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A branquitude e o cenário de impacto

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Nos últimos anos, o ecossistema de impacto tem ampliado sua atenção para a questão da diversidade, especialmente para gênero e raça, que são marcadores importantes quando nos deparamos com os dados que versam sobre as desigualdades sociais estruturais no Brasil.

Embora o debate se faça urgente, a maneira como ele tem sido usualmente discutido no ecossistema de impacto tem vieses para os quais precisamos nos atentar, uma vez que as leituras e análises tendem a ser homogêneas e deixam de lado necessidades e formulações que escapam à maneira a qual a branquitude experiencia o mundo.

Isso porque um olhar atento sobre as equipes de trabalho no ecossistema de impacto revela que a maioria das lideranças (principalmente nas organizações do investimento social privado, negócios de impacto e organizações intermediárias) são brancas, com forte presença de homens. No estudo “Avaliação de Aceleradoras de Impacto (2021), que a Move Social organizou com outras organizações parceiras, os dados levantados indicam que as lideranças das aceleradoras são compostas em sua maioria por pessoas brancas. O 3º Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental, organizado pela Pipe.Social, por sua vez, mostra que o perfil das pessoas que fundaram negócios de impacto mapeados também responde a padrões percebidos no cenário de impacto: a maioria é homem, branco, entre 30 e 44 anos e com alta escolaridade. A Move Social também é permeada por essa realidade e estamos buscando construir estratégias para criar possibilidades e condições de ampliação da diversidade dentro de nossa organização e, na travessia, temos nos deparado com alguns dos desafios aqui expressos.

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A construção social e histórica do Brasil é repleta de paradigmas que foram construídos pela ótica da branquitude e no ecossistema de impacto não seria diferente. No contexto da avaliação, por meio do qual nos aproximamos de diversas organizações com a missão de contribuir para ampliar e qualificar o impacto social positivo das mesmas, temos nos provocado a pensar caminhos que sejam capazes de deslocar nosso olhar e que nos ajudem a ter uma leitura analítica do mundo mais acurada. Não temos a pretensão de esgotar o assunto e, tampouco, solucioná-lo, mas acreditamos que nosso papel como avaliadoras brancas é refletirmos sobre nossa prática, tendo como ponto de partida os desafios que são essencialmente de responsabilidade da branquitude.

Admitir que as questões estruturais transpassam o ecossistema de impacto, o qual é formado por pessoas que dedicam suas vidas às iniciativas que buscam melhorar o mundo é, em si, um desafio. Não basta ter equipes diversas sem olhar o espelho: é necessário assumirmos que a maneira a qual a branquitude vê o mundo não é universal e é, sobretudo, limitada. Falar diretamente sobre poder e privilégio branco (e também masculino) é em si uma potente interrupção de padrões. Quem fala, quem não fala, quando, por quanto tempo, quem decide são chaves para entender os padrões relacionais que mantêm as diferentes opressões no lugar.  Neste sentido, criar mecanismos de combate ao racismo institucional (e também ao sexismo, ao capacitismo e à lgbtfobia) se torna urgente, inclusive, no ecossistema de impacto.

Ao nos depararmos com (as poucas) organizações que estão no movimento de estudar e olhar para as questões raciais a partir do lugar da branquitude, vemos que o interesse perpassa estudos, contratação de pessoas negras para cargos de liderança e vai além, fomentando espaços de participação dos grupos que recebem suas intervenções na própria construção de projetos e programas, posicionando a legitimidade desses para a formulação de soluções das problemáticas vividas.

Um dos projetos que avaliamos em 2020, o qual trilhou um caminho bastante interessante no âmbito da participação, teve como processo de construção um método que envolveu mapear organizações, especialistas, associações, grupos e coletivos que trabalhavam na área de atuação, para que fosse possível a co-construção de um edital público para a seleção de organizações que seriam apoiadas. Neste modelo, foi possível ouvir do campo, de forma ampla, quais eram as diferentes visões sobre a problemática em questão e, a partir deste olhar mais abrangente, construir uma iniciativa.

Com base neste contexto e com atrizes e atores sensíveis às questões de gênero e raça, foi possível implementar um processo avaliativo que priorizasse a participação de beneficiárias e beneficiários desde o mapeamento dos interesses na avaliação até a análise dos dados. Para tal, o processo foi amparado pela abordagem de avaliação culturalmente responsiva, a qual alinha-se a princípios e valores de justiça social e, portanto, teve como objetivo evidenciar os mecanismos que possibilitaram ou dificultaram o alcance da equidade, com olhar interseccional, analisando os efeitos da iniciativa nas distintas populações beneficiadas.

Além desta experiência relatada, vemos um crescente movimento do Investimento Social Privado voltado a fomentar iniciativas promovidas por organizações negras ou lideradas por pessoas negras. Além disso, percebe-se os negócios de impacto com mais ações de incentivo ao empreendedorismo negro e o mundo corporativo sendo pressionado a ser mais atento e proativo em relação à equidade racial e, em certa medida, respondendo a isso. A abordagem antirracista e o grupo de avaliadoras(es) negras(os) “Lente Preta: Avaliação e Equidade Racial” dão sinais de importantes movimentos no campo da avaliação.

Assim, vemos que existem avanços, ainda que o caminho seja longo para uma transformação, de fato. No entanto, para que os esforços aqui relatados sejam perenes, efetivos e gerem impacto positivo, se faz urgente que a branquitude se olhe, se reconheça como grupo racializado, se estude. Mas, principalmente, abra espaço para descentralizar o poder de decisão.

Este artigo é uma reflexão de Juliana Moraes e Tânia Crespo.

Juliana Moraes, sócia-consultora da Move Social. Créditos: Divulgação.

