a um telefone celular. Ainda: não foi previsto qual seria o papel de Estados e Municípios no apoio às pessoas que se encontravam em situação de vulnerabilidade social.

O que essa experiência tem a nos ensinar? Em primeiro lugar, nos mostra que, embora a tecnologia seja importante, ela é insuficiente para dar escala e capilaridade a iniciativas que buscam gerar impacto social.

Chegar às pessoas mais vulneráveis exige esforço humano e isso tecnologia nenhuma pode substituir.

E é a promoção da cooperação que viabiliza esse esforço. Contudo, a mobilização de pessoas que chegam a quem mais precisa exige recursos, e não são poucos. São trabalhadores, estruturas de atendimento e conhecimento técnico sobre como interagir com o público da melhor forma possível.

Por meio desse exemplo, é possível inferir que as iniciativas que têm o objetivo de gerar impacto social em grande escala, mais do que criar uma estrutura tecnológica robusta e tornar-se competitivo, precisam aprender a cooperar. Identificar quem pode contribuir no alcance dos objetivos pretendidos e dar condições para que esses parceiros possam realizar o seu trabalho da melhor forma possível. Somente a partir desse esforço coletivo será possível gerar transformação social.

________________________________________________________________________________

Assine Correio Aupa – receba jornalismo de impacto em seu e-mail.

A realidade dos extrativistas

0

Bruno Dutra, diretor-presidente da Cooperativa COMARU, participa do sétimo episódio da série “O que não te contaram sobre impacto?” do AupaCast.

Filho de ribeirinhos e extrativistas, Bruno nasceu em Almeirim, município do Estado do Pará. Aos 15 anos, se mudou para Macapá (AP), onde retornou do Estado vizinho, formado em Técnico em Agropecuária. Apesar de ter uma trajetória profissional em supervisão de processos agrícolas, Bruno começou a trabalhar na cooperativa e, desde então, se dedica ao extrativismo, sua grande paixão.

O negócio
A COMARU (Cooperativa Mista dos Produtores e Extrativistas do Rio Iratapuru) foi fundada em 1992 com o objetivo de reunir produtores locais e suas mercadorias em busca de melhores mercados. “Antes, não existia dinheiro: funcionava o mercado da troca. O atravessador chegava e oferecia um pacote de leite ou uma lata de óleo e pegava uma lata de castanha. Porém, a base do troca-troca não trazia boas condições de vida aos extrativistas, nosso produto era muito desvalorizado”, explica Bruno. Ao perceberem os impactos negativos dessa relação, os produtores se organizaram e estruturaram a cooperativa.

Através de uma parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), a organização comunitária começou a produzir biscoitos vindos da castanha-da-amazônia. O produto tinha como destino o programa de merenda escolar. “Com esse trabalho, montamos uma indústria para fabricação do biscoito (da castanha) e tivemos a oportunidade de ver as coisas melhorarem para a comunidade. Infelizmente, em 2002, aconteceu um incêndio que transformou tudo em cinzas”, comenta o diretor.

Como forma de se reinventar, os castanheiros do Rio Iratapuru passaram a fornecer seringa para o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). Segundo Bruno, a chegada da Natura – empresa brasileira de produtos cosméticos -, em 2004, foi a virada de chave na retomada da cooperativa. “Foi um parceiro comercial que nos ajudou muito. Começamos a produzir o óleo da castanha (amazônica) e nosso primeiro contrato teve um volume de duas toneladas, o que representava muito para nós, na época. Hoje, temos um contrato de 30 toneladas, uma diferença enorme e significativa”, ressalta. A parceria entre as organizações resultou nos produtos sob a marca Natura Ekos, além de um fundo que financia projetos de conservação da biodiversidade da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru (RDSI).

O desafio e as soluções
Atualmente, a COMARU possui 91 cooperados, aptos a votar e serem votados. Todos residem na comunidade de São Francisco do Iratapuru, em  Laranjal do Jari (AP). Ao todo são seis meses de trabalho, da colheita nos castanhais à finalização dentro das indústrias. Em termos de território, a atuação acontece na RDS do Rio Iratapuru, uma área com mais de 800 mil hectares de terra. Em 1997, a lei que demarcava a área como protegida foi aprovada, cinco anos após a cooperativa surgir, com o objetivo de também promover o uso sustentável da biodiversidade local. “É uma área muito grande, não exploramos toda a região, apenas uma parte. Para nós, é um prazer imenso ter essa área (de atuação), porque temos certa garantia sobre o tempo de mantença. Se cuidarmos, perpetuará por várias gerações, de forma hereditária: assim como tem passado do meu avô para o meu pai, dele para mim – e irei passar para o meu filho”, observa.

