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Retrato do aumento da fome no Brasil

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19 milhões de brasileiros estão passando fome, segundo o estudo “Insegurança alimentar e Covid-19 no Brasil”, realizado em 2021 pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN). E mais de 116,8 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar. Um retrato que volta a  assombrar o país – que, em 2014, havia saído do Mapa Mundial da Fome. De um lado, o Brasil é o 4º maior produtor de grãos do mundo,  de outro, ocupa a 10ª posição dos países que mais jogam comida fora, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e da organização britânica de resíduos WRAP.

O contexto da pandemia aumentou a fome no mundo, que passou por um agravamento dramático em 2020 e atinge 155 milhões em 55 países, segundo o relatório O vírus da fome se multiplica: uma receita mortal misturando conflitos armados, covid-19 e crise climática acelera a fome no mundo”, da Oxfam. Diante das evidências, será necessário esforço para o mundo honrar a promessa de acabar com a fome até 2030, considerando-se a ODS 2 da Agenda 2030 das Nações Unidas.

Mas o que explica a volta do cenário da fome no Brasil? “As Políticas Públicas foram desmontadas”, indica Rodrigo “Kiko” Afonso, diretor-executivo da Ação da Cidadania, entidade que atua com lideranças conforme as necessidades de cada região. Segundo o diretor, estas são consequências estruturais e a pandemia apenas agravou a situação. O desmonte das Políticas Públicas foi apresentado no “Relatório Luz da Sociedade Civil sobre a Agenda 2030”, estudo realizado pelo Grupo de Trabalho da Sociedade Civil para a Agenda 2030 (GT Agenda 2030), coalizão formada por 57 organizações e fóruns de todo o país.

A falta de Políticas Públicas também é compartilhada por Daniel Balaban, representante no Brasil do Programa Mundial de Alimentos (WFP). Vale lembrar que o programa da ONU foi laureado com o Prêmio Nobel da Paz de 2020 pelos seus esforços em combater a fome e por sua contribuição para melhorar as condições de paz em zonas de conflito. Daniel, que também é diretor do Centro de Excelência contra a Fome no país, afirma que “Tudo é ocasionado por Políticas Públicas que não tiveram uma continuidade. Não existe nada por acaso”.  

Leia também: Programa Mundial de Alimentos da ONU ganha Nobel da Paz e traz lições importantes sobre combate à fome

Essa leitura também é compartilhada por Luciana Chinaglia Quintão, economista e fundadora da ONG Banco de Alimentos, associação civil que auxilia pessoas em situação de insegurança alimentar através do combate ao desperdício de alimentos. Segundo Luciana,A infraestrutura social, política e a economia é fraca, o que colabora para o atual quadro”. 

Pobreza triplica no Brasil e a exportação de alimentos decola

A pandemia, a falta de emprego e o fim do Auxílio Emergencial compõem a fórmula que fez com que o número de brasileiros que vivem na pobreza triplicasse em seis meses, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV). O número de pobres saltou de 9,5 milhões, em agosto de 2020, para mais de 27 milhões, em fevereiro de 2021.

Em meio a esse cenário, está o agronegócio, alvo de discussões quando o assunto é o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) e o contraste com o aumento da fome no país. Para Kiko, há uma mudança no olhar político, que está mais focado em produzir para exportar do que alimentar a própria população com qualidade: “Em um momento de crise, como regular esse mercado? Não há força política no congresso para fazer isso”. O diretor-executivo da Ação da Cidadania acredita ser necessário um modelo que consiga pensar no alimento como algo coletivo.

Esse argumento pode ser melhor explorado no artigo “O agro não é tech, o agro não é pop e muito menos tudo”, assinado por Marco Antonio Mitidiero Junior e Yamila Goldfarb. No documento, os geógrafos desmascaram a versão de que o agronegócio é a maior força econômica do Brasil. “O agronegócio usa diversas estratégias para construir o consenso na sociedade brasileira de que é o setor mais dinâmico, moderno e importante da economia. No entanto, uma análise detalhada dos números do agro revela outra realidade. A de um setor que recebe muito e contribui pouco com o país”, afirmam os dois geógrafos no estudo.

Leia também: Especial: os reflexos da pandemia no mercado de trabalho 

Contudo, vale destacar que o faturamento com as exportações do agronegócio brasileiro em junho alcançou recorde, de US$12,11 bilhões, o que representa uma alta de 25% em comparação com US$9,69 bilhões de junho de 2020, de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Desperdício de comida e desigualdades regionais

O desperdício de alimentos é um dos grandes desafios pendentes para  que a integridade da segurança alimentar possa ser alcançada. Daniel Balaban explica que, “No Brasil, a falta de estrutura  faz com que muitos alimentos sejam desperdiçados. Desde produção, colheita, até transporte, comercialização e consumo final das famílias. A maioria dos desperdícios não está nas famílias, porque elas estão mais conscientes”.