Desde 2013 na Move Social, Juliana Moraes trabalha principalmente com processos de avaliação nas áreas de educação e assistência social, com forte atração pelos casos que envolvem questões de gênero e justiça social. No campo social, atuou na coordenação de pesquisas e na avaliação e monitoramento de iniciativas de Direitos Humanos. É mestre em Antropologia Social e Cultural pela Université de Provence (França)/UNICAMP e bacharel em Ciências Sociais pela PUC-SP.

Mãe da Clara, a maternidade aflora sua visão de mundo, aproximando da temática do feminismo, o que lhe propicia diversidade de olhares.

Na Move Social desde 2012, Tânia Crespo atua em processos de avaliação de programas e projetos, planejamento estratégico e aprimoramento organizacional, em especial que envolvam Direitos Humanos, relações comunitárias e garantia de direitos. Tem experiência em gestão de organizações e projetos, trabalhou em organizações públicas e privadas no Brasil e na Argentina. É especialista em Tecnologias para a Inclusão Social pela UNILA, Comunicadora Social pela UMESP e tem formação em Psicologia Social pela Escola de Psicologia Social da Patagônia, Argentina.

Tânia Crespo, sócia-consultora da Move Social. Créditos: Divulgação.

Seu lado cuidadora floresceu e ganhou novos sentidos com a chegada de seu enteado Mateo e sua filha Flora; já sua “versão ativista” ganha força com a causa feminista e na atuação como PLP (Promotora Legal Popular na Fronteira Brasil/Argentina/Paraguai). 

Este texto é de responsabilidade das autoras e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

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Quando o impacto é o sonho

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Andrey Haag, fundador da Tumulto Rec, foi o convidado do quinto episódio da série “O que não te contaram sobre impacto?“, do AupaCast.

Filho de empregada doméstica e morador de São Vicente, cidade do litoral Sul paulista, Andrey conta que sempre foi desacreditado a trabalhar com arte, apesar de sua paixão pela área. “Como vim de uma família pobre, (trabalhar com arte) não era uma possibilidade. Os concursos públicos eram a única opção, porém nunca cogitei esse caminho”, comenta. Aos 18 anos, foi expulso de casa por conta de sua homossexualidade. Privado dos estudos e com a necessidade de sobreviver batendo na porta, começou a projetar um negócio que acolhesse outras pessoas e sonhos exilados da sociedade.

A agenda LGBTQIA+ dentro do ecossistema de impacto brasileiro é recente, o que significa que ainda há desconfortos, além de poucos investimentos e estratégias desenvolvidas pelas organizações. Uma vitória é o avanço do tema nos grandes centros, porém ao observar nos territórios menores, o caminho a percorrer ainda é longo. “Na Baixada Santista ainda temos casos de pais que expulsam seus filhos LGBTQIA+ de casa ou bares e restaurantes agredindo essas pessoas. Em São Paulo, no Rio de Janeiro e em outras capitais vemos uma ascensão da agenda com as marcas apoiando e investindo em ações, mas isso não tem chegado ao litoral. Para fortalecer a agenda na Baixada, precisamos fomentar mais o tema, ter mais artistas representando a bandeira e desconstruir esses incômodos. Nossa 1ª Parada do Orgulho LGBTQIA+, feita há três anos, é um sinal do avanço que precisa e deve continuar aqui”, ressalta.

  

O negócio
A Tumulto Rec é uma produtora audiovisual que atua com produção de conteúdo para artistas LGBTQIA+ e empreendedores das periferias da Baixada Santista. O nome surgiu após uma conversa entre Andrey e seu ex-chefe. Insatisfeito com o trabalho que realizava em uma  produtora de casamentos, Andrey comentou que desejava trabalhar com arte e artistas da periferia. “A resposta foi ‘você não se dá bem na vida, porque você não gosta de coisas certas (ter um trabalho formal), você gosta é de tumulto’. A partir disso, comecei a minha produtora”, lembra.

A produtora de Andrey foi selecionada pela Colaboradora, do Instituto Procomum, uma jornada de formação e vivência de práticas para empreendedores sociais, artistas e outros profissionais criativos. “Não tinha noção que possuía uma empresa e muito menos que estava gerando impacto social. Aprendi dentro da formação. Para mim, estava tentando criar uma possibilidade de realizar o meu sonho”, explica. Durante um ano, a Tumulto foi “incubada” e seu modelo de negócio e outros pontos foram estruturados.

Os clientes do negócio de impacto são empreendedores e artistas com históricos iguais e diferentes de Andrey. Todos estão ligados pelo fio condutor de “tenho um sonho e quero realizá-lo”, porém sem espaços para propagar a ideia. “Queremos contar essas histórias, cobrando um preço acessível e, às vezes, quando não é possível, não cobramos. Tenho o desejo que mais pessoas iguais a mim tenham voz e cheguem cada vez mais longe. Cansei de ser silenciado e questionado. Existem outros nessa mesma situação. A Tumulto estende a mão a eles, o ‘ninguém solta a mão de ninguém’, porque no final, dará tudo certo”, afirma.  

O desafio e as soluções
Andrey ressignifica, no manifesto do seu negócio, o rótulo de “coitado” que os artistas periféricos recebem por parte da sociedade. Por outro lado, o mesmo tratamento não se aplica à classe artística das regiões de classe média. “Eles são cultos e estudiosos, nós (artistas periféricos) transmitimos uma sensação de medo? Isso está errado”, questiona. “O convite da Tumulto é reunir esses artistas e empreendedores para tumultuar, juntar nossas potências, histórias e sonhos. Mostrar que somos artistas”, acrescenta.

Com dois anos de existência, o futuro da produtora segue em construção e Andrey não esconde que tudo está sendo uma novidade para ele. “Minha vida sempre deu errado e, de dois anos para cá, começou a fluir. Estou tentando me adaptar. Ocorreram algumas situações onde estava sem lugar para comer ou morar e, por uma insistência no sonho desde criança, estou vendo a minha agenda ficar lotada e novos convites aparecendo. Estou no processo de entender o que está acontecendo”, revela. 

Confira o episódio completo.