O trabalho da cooperativa vai na direção contrária dos atravessadores, que, segundo Bruno, não trazem benefícios às comunidades e só extraem riquezas do território. “Eles não caem bem no panorama extrativista, porque ele não vai ficar dentro da comunidade. Quando eles (os atravessadores) estão comprando e o castanheiro precisa de apoio, eles oferecem. Depois de dois meses, eles vão embora e o extrativista vai viver de quê?”, questiona. “Na cooperativa, o castanheiro tem seis meses de trabalho e renda garantida no ano”, acrescenta. Bruno ressalta outro ponto: a remuneração oferecida por esses intermediários, que, muitas vezes, não cobre o custo de produção – fato que dificulta a preparação nos períodos de pré-colheita.

Em seu primeiro ano eleito como diretor-presidente, Bruno prevê muitos aprendizados pela frente e reconhece a responsabilidade que existe na posição que ocupa, porém entende que ela deve ser dividida entre os outros cooperados. “Sou ‘marinheiro de primeira viagem’, mas tenho muitas ferramentas para utilizar, como consulta aos ex-presidentes – inclusive, meu pai já esteve neste cargo -, os comunitários, o conselho fiscal, entre outros. O presidente não é o dono, mas, sim, o representante. Ele precisa dividir tudo que acontece na COMARU, para que, juntos (em comunidade), definamos os próximos passos”, finaliza.

Confira o episódio completo.

Serviço
Nome do empreendedor: Bruno Dutra.
Negócio: Cooperativa COMARU (Cooperativa Mista dos Produtores e Extrativistas do Rio Iratapuru).
O que (o negócio) faz: Fabricação de óleos oriundos da castanha-da-amazônia.
De onde é: São Francisco do Iratapuru, em  Laranjal do Jari (AP).
Quando começou: 1992.
Principal tema da conversa: Como buscar melhorias de vida e de renda no extrativismo?
Soluções buscadas: Encontrar parceiros comerciais importantes e que buscavam alinhar o benefício comercial com o social.

________________________________________________________________________________

Assine Correio Aupa – receba jornalismo de impacto em seu e-mail.

A justiça fiscal é parte fundamental na luta contra a desigualdade

Crédito:Equipe de arte Aupa

A líder política argentina Eva Perón disse, na década de 1940, uma frase que ficou para sempre na memória popular: “Onde há uma necessidade, nasce um direito”. Essa frase concentra em poucas palavras todo o sentimento a respeito da relevância do papel e da presença do Estado na hora de gerar, ampliar ou restaurar direitos para reduzir a desigualdade. Quando as pessoas precisam de mais e melhor educação, saúde e empregos, de uma vida longe dos níveis de marginalidade e pobreza, é o Estado, com seus recursos, que deve auxiliar na institucionalização e universalização do direito à saúde, à educação e ao trabalho – essencialmente, o direito a uma vida digna.

Durante o último ano e meio, a América Latina e o Caribe testemunharam uma catástrofe humanitária de dimensões inimagináveis ​​até então. A pandemia agravou os enormes déficits sociais da região, deixando-nos à beira do colapso humanitário. Os números falam por si. Segundo dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento, levantados no relatório elaborado por Latindadd, Red de Justicia de América Latina y el Caribe (RJFALC) e Fundación SES sobre tributação das grandes riquezas, o 1% mais rico da região obtém 21% da renda de toda a economia, o dobro da média do mundo industrializado. Desigualdade à flor da pele. E, por trás desses números escandalosos, estão as vítimas, em carne e osso, de um sistema econômico que muitas vezes as exclui permanentemente.

Segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe da ONU (CEPAL), de 2020, 8 em cada 10 latino-americanos estão em condições de vulnerabilidade social. Isso se deve ao aprofundamento das desigualdades estruturais associadas ao forte crescimento da informalidade no emprego. Soma-se a isso o fechamento de 2,7 milhões de empresas e a queda de 7,7% no PIB. Estamos perante um retrocesso de 12 anos, em termos de pobreza, e 20 anos, em termos de pobreza extrema. Esse é o tempo estimado para que a região se recupere da crise.