Segundo o representante da WFP, seria necessário modificar o sistema de transporte para reduzir os desperdícios. “O melhor formato seria o ferroviário, como os países desenvolvidos fazem. Muitas vezes, o alimento se perde, porque precisa estar refrigerado. Não-raro, o próprio caminhão não está refrigerado adequadamente e um potencial problema na estrada faz com que ele perca toda a carga”, explica. No Brasil, 41 mil toneladas de comida são jogadas fora por dia, de acordo com o Programa Mundial de Alimentos. Para Luciana Chinaglia Quintão, há falta de gestão do governo, pois “O desperdício é uma desordem social”. 

Vale ressaltar ainda que no Brasil as desigualdades também são regionais. Segundo o estudo realizado pela Rede PENSSAN, o Nordeste é a região mais afetada, com 7,6 milhões de pessoas em estado de insegurança alimentar. Daniel explica que “O Brasil nunca se desenvolveu por igual e por inteiro. Então, temos bolsões de desenvolvimento. Devido à história e aos processos brasileiros, a região Nordeste foi delegada em segundo plano, junto com a região Norte”. Luciana, por sua vez, destaca que “O Nordeste é um país dentro do Brasil”.  

Além disso, o Nordeste foi a região mais afetada em rendimento do trabalho pela segunda onda da pandemia, segundo o estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ou seja, o rendimento efetivo do trabalho recuou 7,05% no primeiro trimestre deste ano, comparado ao mesmo período de 2020.

Pandemia gerou recessão brutal e prejudicou acesso a alimentos

Os preços dos alimentos subiram no mundo inteiro e ajudaram a impulsionar a inflação global.   Segundo dados da FAO, os preços pelo mundo já subiram quase 33% no último ano. Por sua vez, a recessão no Brasil tem diversas justificativas. Uma delas é a inflação que afeta gêneros alimentícios básicos desde o ano passado, como também a seca no país, o aumento do dólar, instabilidade política, aumento do desemprego.

Diante da triste realidade que os números mostram, Daniel Balaban indaga: “O Auxílio Emergencial acabou e o Brasil, assim como o mundo, não mudou. O índice de desemprego está altíssimo e as pessoas farão o quê para se alimentar?” Para ele, o caminho pode ser a articulação social. “Ela deve ser feita com sociedade civil organizada, municípios, Estados, iniciativas privadas e uma ação forte dos governos. Somente ação do Estado vai evitar uma catástrofe maior”.

Hortas urbanas e transformação das cidades: muito além das hortaliças

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Hortas urbanas são uma alternativa para quem vive nas cidades / crédito: depositphotos

Apesar de ter-nos pego de surpresa, a pandemia de Covid-19 não foi um fenômeno tão imprevisto quanto se imagina. Ela integra a explosão de doenças que presenciamos nas últimas décadas. Tendo problemas ecológicos como agravantes, registramos o surgimento de cerca de 300 novos patógenos nos últimos 50 anos. Com isso, desenvolvemos doenças emergentes (como a própria Covid-19) e presenciamos o retorno de outras.

Nesse contexto, a alimentação é central. Ao longo do isolamento social, vimos reportagens alertando para a possibilidade de novas pandemias, destacando, por exemplo, a criação de animais para consumo humano como um criadouro de novos patógenos. Alguns cientistas consideram que o que estamos enfrentando nos últimos anos é uma “sindemia” (conjunto de pandemias) caracterizada pela simultaneidade de desnutrição, obesidade e mudanças climáticas, fruto da atual organização de nossos sistemas alimentares. Tudo está conectado.

Assim, as cidades e seus habitantes estão cada vez mais vulneráveis e ao mesmo tempo são corresponsáveis por problemas complexos que envolvem o meio ambiente, a saúde e a alimentação.

A busca por soluções implica envolver as cidades nas políticas agroalimentares pensando os diversos territórios urbanos não apenas como locais de consumo, mas como espaço de vivências e de produção de alimentos pela agricultura.

A chamada Agricultura Urbana e Periurbana (AUP) é potente nesse sentido: relaciona-se com as dimensões humana, ambiental e de saúde das cidades. Trata-se de um fenômeno relativamente recente em diversos lugares do mundo e adaptável às diversas práticas culturais de cada cidade ou comunidade. Os impactos positivos são vários, indo desde a coesão social até o estímulo à economia local, passando, é claro, pelo apoio à segurança alimentar.