Serviço
Nome do empreendedor: Andrey Haag.
Negócio: Tumulto REC.
O que (o negócio) faz: Produtora audiovisual focada em empreendedores e artistas LGBTQIA+ das periferias da Baixada Santista.
De onde é: São Vicente (SP).
Quando começou: 2019.
Principal tema da conversa: Como insistir na sua ideia e trabalhar com os sonhos (negócios) das pessoas.
Soluções buscadas: No caso da Tumulto Rec, foi insistir no sonho e buscar formas de aprimorar as práticas e melhorar a gestão.
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Graziella Comini: “O sistema só mudará quando a forma como as grandes corporações atuam mudar também”

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A crise climática é uma expressão bastante recorrente no debate público, uma vez que trata das mudanças que afetam o clima e as variações de temperatura, precipitação e nebulosidade em escala global. Tudo isso considerando também a interferência do homem. Segundo o relatório Mudanças Climáticas: Consequências Desastrosas, da WWF, os seres humanos são os responsáveis pela alta das concentrações atmosféricas de dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa, por exemplo.

Ainda segundo o relatório, para o Brasil manter o aquecimento global médio abaixo de 2º C, será preciso conter o desmatamento com metas de queda, além de manter a matriz energética limpa.

Partindo deste contexto, Graziella Comini, economista e docente da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), explica o termo “greenwashing” e como é possível identificar uma empresa geradora de impacto socioambiental. Confira a entrevista completa.

Aupa   É possível afirmar que grandes empresas são sustentáveis? 
Graziella Comini – Isso depende muito e temos visto alguns movimentos em certos setores que vão introduzindo determinados padrões. Por exemplo, o setor de mineração, depois de todas as tragédias, foi implementando alguns tipos de padrões em suas operações, de modo que estes processos são melhores do que há 10 anos atrás, obviamente – afinal, a própria regulação também contribui para isso. Temos um movimento que é importante, no sentido de que algumas grandes empresas na liderança podem influenciar as demais.

Leia também: Urgência ambiental: o papel do ecossistema de impacto no futuro do planeta

Aupa – Quais são os critérios para uma empresa ser ambientalmente correta?
Graziella Comini – As ações devem ser transparentes, estar no modelo de negócio e no cotidiano da empresa. A organização mostra as ações na forma de conduzir as relações entre os vários atores da cadeia de valores, tanto o fornecedor quanto o consumidor deve perceber que estas ações estão inseridas no produto. Isso muda quando se trata de uma empresa B2B (business-to-business) e B2C (business-to-consumer). Desse modo, o mais importante é a transparência que grandes corporações tenham e deixem evidente o modelo de negócio, quais são as inovações e o quanto essas inovações estão vinculadas. A partir destas ações é possível ter alguns elementos para avaliar a coerência.

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Aupa – Considerando a Agenda 2030 da ONU e também a Floresta Amazônica enquanto pauta econômica mundial no debate público, como podemos relacionar estas temáticas aos negócios de impacto?
Graziella Comini – A Amazônia é um território fundamental para o mundo.  Por este motivo, precisamos batalhar para que haja o uso do território para as comunidades que vivem lá e que são responsáveis por manter a floresta em pé. Trata-se de um cenário de pobreza, de modo que há iniciativas criadas por famílias e que estimulam projetos, sendo alternativas de geração de renda para a população que vive lá. A Amazônia tem a maior biodiversidade possível de ser encontrada por metro quadrado. Com consciência, dá para fazer diversos projetos na região. É o nosso tesouro e pode gerar qualidade de vida para as pessoas que vivem lá, além de acabar com a pobreza e ter um equilíbrio ambiental. 

Aupa – O que é greenwashing e como funciona dentro das empresas?
Graziella Comini – O greenwashing ou “banho verde” indica a apropriação de virtudes ambientalistas por parte de organizações. Consiste na prática de promover discursos, anúncios, propagandas e campanhas com características ecológica e ambientalmente responsáveis e sustentáveis. Significa que a empresa está maximizando uma determinada ação que ela fez e não corresponde às mudanças de processo produtivo. Ou seja, a empresa finge que  é compromissada com o meio ambiente, com monitoramento externo que comunica que ela está fazendo algo para a conservação do meio ambiente, porém, na prática, a empresa não está revendo a cadeia de valor. É falar algo, mas não fazer. Meu sonho é que não tenhamos tanto greenwashing. Temos pouca defesa do meio ambiente no Brasil, além do fato de que nossos problemas são estruturais e antigos. O greenwashing é uma embalagem que não corresponde ao conteúdo.

Aupa – A crise climática é um dos grandes desafios do século, ao mesmo tempo que o greenwashing pode disfarçar benefícios. É um desafio certificar resultados, portanto?
Graziella Comini – A crise climática está fazendo com que alguns fatores importantes, particularmente no mercado financeiro, elevem a régua na hora de fornecer crédito, financiamento, análise, processo de fusão e aquisição. Com isso, todo esse processo parece agora ser um elemento propulsor e interessante para que possamos forçar algumas grandes corporações a saírem de um patamar muito cômodo. 

Leia também: Desvendando ESG: o que significa e como se aproxima – ou não – da agenda de impacto

Aupa – Os pequenos negócios de impacto geram mais ou menos impacto climático do que as grandes corporações?
Graziella Comini – É difícil dizer que pequenos negócios de impacto geram menos impactos do que uma grande corporação. Os pequenos podem ser exemplos de comportamento e seu papel é mais qualitativo. Quando uma grande corporação muda determinados padrões e encara a importância de regenerar – no caso da água, recuperar nascentes para o tratamento da água e a diminuir o uso -, isso é crítico, pode influenciar uma indústria e gerar um impacto enorme por tudo o que representa uma grande corporação. Mas não quero diminuir a importância do pequeno negócio, no sentido de chacoalhar as grandes e mostrar que podem fazer a diferença, de ser um grande desenvolvedor de inovações sociais – que, depois, podem ser absorvidas e utilizadas por grandes corporações. São papéis diferentes e ambos são relevantes. O sistema só mudará quando a forma de atuar das grandes corporações mudar também. 