Os altos níveis de pobreza, o acesso desigual à educação, as condições precárias de moradia, o menor acesso aos serviços de saúde e a maior participação no emprego informal afetam mais as mulheres, as crianças e os jovens. O fechamento preventivo de escolas para conter infecções por Covid-19 é contrastado pela falta de infraestrutura para assistir às aulas on-line. O isolamento social aumentou a sobrecarga de trabalho das mulheres, que realizam a maior parte do cuidado não remunerado.

Na atual conjuntura, é mais urgente do que nunca que os governos tomem medidas para proteger o emprego formal, a renda básica emergencial para cobrir os trabalhadores desempregados, aqueles em situação de informalidade e/ou de pobreza, para solucionar essa crise. Para isso, o fato é que o Estado precisa de recursos econômicos. E, seguramente a maioria dos leitores, se não todos, já ouviu falar que o Estado não tem esses recursos. É aqui que a justiça fiscal desempenha um papel fundamental no combate à desigualdade.

Além de poder gerar uma fonte sustentável de recursos econômicos públicos necessários para garantir os Direitos Humanos, os sistemas tributários podem ser uma ferramenta central para reduzir as desigualdades por meio de seu potencial redistributivo. No entanto, para que efetivamente possamos combater a desigualdade através deles, é preciso que sejam progressivos, ou seja, quem tem mais precisa contribuir proporcionalmente mais com o recolhimento de impostos.

A América Latina e o Caribe arrecadam muito com os impostos sobre o consumo, mas pouco com os impostos sobre a riqueza.

Atualmente, perdemos 26 bilhões de dólares por ano por não tributar as grandes fortunas.

Dos parlamentos e com o apoio do movimento social, deveriam ser promovidos impostos de emergência sobre grandes riquezas e lucros extraordinários, além de impostos pelo uso de jurisdições offshore. Isso inclui impostos sobre empresas da economia digital, como Amazon, Netflix, Google, entre tantas outras que viram suas fortunas crescerem astronomicamente durante a crise.

É fundamental também frear os fortes e crescentes abusos fiscais, que geram a saída de recursos dos nossos países e nos impedem de desenvolver Políticas Públicas inclusivas para acabar com a desigualdade estrutural e combater a extrema pobreza, que atinge 78 milhões de latino-americanos. Segundo dados da CEPAL, a cada ano, a região perde o equivalente a 6% de seu PIB em decorrência de fraudes fiscais. Além disso, é preciso melhorar a integração regional dos nossos sistemas tributários: atualmente não há cooperação em matéria tributária entre os países da região. Isso é como “voar às cegas”, porque não há transparência sobre o que acontece em termos de tributação de empresas nos países vizinhos. Precisamos aprofundar o combate às práticas fiscais prejudiciais e fortalecer o controle fiscal das grandes empresas por meio da abertura de seus relatórios contábeis, localização de subsidiárias e beneficiários finais.

Outro ponto é que nossos sistemas tributários são feitos sob medida para grandes corporações. Isso resulta em grandes perdas devido à concessão de benefícios fiscais, que chegam a quase 5% do PIB regional, excedendo o investimento regional pré-pandêmico em educação. É um montante que os países deixam de arrecadar e que passa a fazer parte do patrimônio dessas corporações. De acordo com o Estado da Justiça Fiscal 2020, relatório publicado pela Tax Justice Network (TJN), com a Internacional de Serviços Públicos (ISP) e a Global Alliance for Tax Justice (GATJ), a região deixa de arrecadar pelo menos 500 bilhões de dólares anualmente por causa de abuso fiscal corporativo. Perdemos também 320 bilhões de dólares a cada ano por sonegação fiscal, segundo a CEPAL.

O problema central da América Latina e do Caribe não é a pobreza, é a extrema riqueza concentrada em poucas mãos que os Estados não conseguem tributar e redistribuir.

Em muitos casos, isso se deve à falta de ferramentas para fazê-lo não apenas técnicas, mas essencialmente políticas. Porém, em muitos outros, isso resulta da total impunidade das elites locais e do consentimento dos governos, que se tornam cúmplices da concentração de poder econômico.

Este artigo é uma reflexão de Adrián Falco.

Adrián Falco é líder da Red de Justicia Fiscal de América Latina y El Caribe (RJFALC), rede regional da Global Alliance for Tax Justice (GATJ). É também coordenador da Fundación SES, na Argentina, e membro da Red Latinoamericana por Justicia Económica y Social (Latindadd).