Partindo da cidade de São Paulo como um exemplo, percebemos que os bairros e populações que vivem em periferias altamente urbanizadas têm manifestado um crescente interesse em hortas urbanas, uma vez que descobrem suas funções de produção de alimento a preço acessível.

Quando acompanhamos os espaços de organização de hortas urbanas — os quais ainda são de difícil acesso para mulheres, mas que, uma vez que as acolhem, melhoram significativamente sua qualidade de vida — é possível entender o entrelaçamento das práticas ambientais, redes de apoio e saberes populares e a capacidade de gerar e fomentar fluxos de abundância. Isso tem impacto positivo em questões como falta de emprego, de oportunidade, de conformidade às forças do mercado de trabalho e das estruturas opressoras contra a mulher. Além disso, as hortas urbanas têm efeitos positivos na saúde: foram relatadas percepções como perda de peso, melhora na pressão arterial e na sensação de bem-estar em geral.

Esse conjunto de vantagens reafirma a importância de formulação de políticas efetivas para transformar sistemas agroalimentares em busca de segurança alimentar e equidade. A articulação de esforços entre setores da sociedade civil, Estado (em suas diversas instâncias) e produtivos é fundamental para redesenhar os sistemas agroalimentares nacionais. Essas novas formas de organização devem considerar a integração das cidades e o envolvimento permanente de moradores e gestores públicos.

As hortas urbanas comunitárias têm o potencial de integrar ações mais amplas num horizonte de construção de uma governança democrática da alimentação e uma nova geografia alimentar. As relações que se estabelecem nesses espaços mostram potenciais de transformação dos sistemas agroalimentares em direção a possibilidades concretas de integração das práticas das hortas comunitárias urbanas às dimensões da saúde coletiva, justiça social, ambiental e de gênero e ao direito à cidade.

 

Este artigo é uma reflexão de Laura Martins de Carvalho e Márcia Tait Lima.

Laura Martins de Carvalho é doutora em Saúde Global e Sustentabilidade pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Atualmente é assistente de pesquisa no projeto “Better Decision Support for Better Urban Governance”, liderado pela Universidade de Manchester (Reino Unido), em parceria com a Universidade de Brasília, a Fundação Getulio Vargas de São Paulo e El Colegio de Jalisco (México), sobre métodos que apoiam a tomada de decisão usados por diferentes atores envolvidos na governança urbana.

Márcia Tait Lima é pesquisadora no Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em 2021 integrou a equipe de pesquisa contemplada com o financiamento do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso) e da Organização das Nações Unidas (ONU-Mulheres) para projetos no tema Feminismo e Ambiente na América Latina.

Este texto é de responsabilidade das autoras e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa. 

Fazendas de ilusões

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Crédito: Equipe de arte Aupa

Os números de curtidas, seguidores e comentários em redes sociais são cada vez mais importantes em nossa sociedade. Não são apenas um detalhe de vaidade ou ego. São números que influenciam nas condições financeiras de milhares de pessoas. E nesse contexto surgiu um movimento chamado de “Fazenda de Cliques”. São plataformas que oferecem um novo tipo de crescimento artificial desses números. Os mais variados profissionais, de empresários a celebridades, se interessam por esse serviço e criam, na verdade, uma “Fazenda de Ilusões”.

As “Fazendas de Cliques” possuem duas frentes. Na primeira, são sites que prometem milhares de seguidores, curtidas e engajamentos. Garantem até que todos seguidores serão “reais”, ou seja, não serão robôs feitos automaticamente nas plataformas. Em outra frente, as “Fazendas de Cliques” reúnem as pessoas que vão buscar os números. Prometem que eles poderão trabalhar de casa, com horário flexível, utilizando apenas o próprio Instagram. “Ganhe dinheiro online usando suas redes sociais” é a promessa mais comum, que atrai muitas pessoas.

E assim começa o serviço na “Fazenda de Cliques”: os trabalhadores passam a seguir perfis contratados e interagir com as publicações deles. E para cada ação é pago um valor determinado – em média é R$ 0,006.

Diante de um valor tão pequeno, o trabalhador precisa de muitas contas nas redes sociais para conseguir fazer tantas curtidas e comentários. Essa demanda gera um problema imediato: os trabalhadores passam a criar robôs para terceirizar as ações. Portanto, aquela promessa de “seguidores reais” não é cumprida.

Quem trabalha nessa área não tem qualquer vínculo empregatício e ainda enfrenta dificuldades, como a queda repentina no valor de pagamento. Recentemente, foi organizada até uma greve porque muitas “Fazendas” estavam baixando os pagamentos para R$ 0,003 por ação.