Aupa – Como os negócios de impacto podem contribuir para o impacto climático?
Graziella Comini Grandes corporações estão sendo cobradas para mostrarem o que fazem para amenizar seus impactos no meio ambiente. Quando falamos em negócio de impacto e este negócio causa problemas para o meio ambiente, é necessário se preocupar com modo de produção, sistema agroflorestal e contribuir para diminuir os impactos climáticos. É preciso pensar nos solos degradáveis e como regenerar esse solo usando outros tipos de espécies, usando o plantio e gerando renda para o pequeno produtor, pois isso gera energia renovável.

Aupa – De fato, é possível dizer que, cada vez mais, empresas estão assumindo o compromisso com redução de emissão de gases de efeito estufa, reaproveitando água e uso de energia renovável?
Graziella Comini Sim. Na verdade, tudo isso é emergencial e fundamental para a sociedade. A pressão do consumidor e/ou investidor é essencial para que a empresa contribua para fazer o tratamento da própria água e não use mais do que precisa. Ainda: pensar em projetos que não beneficiem apenas a empresa, mas que também tragam benefícios à sociedade. A cobrança da sociedade está sendo maior, pressão que faz com que a empresa tenha um compromisso maior com o meio ambiente.

Leia também: Pacto Global ONU: se não avançar, Brasil deve completar apenas o ODS 7 até 2030

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O que são negócios de impacto

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O que é: A Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto e a Pipe.Social conduziram por cinco meses um trabalho de escuta 
dos mais diversos atores envolvidos e outros interessados na agenda de impacto socioambiental positivo. Como resultado, esse grupo identificou percepções e validou entendimentos e conceitos neste novo momento do ecossistema no Brasil.

Quem fez: Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto e Pipe.Social

Ano: 2019.

Clique aqui para acessar o relatório.

O Ecossistema de Investimentos e Negócios de Impacto entre 2015 e 2020

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O que é: A publicação traz evidências e relatos sobre os avanços do campo de investimentos e negócios de impacto no Brasil a partir de 15 recomendações.

Quem fez: Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto.

Ano: 2020.

Clique aqui para acessar a publicação

Impacto versão express

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Parece óbvio que problemas complexos e sistêmicos da sociedade, como a fome, a baixa qualidade da educação, a falta de acesso à saúde, as mudanças climáticas, entre outros, não se resolvem de uma hora para a outra e somente por um ator do ecossistema ou um grupo pequeno – por mais bem intencionados e dispostos a mudar a realidade que estes estejam. 

No entanto, em nosso trabalho na ponteAponte, estamos notando, cada vez mais, o desejo e a necessidade das empresas, especialmente startups, em ter quick wins quando falamos de impacto social. Isto é, de lançar iniciativas que tenham resultados de curto prazo (curtíssimo, na verdade) e, de preferência, que declarem uma meta ousada, um impacto significativo para ser divulgado.

Isso pode estar acontecendo por várias razões: a própria estrutura mais lean e agile desse modelo de empresa, que costuma fazer rápido, errar rápido e corrigir rápido, a alta rotatividade de profissionais, que precisam entregar resultados no pouco tempo em que ficam no cargo, pressões externas da própria sociedade, da mídia e de concorrentes para as empresas se mostrarem mais sustentáveis devido à “onda ESG”, e talvez até uma ansiedade “geracional” de quem quer resolver os problemas que as gerações anteriores não conseguiram.

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No entanto, “sair fazendo” sem pensar numa estrutura mais consistente, com ações de curto, médio e longo prazos coerentes, e com a lógica de ir corrigindo ao longo do caminho, pode até funcionar para o lançamento de iniciativas digitais no mercado, como muitas dessas startups fizeram, com sucesso. Porém, quando falamos sobre impacto social a situação é mais complexa.

Não vamos resolver o problema da fome no país simplesmente distribuindo cestas básicas ou criando hortas comunitárias, não vamos resolver o déficit de educação somente apoiando iniciativas de contraturno escolar ou doando tablets para escolas, não vamos sanar os efeitos da pandemia apenas com doações de máscaras ou mesmo doações financeiras para hospitais públicos. Claro que ações emergenciais, numa situação emergencial como a que estamos vivendo, são essenciais. Como diz a campanha da Coalizão Negra Por Direitos e parceiros: “Se tem gente com fome, dá de comer!”.

Entretanto, para uma mudança sistêmica e resultados efetivos e duradouros, é essencial que o investimento social privado e a filantropia tenham uma estratégia por trás, mesmo ainda tendo que mitigar, sim, os danos que testemunhamos todos os dias da nossa trincheira. Faz diferença ter uma tese de impacto que apresente com clareza qual o impacto desejado, em que horizonte de tempo, que ações são necessárias para se atingir os resultados esperados, como eles serão medidos, entre outros fatores que devem ser considerados nessa atuação. Construir essa estratégia leva algum tempo, exige reflexão e engajamento dos responsáveis pela empresa e um comprometimento real com ações de curto, médio e longo prazos (e em longo prazo não estamos falando de um ano, mas de pelo menos cinco ou dez anos).

Além disso, para resolver problemas sociais e ambientais complexos, é fundamental pensar em conjunto, em iniciativas intersetoriais, em articulação de parceiros que possam contribuir para a estratégia como um todo, que possam chegar aonde a empresa não chega ou atuar nas lacunas desta. Não à toa, um dos ODS, o 17, é justamente sobre Parcerias e Meios de Implementação. Não resolveremos os problemas da sociedade atuando em “silos”, cada empresa tentando fazer seu melhor, porém sem colaboração e, muitas vezes, dispersando esforços em vez de somá-los.