 

 

 

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

________________________________________________________________________________

Assine Correio Aupa – receba jornalismo de impacto em seu e-mail.

Pesquisa Comportamental sobre Doadores de Alta Renda

0

O que é: Estudo inédito produzido pela Conectas e pelo CEAPG (Centro de Estudos em Administração Pública e Governo) da Fundação Getúlio Vargas traçou o perfil social, demográfico e comportamental dos potenciais doadores brasileiros de alta renda. 

Quem fez: Conectas e FGV.

Ano: 2019.

Clique aqui para acessar o relatório.

Investimento de Impacto na Amazônia: Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável

0

O que é: O estudo traça um panorama da região Amazônica, identificando mecanismos de investimento, tipos de empreendimento, cadeias de valor, obstáculos e oportunidades ao investimento na área.

Quem fez: Sitawi Finanças do Bem.

Ano: 2018.

Clique aqui para acessar o relatório.

Democracia Inacabada

0

O que é: O relatório Democracia Inacabada analisa a relação entre desigualdades e democracia no Brasil, jogando luz sobre a participação e representação como indispensáveis para efetivar comandos constitucionais por uma sociedade mais justa e igualitária.

Quem fez: Oxfam Brasil.

Ano: 2021.

Clique aqui para acessar o relatório.

Avaliação de impacto: um dilema constante

0
Crédito: Equipe de arte Aupa

Quando discutimos negócios de impacto, um tema recorrente é a avaliação de impacto. Muitas vezes, questionamos os negócios em relação ao real impacto que eles geram e como eles podem avaliar, monitorar, comprovar esse impacto. Acredito que alguns pontos devem ser discutidos ao se pensar a avaliação de impacto.

A primeira questão é o objetivo da avaliação. Em minha opinião, o principal motivo para se realizar uma avaliação de impacto é apoiar o negócio a melhorar sua gestão e, consequentemente, otimizar seu impacto. Por isso, falamos muito mais de gestão de impacto social do que de “avaliação de impacto”. E, nesse sentido, pensar em ferramentas contínuas pode ser um diferencial relevante para ter uma visão de longo prazo.

Um segundo ponto é como criamos metodologias simples e que possam efetivamente apoiar os(as) empreendedores(as) com indicadores que sejam úteis em seu dia a dia. Nesse sentido, há técnicas como o lean data, que buscam identificar algumas perguntas-chave que possam oferecer um panorama do impacto do negócio – e que podem ser um diferencial. O lean data é uma pesquisa contínua com clientes/beneficiários do negócio que avaliam alguns itens relevantes para a organização. A pesquisa pode ser feita, por exemplo, por Whatsapp e facilita tanto a comunicação quanto a interação com os beneficiários/clientes. Tem ainda a vantagem de ser mais rápida, barata e oferecer uma visão contínua e de longo prazo.

Além disso, é importante pensar no uso de diversas metodologias. Uma frase que algumas pessoas atribuem a Albert Einstein é “Nem tudo o que pode ser contado conta e nem tudo o que conta pode ser contado”.

Em vários casos, os impactos gerados pelos negócios vão muito além de indicadores quantitativos e de métricas totalmente objetivas.

Alguns negócios proporcionam mudanças na perspectiva de vida e nas possibilidades de futuro dos beneficiários ou até mesmo das próximas gerações. Isso significa que avaliações e pesquisas qualitativas podem trazer elementos bastante relevantes para os negócios de impacto, principalmente no que concerne à identificação de potenciais de melhorias e de impactos não planejados.

Nesse sentido, entramos em outra discussão que é a avaliação também das externalidades negativas e dos limites dos negócios. Quando discutimos avaliação de impacto, em geral, avaliamos os impactos e as mudanças positivas geradas pelos negócios. Mas, muito provavelmente, grande parte dos negócios geram também distorções sociais ou ambientais. Isso não é necessariamente um problema. O argumento é como também damos luz a essas adversidades, não como forma de destacar os problemas, mas como uma busca de minimização dos impactos negativos gerados. Uma avaliação de impacto genuína e independente deve buscar os impactos positivos e as externalidades negativas dos negócios.