Consequências para a informação

As “Fazendas de Cliques” geram consequências negativas para a informação. Afinal, muitas pessoas medem a credibilidade de mensagens por seguidores e curtidas. E se esses dados podem ser comprados, há uma distorção natural e perigosa sobre o  que circula nas redes sociais.

Segundo pesquisa “Histórias da Inteligência Artificial”, desenvolvida pelo DigiLabour, laboratório de pesquisa sobre mundo do trabalho e plataformas digitais ligado à Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), muitos compradores de cliques são da área da saúde. Normalmente são profissionais interessados em ganhar relevância artificialmente. Eles não são autoridades no assunto, mas recebem esse status por causa de seguidores e curtidas comprados. Em uma época de pandemia, quando a sociedade está cheia de dúvidas sobre saúde, essa distorção passa a ser perigosa.

O Laboratório de Pesquisa DigiLabour produz investigações em torno das conexões entre mundo do trabalho e tecnologias digitais. crédito: Digilabour

Consequências para o e-commerce

Outra consequência das “Fazendas de Cliques” é criada para quem investe em e-commerce. Até nano e microempresários investem nessas “Fazendas de Cliques”, pois os valores cobrados estão cada vez mais acessíveis – com menos de R$100 é possível comprar mil seguidos. Mas, nestes casos, a eficiência da estratégia pode ser muito questionável.

Silvia Rodrigues, consultora de negócios do Sebrae-SP, explica que ninguém se beneficia com a prática. Para a empresa, adotar essa estratégia é ruim em três aspectos: “Além de ser uma forma de fraude virtual, constrói uma audiência fictícia, a qual prejudicará a própria empresa em sua imagem, reconhecimento de marca e relação com seus consumidores”. E, segundo ela, os próprios compradores são prejudicados: “Sabemos que o consumidor tende a escolher produtos bem avaliados, acreditando que outras pessoas passaram por experiências positivas. Então, quando existe uma fraude nesse processo, o consumidor é o primeiro a ser prejudicado. Por outro lado, também pode prejudicar outras empresas concorrentes que foram preteridas por receberem menor quantidade de avaliações”.

Silvia Rodrigues, consultora de negócios do Sebrae-SP. Crédito: Linkedin

A recomendação de Silvia é investir em anúncios dentro das próprias plataformas, com muito cuidado na segmentação de público. E ela também ressalta que nem todo pequeno empreendedor precisa ter um e-commerce. “Não é o único caminho. Muitos empreendedores vendem através dos marketplaces, que são grandes shoppings on-line, outros divulgam pelas redes sociais e se comunicam pelo Whatsapp. O on-line trouxe inúmeras oportunidades e diferentes formas de conexão, por isso é importante analisar cada caso”.

 

Apesar do crescimento das “Fazendas de Cliques”, Silva avalia que a gestão de redes sociais dos pequenos empreendedores brasileiros tem evoluído bem. “Percebo que os empreendedores têm se dedicado muito à gestão das mídias digitais, expondo seus produtos, fazendo a demonstração de uso, criando conteúdo e principalmente interagindo com o público”.

 

Posicionamento do Instagram

Principal rede social afetada pelas “Fazendas de Cliques”, o Instagram tenta autenticar contas e acabar com a criação de robôs – o que faz com que os trabalhadores das “Fazendas de Cliques” não ganhem nada por suas ações. Não-raro, as moderações das redes sociais são feitas por trabalhadores em condições precárias.

Questionado pela reportagem sobre as “Fazendas de Cliques”, o Instagram divulgou o seguinte posicionamento:  

“É muito importante para nós que as interações no Instagram sejam genuínas, e trabalhamos arduamente para manter a comunidade livre de comportamentos inautênticos. Serviços que oferecem formas de aumentar a popularidade de uma conta por meio de curtidas, comentários e seguidores ilegítimos não são permitidos e todos os dias milhares de contas falsas, inautênticas ou automatizadas são detectadas e bloqueadas automaticamente”.

É preciso sair da bolha do impacto. Mas será que a estratégia está correta?

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Uma das prioridades do ecossistema de impacto é potencializar a comunicação sobre esta agenda, fazendo-a chegar a outras bolhas dos não-convertidos. Convenhamos, a bolha atual é bastante elitizada e fala-se há tempos da necessidade de furar bolhas.  

Para além desta boa e necessária intenção, será que a estratégia adotada até aqui está nos conduzindo nesta direção?

OK, mas de qual estratégia estamos falando? A referência está disponível no documento  “Visões de Futuro para a Agenda de Impacto no Brasil – Recomendações para o avanço dos investimentos e negócios de impacto até 2025”, da Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto. 