Para os quick wins tão desejados, uma possível solução pode ser pensar em iniciativas-piloto ou em fases distintas para as ações, divulgando os resultados por etapas, porém sem deixar a macroestratégia de lado no compromisso acordado com a sociedade. 

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O impacto do microempreendedor em seu território

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Lilian Prado, diretora institucional da Acreditar, foi a convidada do quarto episódio da série “O que não te contaram sobre impacto?“, do AupaCast.

Mãe, nordestina e moradora de Glória do Goitá, município de Pernambuco, Lilian conta que o empreendedorismo social foi a chave para ter a iniciativa de estudar Administração de Empresas na graduação. O que para ela foi algo “totalmente fora do esperado”, inclusive, é a primeira de sua família a ingressar no Ensino Superior – detalhe que, um ano depois, motivaria a sua mãe a também entrar na faculdade. “Algo que mudou a minha vida (a graduação), porque quando eu era pequena, ainda sonhando, parecia ser ‘coisa de outro mundo’, as pessoas riam da minha cara. Não era acessível a todos”, explica.

O negócio
Fundada em 2001, a Acreditar atua com microcrédito para promover desenvolvimento local e cultura empreendedora em sete municípios do Agreste e da Zona da Mata Pernambucana: Feira Nova, Lagoa do Itaenga, Chã de Alegria, Glória do Goitá, Vitória de Santo Antão, Gravatá e Pombos. A inspiração para o negócio veio quando Lilian percebeu o número de pessoas que partiam da sua cidade rumo a São Paulo pela necessidade de maiores oportunidades de emprego. “Queríamos estimular as pessoas a montarem seus negócios, gerarem renda e, com dignidade, continuarem a viver aqui. Propagar a ideia de que não é só a necessidade que leva você a empreender, é possível criar uma ideia de negócio também”, lembra.

A organização social acolhe o empreendedor e o seu sonho, ajuda a formatar o modelo de negócio e, no final, empresta recursos para ele se tornar operante. “Trazemos uma capacitação, com um olhar para o micro, dentro de uma linguagem acessível e popular, para que as pessoas consigam compreender e montar suas ideias de negócios”, acrescenta.

Ao ingressar no ecossistema de impacto socioambiental, Lilian relembra alguns constrangimentos que enfrentou por conta do seu negócio ter uma atuação mais abrangente. “Quando íamos dialogar com o mundo das microfinanças, não éramos considerados um banco, mas, sim, uma ONG (Organização Não-Governamental). Quando buscamos as ONGs, eles diziam que éramos um banco. Por muito tempo, isso se tornou uma questão para nós. Hoje, entendemos que é necessário combinar o sonho, a formatação dele, a parte do recurso, o acompanhamento junto ao negócio, entre outros pontos que oferecemos, para o desenvolvimento local ser estimulado”, justifica. 

O desafio e as soluções
O principal público atendido pela Acreditar são mulheres, geralmente desempregadas e com baixo nível de escolaridade, que buscam gerar renda para sua família. Por conta do contexto social, as oportunidades para essa parcela da população têm tendência a serem mais desafiadoras. Apesar das dificuldades, o que Lilian e sua equipe oferecem são espaços de inclusão: “Não é porque essa mulher não sabe ler que está limitada, ela ainda consegue ouvir ou se expressar. É possível que ela aprenda, traga suas opiniões e entenda a dos outros nesses espaços de formação”, afirma.

Lilian percebe que seu trabalho rompe ciclos ao permitir acesso para que grupos invisibilizados possam empreender, inovar e trilhar seu tão sonhado caminho de sucesso. “A Acreditar é esse lugar para incubar ideias e torná-las atividades geradoras de trabalho, renda e diminuição das desigualdades. É isso que vemos no nosso dia a dia, uma mulher que consegue gerar renda para si própria e para a comunidade no entorno”, comenta.

Em referência a Muhammad Yunus, Lilian não acredita em comunidades pobres, mas, sim, em territórios que deixam seu dinheiro sair. “Se olhar para minha cidade, Glória do Goitá, você acharia que somos pobres e que faltam recursos. Porém, se um bairro tiver 10 casas com um salário mínimo, quanto de renda será gerado? Se forem 20, 50 casas? Mesmo em lugares pequenos, circula muito recurso. Trazendo melhorias para a vida, o trabalho e a renda dos moradores”, ressalta.

Confira o episódio completo.

Serviço
Nome do empreendedor: Lilian Prado.
Negócio: Acreditar Microcrédito.
O que (o negócio) faz: Promove desenvolvimento local e cultura empreendedora em regiões do Agreste e da Zona da Mata Pernambucana.
De onde é: Glória do Goitá (PE).
Quando começou: 2001.
Principal tema da conversa: Como incentivar o desenvolvimento local e fazer os recursos circularem dentro do território.
Soluções buscadas: Oferecer capacitação, microcrédito e acompanhamento aos microempreendedores e negócios locais.

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Imposto mínimo global de 15% só beneficiaria países desenvolvidos

No último dia 9 de julho, o G20 endossou a proposta de um imposto mínimo global de 15% às multinacionais. Ela foi lançada no começo de junho pelos Ministros da Economia dos países do G7 e já foi firmada por 132 dos 139 membros do Quadro Inclusivo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que visa combater a evasão fiscal por parte de corporações multinacionais.

Embora o acordo tenha sido celebrado como “histórico”, a verdade é que uma taxa tão baixa apenas perpetua a história de sempre: uma grande desigualdade na distribuição de lucros, beneficiando somente os países desenvolvidos. É um acordo dos países do Norte para os países do Norte.

De acordo com estimativas da Independent Commission for the Reform of International Corporate Taxation (ICRICT) e da Tax Justice Network (TJN), seriam gerados 275 bilhões de dólares adicionais a cada ano. Parece bom, mas o diabo mora nos detalhes. Desse montante, os países do G7 e outros desenvolvidos ficariam com um total de 60% da receita, enquanto as outras nações, cerca de 120, teriam que distribuir os 40% restantes, dos quais entre 10% e 15% iriam para países em desenvolvimento. A América Latina ficaria com apenas 3% desse valor.