Isso nos leva a uma outra discussão sobre quem deve fazer a avaliação de impacto. Por vezes, os próprios negócios podem criar mecanismos de avaliação de impacto. Isso é bastante positivo, pois pode ser mais barato, rápido e coerente com as necessidades específicas do negócio. Outras vezes, a busca de parceiros externos pode ser mais atraente por trazer uma visão mais isenta e independente, além de um olhar mais técnico para a realização da avaliação. Para isso, diversos institutos de pesquisa, consultorias e universidades estão se especializando no tema.

Por fim, deve-se pensar em quando fazer a avaliação de impacto. Não adianta, para um negócio que ainda está tentando identificar sua proposta de valor, pensar na avaliação de impacto, pois ainda não está claro qual a sua teoria de mudança e qual o impacto que pode ser gerado. Assim, é importante que o negócio tenha uma certa tração para se começar uma avaliação de impacto.

Em suma, ao se pensar a avaliação de impacto, é importante pensar em algumas perguntas clássicas antes de se iniciar o processo. Porque avaliar (quais os objetivos da avaliação)? Como avaliar (qual metodologia usar)? O que avaliar (quais as métricas a serem avaliadas)? Quem fará a avaliação? Quanto custará a avaliação? E quando fazer a avaliação? Respondendo a essas perguntas, podemos começar a entender melhor o processo de avaliação de impacto.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

_______________________________________________________________

Assine Correio Aupa – receba jornalismo de impacto em seu e-mail.

A sensibilização por trás do descarte de lixo

0

Saville Alves, co-fundadora da SOLOS, é a convidada do sexto episódio da série “O que não te contaram sobre impacto?” do AupaCast.

Vegetariana e moradora de Salvador (BA), Saville é apaixonada pelo seu território. Formada em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia, foi no ambiente universitário seu despertar para o aprofundamento e o estudo sobre as relações sociais, de poder e as desigualdades. “Há quatro professores que foram fundamentais na minha vida: Malu Fontes, Wilson Gomes, Cláudio Cardoso e Sérgio Sobreira. Foi através deles e de seus ensinamentos que cultivo processos de reflexão para tomar algumas decisões”, ressalta. Os autores Zygmunt Bauman e Friedrich Nietzsche são suas inspirações e “refrescos”, como ela brinca, para os questionamentos sobre a vida em sociedade.

O negócio
A SOLOS é um negócio de impacto que desenvolve soluções inteligentes para gestão de resíduos, redução do consumo e desperdício. “Criamos projetos para que as grandes marcas patrocinem e, através da contratação de cooperativas de reciclagem, fazemos com que as embalagens geradas por elas (marcas) tenham um destino sustentável”, explica Saville. 

A startup é gerenciada por Saville e Gabriela Tiemy, sua sócia. Ambas se conheceram dentro do campo das Organizações da Sociedade Civil (OSCs), o que formou um olhar social forte dentro do negócio. “Vivemos, a partir das nossas experiências profissionais, os desafios de ser uma ONG (Organização Não Governamental) e os aspectos específicos do seu modelo de negócio. Ao descobrir o setor 2.5 e o impacto socioambiental, encontramos um caminho para seguir”, comenta. As vivências periféricas também foram importantes para dar início à consciência ambiental das sócias.

O time da SOLOS é formado por quatro pessoas, quando há projetos em andamento, esse número chega a 50 colaboradores ao longo dos meses de execução. Um ponto pouco comentado dentro do ecossistema são as sociedades, ter duas ou mais pessoas cuidando do empreendimento pode soar desafiador. Saville entende que o principal é encontrar resiliência na parceria estabelecida. “Eu e Gabi (sócia) acreditamos que combinamos, mas, mais do que isso: quando nós discordamos, debatemos os pontos de cada uma e, logo em seguida, voltamos ao lugar onde existe a combinação novamente”, revela.

O desafio e as soluções
Para ter uma cadeia de reciclagem fortalecida e estruturada no Brasil é necessário que todos os atores tenham qualificação para realizar suas atividades. Dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostram que 90% de todo o resíduo reciclado no país vem primariamente das mãos dos catadores ou das cooperativas.

Por conta de seu contexto social, esses grupos são extremamente vulnerabilizados. “São pessoas que começam a fazer catação não para salvar o mundo e, mas, por urgência de sobreviver e ter que colocar o pão ou a carne na mesa. Executam o trabalho em situações precárias e sem mecanismos que ajudem a ganhar volume, escala e eficiência”, afirma.