Aliás, um documento-chave para todo o campo do impacto, não apenas para os interessados em comunicação. Das nove recomendações que o documento traz (para avanço dos investimentos e negócios de impacto no Brasil até 2025), uma delas (a nona) é focada em Comunicação para Impacto.

Ela prevê:

  •       Coconstruir narrativas que aproximem públicos de interesse à causa dos investimentos e de negócios de impacto, garantindo a criação de uma linha de base (metas e indicadores de partida) que permita o monitoramento coletivo de resultados de comunicação
  •       Popularizar o tema entre empreendedores(as), investidores(as), gestores(as) públicos(as) e consumidores(as).

O documento traz as seguintes diretrizes, já com algumas provocações que faço por minha conta e risco (em vermelho):

  •       Cocriação de mensagens simples e efetivas para a divulgação da causa.
    Quem está fazendo isso? De que forma? Com que apoio? Por quais canais? Uma mensagem simples é um meme ou um artigo na Folha?
  •       Produção de conteúdo e sistematização de casos.
    Quais casos? Os de sempre? E os casos desconhecidos e longe dos holofotes do centro do ecossistema? Quem faz as vezes de olheiro para encontrá-los?
  •       Financiamento e apoio a veículos especializados e independentes.
    Dá uma olhada nos apoiadores da Aupa, por exemplo, pra ver que o buraco é mais embaixo. Uma coisa é dizer que é importante financiar veículos independentes, outra coisa é eles conseguirem se financiar na prática. Quem/como vai financiá-los? Premiações de 10 mil é financiamento?
  •       Ampliação do relacionamento com atores do mainstream.
    Será que a mídia empresarial tradicional (minha interpretação para o tal “mainstream”) está mesmo disposta a cobrir esse tema? Se sim, com que tipo de abordagem? Essa abordagem reforça nossas assimetrias ou as reduz? Esse espaço supostamente aberto pela mídia tradicional nos fortalece ou nos separa como setor? Se for pra sair na grande mídia reforçando a ideia equivocada de “caça a unicórnios”, tô fora. Nada contra os unicórnios, mas eles não representam a única visão de “sucesso” para o setor.
  •       Fomento de linguagens, imagens e conceitos positivos e propositivos.
    Como é ser positivo em termos de abordagem na produção e disseminação de conteúdo sobre impacto? Ser positivo é passar pano para as tantas contradições que nos cercam como setor? Em “ser propositivo” cabe também um raio X do caso do “fundo do MST”, por exemplo? Curiosamente, um baita “case de sucesso” que não virou hit nas paradas de sucesso do setor. Por que será?
  •       Criação de um grupo de trabalho nacional para construção de uma linha de base para monitoramento coletivo de resultados de comunicação da causa do impacto.
    Quem vai criar? Com quais participantes? Quem vai financiar? Esse grupo vai dialogar com o atual governo federal? Esse grupo supostamente nacional terá mais da metade dos seus membros de São Paulo? Isso é ser nacional? Note, caro(a) leitor(a), que estou questionando o grupo e não a ideia de se ter uma linha de base e de se ter uma estratégia de comunicação desta causa chamada impacto.

Obviamente, é preciso concordar com o estudo ao sublinhar que:

“É necessário criar interlocução, principalmente com atores que ainda não são sensíveis ao tema, mas que são indispensáveis à conversa”.

Em outras palavras, precisamos sair da nossa bolha de já convertidos. Bingo!

A questão fundamental aqui é: como?

Olhando para as diretrizes anteriores, caro(a) leitor(a), é possível identificar alguma relacionada a este aspecto? Eu não consegui perceber nenhuma.

Estamos vivendo um boom de podcasts (Podpah, Flow, Mano a Mano, Mamilos, etc) e quais nossos planos para levar esse tema até eles? Curiosamente, nenhuma meta ou ação nesta direção. Afinal, se queremos sair da nossa bolha, por que não criar pontes com esses veículos?

Citei os podcasts, mas poderia incluir os inúmeros influencers (youtubers, blogueiros(as), etc) que têm uma audiência extraordinária e, infelizmente, passam longe desta nossa conversa. Se essa turma não é considerada como jornalismo (concordo), são comunicadores muito eficazes e deveria estar em nosso radar.

Pra fechar, importante enfatizar que não sou um profissional da comunicação. Sou engenheiro agrônomo não praticante que se aventura pela produção de conteúdo, na raça. Escrevo diariamente em meu blog (e LinkedIn) e estou lançando em 2022 meu quinto livro (“Inovação Social em tempos de soluções de mercado”). Também me aventuro pelos podcasts (já conferiu o AupaCast?, mas tenho os meus caseiros também).