Dessa forma, os Estados Unidos, por exemplo, receberiam cerca de 83 bilhões de dólares, enquanto o Peru mal receberia 471 milhões de dólares. Ou seja, o governo da Casa Branca receberia 176 vezes mais recursos financeiros do que a nação sul-americana,

Além disso, a proposta prevê que o imposto seria aplicado para empresas com faturamento anual maior do que 750 milhões de euros. Na prática, as empresas que apresentam esse faturamento são poucas: grandes corporações como a Apple, por exemplo, se aproveitam de alguns mecanismos para distribuir seus benefícios, fazendo com que o faturamento declarado não chegue ao mínimo estabelecido

A proposta diz ainda que se deve tributar onde se gera o consumo, não onde estão as operações em si. Em outras palavras, isso significa que a arrecadação tributária do imposto mínimo global iria para os países sede, isto é, onde estão as matrizes das corporações, e não para os países onde elas efetivamente operam, que normalmente são países em desenvolvimento.

Vale ressaltar também que a alíquota de 15% é muito inferior à média global de impostos sobre o lucro das empresas (que é de acima de 25%) e se aproxima mais dos 12,5% propostos por jurisdições de baixa ou nenhuma tributação, os paraísos fiscais. Inicialmente, o presidente estadunidense Joe Biden havia proposto uma alíquota de 21% para o imposto mínimo global, mas ao longo das negociações – que foram feitas a portas fechadas na OCDE – essa taxa apenas baixou e tende a estimular uma corrida para reduzi-la ainda mais.

Por fim, as regras tributárias globais continuam sendo estabelecidas por um grupo de países ricos, que ironicamente são os que mais possibilitam o abuso fiscal corporativo. De acordo com o Corporate Tax Haven Index 2021, os países da OCDE e suas dependências (como Jersey, dependência da Coroa britânica, e Aruba, da Holanda) são responsáveis por 68% dos riscos de abuso fiscal corporativo em todo o mundo. Embora a OCDE tenha ensaiado incluir o Sul global nas negociações através de seu Quadro Inclusivo, países como o Brasil não têm direito a voto, portanto não participam das decisões.

Num momento em que mais precisamos de recursos financeiros para combater a crise socioeconômica desencadeada pela COVID-19, propostas desse tipo minam os esforços dos países de menor renda para gerar recursos adicionais. Como disse Dereje Alemayehu, coordenador executivo da Global Alliance for Tax Justice (GATJ), “Uma solução acordada num processo informal, opaco e sem a participação de representações significativas não pode ter legitimidade para ser um acordo internacional vinculante”.

A Argentina defendeu publicamente que o imposto mínimo global deveria ser superior a 15% e não menor do que 21%, embora finalmente tenha endossado a declaração do Marco Inclusivo. Outros países, como a Nigéria e o Quênia, expressaram sua total discordância com a medida, uma vez que as alíquotas de impostos corporativos em muitos países em desenvolvimento variam entre 25% e 35%. Assim, uma taxa global em torno de 15% pouco contribuiria para a redução significativa da transferência de lucros para locais com taxas mais baixas.

Para além de aumentar a alíquota para pelo menos 21% e idealmente para 25% e garantir os direitos tributários de todos os países, como o movimento global por justiça fiscal defende, precisamos de reformas tributárias mais ambiciosas e transformadoras para um acordo equilibrado que responda plenamente às preocupações e aos interesses dos países em desenvolvimento.

É preciso que a reforma da arquitetura financeira e tributária global ocorra num espaço onde todos os países possam participar da tomada de decisão. E as Nações Unidas são o único espaço onde esse processo poderia ser verdadeiramente inclusivo, democrático, justo e transparente.

Este artigo é uma reflexão de Luis Moreno.

Luis Moreno é presidente do comitê de coordenação da Global Alliance for Tax Justice (GATJ). É também membro da Red de Justicia Fiscal de América Latina y el Caribe (RJFALC), rede regional da GATJ, e coordenador da área de justiça fiscal da Red Latinoamericana por Justicia Económica y Social (Latindadd).

 

 

 

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

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Os perigos de um país sem ciência

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Um corpo sem cabeça. É assim que Hugo Aguilaniu, diretor-presidente do Instituto Serrapilheira, visualiza um país que não investe em pesquisa e ciência. Ele está à frente da única instituição privada de apoio à pesquisa e divulgação científica do país, cuja concorrência chega a 42 inscritos para uma vaga. Atualmente, no entanto, cerca de 10% dos pesquisadores apoiados pelo Serrapilheira aceitaram ou estão considerando abrir mão do investimento por uma oportunidade fora do país.

“Até um ano e meio atrás, os pesquisadores apoiados pelo instituto recebiam propostas de universidades de fora do país com frequência, mas não aceitavam. São pessoas que já fizeram parte dos estudos fora e escolheram por conta própria voltar para o Brasil. Antes tínhamos apenas um caso de um investido do Serrapilheira que saiu do país, agora seis pessoas já foram embora e outras seis receberam propostas e estão considerando aceitar. Mesmo sem problemas financeiros, não há perspectiva de crescimento para esses pesquisadores no Brasil. Ninguém tem dois, três, cinco anos para perder ficando no escuro”, lamenta Hugo.

Sem valorização, sem segurança, sem vontade de ficar: bem-vindo à realidade de quem faz ciência no Brasil. Em 2021, o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) regrediu duas décadas, enquanto o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) conta com apenas 22 milhões de reais para fomento à pesquisa – 18% do valor destinado em 2019. Dados da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) mostram que quase 8.000 bolsas permanentes ofertadas pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) foram cortadas durante o primeiro ano de pandemia.

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Hugo Aguilaniu, diretor-presidente do Instituto Serrapilheira. Crédito: Divulgação.