A desvalorização dos catadores é um desafio nada fácil. Os profissionais lidam com tudo aquilo que expulsamos das nossas casas, o lixo. Para Saville, a aceitação e a consciência coletiva sobre a importância dessas pessoas deve ser estimulada na sociedade, assim como Políticas Públicas para estruturar processos. “Nas pequenas relações que desenvolvemos com as grandes marcas, buscamos trazer esse olhar (humano), porque, ao final, quem está do outro lado é uma pessoa também. Se estimularmos uma sensibilidade nelas, teremos chances de algumas decisões serem remodeladas”, finaliza.

Confira o episódio completo

Serviço
Nome do empreendedor: Saville Alves.
Negócio: SOLOS.
O que (o negócio) faz: Desenvolve soluções inteligentes para a gestão de resíduos, redução do consumo e desperdício.
De onde é: Salvador (BA).
Quando começou: 2016.
Principal tema da conversa: Os vários lados da desvalorização dos catadores de lixos.
Soluções buscadas: Maior sensibilização sobre o papel das empresas na geração de renda dessa população.

________________________________________________________________________________

Assine Correio Aupa – receba jornalismo de impacto em seu e-mail.

 

Amanda Souto Baliza: “Ou o Brasil eliminou a LGBTfobia, ou a decisão do STF não está sendo aplicada”

0
Amanda Souto Baliza, presidente da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero (CDSG) da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Goiás. Créditos: arquivo pessoal.

Amanda Souto Baliza preside a Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero (CDSG) da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Goiás, é colaboradora da Aliança Nacional LGBTI+, onde oferece assistência jurídica para pessoas trans em vulnerabilidade socioeconômica, e lidera uma frente do projeto Cumpram-se, que reivindica o cumprimento de decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a população LGBTI+.

Ela é a primeira advogada trans a assumir a presidência de uma Comissão Especial da OAB e também a primeira a retificar seu registro profissional na seccional do estado. Contudo, narra o fato com surpresa, pois imagina que muitos outros advogados e advogadas ainda não tenham buscado realizar a retificação permitida desde 2018 pelo Conselho Nacional de Justiça – só não se sabe quantos.

A busca por mais dados sobre a parcela transexual da população faz parte do dia a dia de Amanda. Além de ter entre as prioridades de sua gestão na Comissão da OAB o recenseamento de profissionais trans no país – defasado, porque cada seccional reúne seus próprios dados de forma independente -, a advogada reconhece que o levantamento de números nacionais sobre transexuais e travestis ajudará a consolidar políticas de defesa aos direitos LGBTI. Saiba mais na entrevista a seguir.

AUPA – No país que mais mata pessoas trans, qual é o papel do instrumento jurídico?
Amanda Souto – Temos um problema muito grave no Brasil: não há leis federais de proteção às pessoas LGBTI+. Todos os direitos garantidos vieram do judiciário ou via decreto. É grave, pois sem a lei federal fica mais difícil aplicar na ponta.
A decisão do STF de criminalizar a LGBTfobia completou dois anos em junho de 2021 e nesse tempo só tivemos uma condenação pelo crime no Brasil – em Alagoas, onde uma mulher trans foi expulsa do banheiro de um shopping. O caso foi peculiar, tanto pela grande visibilidade que ganhou na mídia quanto por envolver uma figura incomum em processos como esse – o assistente de acusação, figura que auxilia bastante o Ministério Público, intervindo na ação penal pública. Mas, se em dois anos só houve uma condenação e foi um processo tão peculiar como esse, só há duas possibilidades: ou o Brasil virou um país onde a LGBTfobia não existe, ou que a decisão do STF não está sendo aplicada. Me parece que é o segundo caso.

AUPA – Qual é a responsabilidade da OAB na atual conjuntura do país, onde é evidente uma crise multifacetada, que passa pela política e pela representatividade?
Amanda Souto – A OAB tem papéis distintos em momentos distintos. Às vezes, precisa se colocar como mediadora da sociedade, nas pautas do dia a dia e em momentos de conflito. Mas, quando se fala de questão de Direitos Humanos, penso que a OAB precisa ter um papel ativo na militância por tais direitos, que são inegociáveis.