O que quero dizer é que há um perfil de pessoas que não tem formação em comunicação, mas que também produzem comunicação. Possivelmente, esse perfil estaria fora do radar de ações de comunicação. Para o bem e para o mal. Esse, talvez, seja um pouco da encruzilhada da própria Aupa. Muitos que consomem seu conteúdo acham lindo e necessário sua existência, mas poucos topam por a mão no bolso para apoiá-la. Mas, se a comunicação de impacto é tão estratégica assim, porque tão pouco apoio $? Afinal, o nono lugar na lista de prioridades dá direito a uma vaga para a libertadores? Pelo visto não.

Lei do Bem abre espaço para a inovação nas empresas

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Crédito: Equipe de arte Aupa

Incentivar a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação na iniciativa privada é o objetivo da Lei do Bem (nº 11.196/2005), que fomenta projetos dedicados a desvendar desafios tecnológicos. Em contrapartida, a empresa acessa incentivos fiscais, como o abatimento dos investimentos realizados nas despesas com o imposto de renda. Em um país onde o orçamento para pesquisa e ciência de base andam seriamente comprometidos, a Lei do Bem representa uma porta para a inovação por caminhos diferentes – do chão de fábrica aos laboratórios de ponta -, possibilitando o avanço científico aplicado em produtos e serviços feitos no Brasil.

Clique para acessar fonte.

O incentivo fiscal abrange trabalhos teóricos e experimentais, pesquisa aplicada e experimentações que envolvam risco tecnológico, conhecimento agregado e inovação, sem limitação de setor econômico ou região geográfica. Para usufruir dos benefícios, não há necessidade de aprovação prévia, somente autodeclaração e apresentação de relatórios detalhados no ano subsequente. Quem avalia se o projeto será aprovado, reprovado ou aprovado parcialmente é o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Só em 2018, o investimento do MCTI para a Lei do Bem correspondeu a R$12 bilhões e chegou a 1% das empresas brasileiras.

Débora Beraldo, gerente técnica na GAC Group – consultoria especializada na lei -, explica o benefício na prática: “Ao demonstrar quais atividades dentro da empresa serão dedicadas à pesquisa e ao desenvolvimento, comprovando as despesas do ano, a redução de imposto dela será de no mínimo 20,4%, e é possível, inclusive, zerá-la. A empresa também abre espaço para a contratação de profissionais exclusivos para essas atividades. Isso pode aumentar ainda mais a porcentagem de desconto no imposto e, provavelmente, pagar o salário de novos profissionais com folga”, analisa.

 

Expectativa x realidade

Gianna Sagazio, diretora de Inovação da CNI.
Créditos: Iano Andrade/CNI

Segundo Gianna Sagazio, diretora de Inovação na Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Lei do Bem é o único instrumento fiscal transversal que abre portas para a produtividade e a inovação nas empresas – um movimento estratégico e essencial para o país. “O Brasil está na 57ª posição de 132 países no Índice Global de Inovação (IGI). Desde 2011 caímos 10 posições. Essa classificação não é compatível com a nossa indústria, com a nossa economia. Podemos estar entre os 20 países mais inovadores do mundo”, provoca. 

 

A regra é clara: empresas que não inovam comprometem o próprio futuro e correm o risco de deixar de existir. Enquanto países como Coreia do Sul, Alemanha e Japão destinam de 3 a 4% do Produto Interno Bruto (PIB) para pesquisa e desenvolvimento, os tímidos 1,26% do Brasil deixam a desejar. Não por acaso, os três países ocupam, respectivamente, a 5ª, 10ª e 13ª posição no ranking global de inovação. “Em países como esses, não precisamos dizer que ciência e tecnologia são importantes, porque isso está refletido nas Políticas Públicas, nas estratégias de crescimento do país e no volume de investimentos nessa área. No Brasil, o que falta é priorização”, avalia a diretora. 

Vale lembrar que os recursos orçamentários das três principais fontes de investimento em pesquisa científica no Brasil – Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e CNPq foram reduzidos em mais de R$8 bilhões entre 2015 e 2020. No último ano, o orçamento do FNDCT ficou com mais de 90% do previsto na reserva de contingência, colocando em risco projetos como a Lei do Bem. Um descaso que impacta a formação de profissionais, a geração de empregos e o mercado em efeito dominó.