Hugo alega que os pesquisadores têm dificuldade de enxergar crescimento a longo prazo e isso só aumenta a fuga de cérebros. De acordo com o diretor e também pesquisador em genética molecular, um cientista depende de um ecossistema produtivo para desenvolver pesquisas. Precisa de produção de conhecimento em conjunto, de laboratórios bem estruturados, de valorização e da certeza de que se pode viver de ciência sem riscos de cortes federais.

Uma fagulha de esperança: conheça o Serrapilheira
Ainda que não seja um substitutivo para o investimento federal – como Hugo faz questão de lembrar -, o Instituto Serrapilheira já financiou 124 projetos de pesquisa e 46 de divulgação científica desde 2017. Fruto de um fundo patrimonial constituído por João Moreira Salles e Branca Vianna Moreira Salles, a iniciativa defende que grandes resultados advêm de uma ciência praticada a partir do risco e da incerteza. Em comparação às bolsas de pesquisa tradicionais, o Serrapilheira oferece mais liberdade para pesquisas ousadas e inovadoras.

Por meio de chamadas públicas para pesquisadores, o programa oferece bolsas de R$200 a 700 mil reais para o desenvolvimento de estudos nas áreas de Ciências Naturais, Ciência da Computação e Matemática – sem foco na Ciência Aplicada, mas, sim, na geração de conhecimento. Além do investimento direto em pesquisa, o instituto tem realizado busca ativa de iniciativas de mídia focadas na divulgação científica, ou seja, canais dedicados a popularizar como funciona e o que faz a ciência brasileira. Um exemplo de sucesso é o biólogo Átila Iamarino, que ganhou notoriedade no YouTube e nas redes sociais com vídeos sobre Virologia, especialmente durante a pandemia.

O instituto ainda estuda formas de manter os pesquisadores no país. No último e mais recente programa ofertado pelo Serrapilheira, o intuito é oferecer formação em ecologia e biologia quantitativas para preparar futuros cientistas na pesquisa transdisciplinar em Ciências da Vida, com foco no uso da Matemática, Física e Ciência da Computação. Sonham em usar o Brasil, país que tem a maior biodiversidade do planeta, como laboratório para uma geração de pesquisadores referência em biodiversidade.

Sem retorno para o Brasil
Victória Ferrari, doutoranda em Ciência e Engenharia de Materiais na Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, estuda o desempenho de baterias de lítio, pesquisa que tem como objetivo desenvolver um produto mais seguro, minimizando casos como os de explosão de celulares em aviões. A pesquisadora tem graduação em Engenharia de Energia, com passagem pela iniciação científica, com bolsa do CNPq, e mestrado em Nanociências e Materiais Avançados, ambos pela Universidade Federal do ABC (UFABC).

Victória Ferrari, doutoranda em Ciência e Engenharia de Materiais na Universidade de Maryland. Crédito: Divulgação.

Prestes a encerrar o mestrado, Victória percebeu que talvez não conseguisse se aprofundar em sua área de pesquisa diante de ameaças de cortes orçamentários. Em meados de 2018, ela começou a se planejar para um doutorado fora do país. Apesar da vontade de retornar ao Brasil, ela ainda teme a incerteza: “Por ter me formado em uma instituição pública, tenho a sensação de que é meu dever como cidadã é retribuir às pessoas que pagaram impostos pela minha educação, mas não sei se no Brasil eu teria emprego. Para quem é doutor, uma das únicas vias é lecionar em universidades. Porém, ficou difícil com a escassez de concursos públicos”, observa.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, a pesquisadora alega não encontrar pessoas que se formam no doutorado sem ter garantia de emprego dentro ou fora da academia. Na Universidade de Maryland, Victória recebe salário e benefícios como uma funcionária pública – uma das modalidades de bolsa para pesquisa científica existentes no país. Lá, o financiamento vem tanto de empresas quanto de órgãos federais.

“Não tem muita pesquisa e desenvolvimento financiado por empresas no Brasil, a exemplo das fabricantes de celulares, que simplesmente montam e vendem o produto”, avalia. A pesquisadora estuda patentear o produto desenvolvido durante a pesquisa na universidade norte-americana. Quando finalizar a formação, planeja ficar na academia para um pós-doutorado – não no Brasil, provavelmente.

Ciência na pandemia
Hugo reforça que muitas pessoas ainda desassociam a utilidade da pesquisa científica no dia a dia. “Há um mau entendimento de como funciona a economia de produção do conhecimento, de onde nascem as descobertas. As pessoas usam produtos da ciência cada vez que ligam uma lâmpada, que pegam no celular, que andam em um carro. Passam a vida inteira usando ciência, mas não fazem a conexão de que fabricar um celular, por exemplo, é entender de ondas, radiação e um universo de coisas que nascem em um laboratório”, conta.

É no mínimo contraditório perceber quão longe dos holofotes estão os pesquisadores mesmo durante a pandemia, momento em que descobertas científicas acontecem a todo o vapor, garantindo o avanço no combate à COVID-19. 

“Estudos realizados há anos sobre vacinas de RNA mensageiro possibilitaram o desenvolvimento tão rápido de uma vacina”, analisa Hugo sobre a Pfizer, primeira vacina contra o Sars-CoV-2 aprovada no mundo. Entre 1918 e 1919, pico da gripe espanhola no mundo, estima-se que 50 milhões de vidas foram perdidas até o desaparecimento da doença, cuja cura não foi descoberta. Atualmente, há 11 vacinas para a COVID-19 já aprovadas para uso no mundo.

Segundo o pesquisador, a pandemia expôs à sociedade um tipo diferente de ciência: a que acontece em tempo real, cheia de indagações, mas com poucas certezas. “As pessoas ficaram perplexas, porque esperavam respostas firmes, mas o que há são várias hipóteses e os pesquisadores vão testando – isso é lindo na ciência, essa exploração. O problema é que, no início da pandemia, isso gerou várias contradições e algumas pessoas começaram a usar isso para apoiar uma atitude negacionista”, pontua.