AUPA – Qual é o papel da sociedade civil e da OAB nesse contexto e qual a importância dessa vigilância?
Amanda Souto – No Direito, temos a figura do titular da ação penal, ou seja, a pessoa que oferece a denúncia. O titular da ação penal é o Ministério Público, então o que a OAB pode fazer é criar diálogo entre as instituições, como tem sido feito, por exemplo, na Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero e na Comissão da Mulher Advogada da OAB. O objetivo é criar espaços de diálogo para discutir questões relevantes acerca da diversidade sexual e de gênero, sempre reunindo pessoas do Direito, da academia e da sociedade civil em campanhas, audiências públicas e elaboração de documentos. O diálogo precisa existir.
Tenho feito esse mesmo trabalho também pela sociedade civil, na Aliança Nacional LGBTI. Ao identificar decisões do STF sobre essa população que não estão sendo cumpridas, buscamos conversar com Ministérios Públicos, Defensorias Públicas e Secretarias de Segurança Pública e de Justiça. A partir disso, realizamos reuniões, conversamos com servidores, criamos memorandos de entendimento dessas organizações em parceria com a Aliança.

AUPA – De que forma organizações como a Aliança impactam na criação de uma futura legislação federal contra a LGBTfobia?
Amanda Souto – Para criar Políticas Públicas, nós precisamos de dados. Mas esses dados muitas vezes nem existem. No Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020 apenas 11 Estados contabilizaram casos de violência contra LGBTI. Isso sem falar nos fortes indícios de subnotificação. Em Goiás, o Anuário registrou três homicídios de pessoas LGBTI em 2019, enquanto o Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) registrou seis, um número superior, correspondente ao assassinato de pessoas trans no mesmo período. A conta não fecha.
Começamos a fazer esse mapeamento e descobrimos por que não temos esses dados: há sistemas utilizados para registrar ocorrência onde não existem os campos de motivação do crime e de orientação sexual da vítima. Ou, às vezes, há os campos, mas não são preenchidos, então é impossível saber o perfil da vítima. Cada Estado tem um tipo de sistema e ainda falta capacitação e treinamento para que seja preenchido corretamente.
A Aliança LGBTI tem criado mecanismos para disseminar ideias que deram certo em algum Estado, colocando pessoas para conversarem entre si. Muitas instituições enfrentam hoje questões orçamentárias e usam isso como justificativa para não implementar novas ideias. Mas é possível ter soluções baratas. Em Goiás, por exemplo, já foi assinada a portaria para criar um grupo especial de combate a crimes de racismo, intolerância religiosa e LGBTfobia, que funcionará na Escola Superior da Polícia Civil, então todos os policiais que passarem pelo curso de formação passarão  também por uma delegacia que evita a vitimização, humaniza o tratamento e, com certeza, preenche o campo de motivação.

AUPA – O que falta para que a iniciativa privada também invista em espaços de inclusão e minimização de violências? E o que ela ganha ao fazer isso?
Amanda Souto – Ainda é uma questão tímida, mas pelo menos as grandes empresas têm começado a mudar esse posicionamento. Hoje, por exemplo, existe o Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, do qual a Aliança LGBTI faz parte, composto por mais de 100 das maiores empresas do Brasil, onde CEOs e pessoas com alto poder de decisão debatem questões de inclusão. Acho que vai demorar um pouco para a sociedade entender que é um movimento que precisa estar em todas as empresas. Não sei se está na velocidade ideal, mas, mesmo caminhando a passos lentos, acredito que seja melhor do que não estar caminhando.
Particularmente, creio que as instituições funcionam como espécies de animais. Uma espécie de animal com pouca diversidade genética tende a ter problemas congênitos no futuro. Então, da mesma forma, quando as instituições têm pouca diversidade dentro delas, elas ficarão com aquele pensamento engessado, retrógrado e não conseguirão tomar decisões que acompanham os avanços sociais. Quando há pessoas com diferentes orientações sexuais, identidade de gênero, classe e localidades, ideologias diversas, é possível juntar tudo isso e, a partir de múltiplas visões de mundo, ter mais bagagem e opções na hora de decidir. Muitas vezes, trata-se de uma pessoa cuja opinião agregaria à empresa e ao Poder Público – porém, não acessa esses lugares simplesmente por um preconceito.

_______________________________________________________________

Assine Correio Aupa – receba jornalismo de impacto em seu e-mail.

Destaques do Portal

Aupa cria identidade para o Guia do Voto 2024

Projeto editorial contemplou produção de textos e design, além de edição impressa e criação de peças de divulgação e versão inglês.