 

Fazendo a roda girar
Beneficiada pela Lei do Bem desde 2006, a multinacional de tecnologia 3M tem cerca de 250 colaboradores envolvidos em projetos ligados à iniciativa, distribuídos nos departamentos de Pesquisa e Desenvolvimento, Engenharia, Manufatura e Supply Chain. Em nota à reportagem, afirmam: “Inicialmente, submetemos apenas projetos realizados no laboratório e, nos últimos anos, temos conseguido aplicar projetos de inovação tecnológica da manufatura, logística e variados departamentos. No último ano, identificamos mais de 200 projetos considerados enquadráveis com potencial de inovação tecnológica”.

Para as empresas, a Lei do Bem representa mais do que o abatimento de impostos. Ao investir em produtos e serviços mais inovadores, a qualidade aumenta, a demanda por trabalhadores aumenta, aplicam-se novas habilidades e competências e, consequentemente, a empresa fortalece a competitividade no mercado – todo mundo ganha.

Outro exemplo é o Grupo GSA Alimentos, indústria exportadora de produtos alimentícios, localizada no Centro-Oeste. Com 215 pessoas envolvidas em projetos de inovação – passando por Marketing, Produção e Manutenção -, a empresa alega ter visto na Lei do Bem uma oportunidade para investir em suas fábricas. “Conciliar um período de grandes investimentos na empresa com o respectivo planejamento tributário para prestação de contas com o Ministério é um desafio, mas sabemos que temos uma contrapartida positiva ao final do processo, de forma que parte dos gastos retornam à empresa através da economia efetiva no imposto a pagar”, declaram em nota.

 

Obstáculos à inovação
Ainda que a Lei do Bem tenha critérios evidentes, sobre utilização imediata, além de ter disponível gratuitamente um guia prático de utilização, de acordo com a gerente técnica, Débora Beraldo, o benefício não atrai tantas empresas quanto poderia. “Além de não ser muito divulgada e, por isso, não alcançar muitas empresas, algumas ainda têm medo de utilizar o incentivo por não haver necessidade de uma pré-aprovação, a exemplo de créditos e financiamento. Você primeiro utiliza e depois presta contas disso. Caso avaliem o projeto como não viável, você precisa quitar os valores com juros muito altos”. Esse é um risco que, segundo ela, limita o acesso de pequenas e médias empresas ao benefício.

Débora Beraldo, gerente técnica na GAC Group. Crédito: Divulgação

Outro fator limitante costuma ser o período despendido no processo de análise e aprovação dos projetos. Empresas desaprovadas ou aprovadas parcialmente podem realizar o envio de contestações, mas, quando o processo volta para as mãos do MCTI, não há prazo estimado para a devolutiva. Até a finalização desta reportagem, os últimos lotes do Parecer Técnico de Contestação liberados tinham como ano-base 2016 e 2017. Para Débora, a demora na fiscalização envolve o risco de que os executores que inicialmente submeteram o projeto à Lei do Bem sequer estejam na empresa.

 

Obstáculos como esses têm criado espaço para consultorias como a dela, responsáveis por coordenar todas as etapas de submissão, avaliação e acompanhamento dos projetos de pesquisa e desenvolvimento, garantindo segurança às empresas.

 

Caminhos para a Lei do Bem
Com o objetivo de ampliar o uso do benefício, a CNI tem levantado propostas de melhoria relacionadas às restrições fiscais para empresas e ao usufruto dos incentivos por períodos prolongados. O esforço é baseado em estudos recentes acerca do contexto de inovação na pandemia: segundo pesquisa realizada pela confederação com mais de 500 médias e grandes empresas industriais, 8 em cada 10 delas inovaram na busca por soluções para a crise desencadeada pela pandemia. Como resultado, 88% tiveram ganhos de produtividade e lucratividade por causa da inovação.

Ainda de acordo com o levantamento, para que a inovação vire regra, faltam trabalhadores qualificados, acesso a recursos financeiros de fontes externas e orçamento interno reservado para esse fim. A Lei do Bem deve estar no cerne desse movimento – desde que os orçamentos de ciência e pesquisa estejam garantidos. Em um cenário otimista, as portas estarão abertas para diversos outros avanços: “A inovação pode amplificar os esforços de empresas que praticam a sustentabilidade e novos modelos de negócios baseados em bioeconomia, biotecnologia, para resolver outros grandes desafios de desenvolvimento do Brasil. Tudo depende do projeto de país que queremos ter”, finaliza Gianna.

 

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Qual o papel das fintechs de impacto na proteção social da população de baixa renda?