Ser contra o desenvolvimento da pesquisa e ciência no Brasil é apostar na perda de cérebros e fazer o caminho contrário à prosperidade de uma nação. De acordo com o Relatório de Ciências da Unesco – braço das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura -, o Brasil investe 1,26% do PIB em pesquisa, atrás da média global (1,79%) e menos da metade da média dos Estados Unidos (2,84%), país escolhido por Victória e muitos outros cérebros brasileiros.

“O que é investir 1% da sua riqueza para encontrar soluções? Isso define o que um país quer ser. Queremos investir na geração de riqueza e crescimento, no bem-estar, na saúde, no meio ambiente, ou queremos estar em um lugar onde nenhuma dessas preocupações existe? A ciência é uma forma de iluminar o nosso mundo e, nesse momento, estamos perdendo a luz”, Hugo analisa.

“Posso dizer, com certeza, que eu e meus colegas tivemos uma excelente educação – em termos de graduação, até melhor que a dos Estados Unidos. Mas não há incentivo [para seguir na área da pesquisa]. Tenho muitos colegas engenheiros que hoje trabalham em bancos, por exemplo”, lamenta Victória.

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Os dilemas de empreender no social

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Este é o terceiro episódio da série “O que não te contaram sobre impacto?”, do AupaCast. Fábio Deboni conversa com João Souza, diretor de novos negócios e parcerias do FA.VELA.

Mineiro, escoteiro e mecânico, João se viu em dado momento ingressando no empreendedorismo social e, logo depois, nos negócios de impacto socioambiental. Em 2014, ao terminar a dissertação de mestrado sobre o tema e, com a ajuda de seus amigos, resolveu empreender, abrir um negócio ou, como João brinca, “arranjar problemas”. “Nosso objetivo era, a partir das nossas experiências (profissionais), levar mais acessos e possibilidades para quem estava na ponta”, comenta.

O negócio
O diretor de novos negócios e parcerias justifica que, pelas influências do mercado e a necessidade de vender serviços para remuneração da própria equipe, a verdadeira sevirologia –  habilidade de “se virar com o que tem” -, o FA.VELA foi mudando sua narrativa com o tempo. Localizada em Belo Horizonte (MG) e fundada em 2014, a holding ou o hub de impacto atua com tecnologia e educação empreendedora para promover empoderamento e desenvolvimento de territórios vulnerabilizados. Em referência ao campo, João apresenta a tese de impacto do seu negócio: “Nossa tese (de impacto) é conectar pessoas e territórios através da educação, da tecnologia e por meio de processos de inovação social”.

A organização social utilizou as experiências acumuladas para consolidar o modelo de negócio. Principalmente, no desenvolvimento de metodologias, o que trouxe conteúdos e ferramentas para capacitação de pessoas que abriram portas para uma nova oportunidade de atuação: desenvolver projetos customizados, seja de novas edições dos programas conhecidos, como Perifa 60+ e Corre Criativo, que possuem recortes de gênero e faixa etária, até propor novos projetos às empresas. “Nunca trabalhamos com doações governamentais ou incentivos fiscais, o que é comum no setor. A sustentabilidade sempre foi importante para nós pela perspectiva que precisamos remunerar a equipe”, reforça.

Nos últimos dois anos, a principal fonte de recursos do negócio veio das consultorias prestadas para organizações, como Fundação Renova, Sebrae MG, Fundo Baobá, entre outras. “Desses trabalhos, surgiu a necessidade de separar as coisas. No final de 2020, lançamos no mercado nosso braço de consultoria, com um novo CNPJ [Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica] e novo nome, a Futuros Inclusivos”, conta.

O desafio e as soluções
No ecossistema brasileiro, ainda não existe uma definição jurídica sobre o que é e como é constituído um negócio de impacto, seu modelo de negócio. Esse cenário nebuloso provoca constrangimentos para iniciativas com a estrutura do FA.VELA. “Quando abordamos (as empresas) nos intitulando como uma Organização da Sociedade Civil (OSC), eles já entendiam ‘como posso lhe ajudar?’. Só que eu estava ali vendendo um serviço, um projeto para eles e fomos colocados automaticamente em um lugar mais assistencialista”, lembra. A criação da Futuros Inclusivos, além da necessidade, serve como uma máscara para o mercado, facilitando as relações B2B, empresa com empresa.

Outro desafio percebido pela holding foi sua atuação fora do eixo São Paulo, cidade berço de vários empreendimentos e que concentra a maior parte dos investidores. Por se encontrar na periferia do Sudeste, a dificuldade em acessar recursos se torna maior. João relembra sua “peregrinação de impacto”, onde planejava viagens para a capital paulista para participar de eventos e criar conexões dentro do campo.

Por outro lado, João reflete sobre o envaidecimento de alguns atores e seu papel centralizador: “Existem esses lobistas (os intermediários) que podem ser uma pessoa branca de classe média ou aquele negócio periférico que chegou primeiro e se tornou a referência. Tudo antes de chegar às outras pessoas periféricas, LGBTQIA+ ou pretas, passa pela sua validação. Inclusive mencionam isso ao lhe ligar com alguma proposta. Entendo isso como algo ruim”, observa. Assim como em países como os Estados Unidos, João defende que as atividades de lobby no Brasil também precisam ser regulamentadas. Segundo ele, a “disputa” seria mais justa. 

Confira o episódio completo.

Serviço
Nome do empreendedor: João Souza.
Negócio: FA.VELA.
O que (o negócio) faz: Conectar pessoas e territórios através da educação, da tecnologia e por meio de processos de inovação social.
De onde é: Belo Horizonte, Minas Gerais.
Quando começou: 2014.
Principal tema da conversa: Entendimento sobre modelos de negócios de impacto.
Soluções buscadas: No caso do FA.VELA, separar as atuações e abrir um segmento dedicado às relações B2B

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