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Crédito: Pexel

Há alguns anos, quando se falava em bancarização da população de baixa renda, era possível identificar muitas ressalvas entre os gestores de políticas de assistência social. Afinal, eram inúmeros os relatos de beneficiários do Programa Bolsa Família que entravam no cheque especial após ter sido convencidos por algum funcionário da Caixa Econômica Federal a trocar o seu cartão de benefício por um cartão de conta corrente. Sem saber que aquele dinheiro se tratava de um empréstimo a juros altíssimos, achavam que estavam recebendo um valor a mais, e não hesitavam em gastá-lo.

Em abril de 2021, o Banco Mundial divulgou um relatório com o seguinte título: Aumentando a resiliência dos trabalhadores de baixa renda no Brasil – Instrumentos financeiros e inovações. De forma muito resumida, o relatório propõe que sejam pensados instrumentos financeiros que 1) aumentem a capacidade de poupança da população de baixa renda; 2) assegurem proteções em momentos de choque, sendo os principais os ambientais e os ligados à criminalidade; 3) forneçam crédito barato a essa população e; 4) promovam ações de educação financeira que permitam com que as pessoas possam identificar os riscos que correm e pensar no longo prazo.

Nesse curto período, os instrumentos financeiros deixaram de ser um problema e passaram a ser uma possível solução. O que mudou? Em primeiro lugar, a pandemia de Covid-19 revelou que existe um número enorme de pessoas que não são atendidas nem pelas transferências de renda, nem protegidas pelos direitos assegurados pelo trabalho formal. Sem a perspectiva de aumentar a cobertura da transferência de renda, e tendo em vista um mercado de trabalho cada vez mais precarizado, passou a ser necessário pensar em soluções que garantam alguma segurança de renda para as pessoas mais vulneráveis. E aí entram os produtos financeiros.

Mas os produtos financeiros não podem ser os mesmos que os bancos estão acostumados a oferecer. Afinal, oferecer cartão com limite alto é totalmente prejudicial para essa população. Na verdade, os produtos financeiros devem incentivar a poupança de médio e longo prazo, de modo que as famílias possam enfrentar momentos de dificuldade sem a necessidade de pegar um empréstimo com juros altos. Ou, ainda, podem fornecer proteções a baixo custo para esses momentos, já que nem sempre é possível poupar o suficiente para cobrir alguma necessidade imprevista.

Neste cenário entram os negócios de impacto. As fintechs compõem alguns dos negócios de impacto que mais recebem investimentos. Será que suas soluções financeiras respondem a essas questões? Ou seriam apenas bancos digitais com algumas facilidades que podem interessar às pessoas, mas que não as apoiam no desenvolvimento de sua segurança financeira? Como pautar a questão das finanças sociais a partir do viés da proteção e não somente do acesso ao crédito e serviços bancários?

É sempre bom lembrar, como bem menciona o relatório, que a população de baixa renda é muito mais exposta a riscos do que a população historicamente atendida por serviços financeiros. São quem mais morrem em função da violência urbana e deixam suas famílias desamparadas. Com o aquecimento global, certamente serão o público mais atingido por desastres ambientais.

Caso o ecossistema de impacto não seja capaz de encaminhar essas questões, provavelmente as instituições financeiras desenvolverão produtos com essas finalidades, a seu modo. Assim, essa é uma oportunidade para os negócios de impacto que estão desenvolvendo soluções financeiras voltadas à população de baixa renda – de modo que esses cidadãos possam ser capazes de se inserirem em um debate bastante relevante e encaminhar soluções para problemas reais e que, se nada for feito, tenderão a aumentar cada vez mais.

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa. 

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5 sugestões para um ano realmente novo

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Crédito: Equipe de arte Aupa

Mais um ano vai chegando ao fim. E um novo ano começará em breve. Mas será que vai ser um ano “novo” mesmo? Ao final de 2020, estávamos esperançosos de que o pior já havia passado, de que a pandemia seria em breve controlada com a vacinação que estava prestes a começar e que com o controle da pandemia a economia se recuperaria logo. Não foi bem assim, como sabemos. A demora na vacinação da maior parte da população e as novas variantes continuaram ceifando centenas de milhares de vidas, e a economia não só não se recuperou como, para 69% dos brasileiros, a situação econômica do país piorou nos últimos meses, segundo pesquisa Datafolha, realizada de 13 a 15 de setembro. As perspectivas para 2022 também não são muito promissoras, com previsão de alta na inflação e nos juros, aumento do desemprego, agravamento da crise hidroenergética, sem contar as eleições conturbadas que estão por vir.

Nem tudo podemos controlar, infelizmente, mas algumas medidas, tomadas coletivamente, podem ao menos minimizar os riscos e/ou as consequências mais graves da pandemia e da crise política, econômica, social e ambiental que estamos enfrentando. Vamos a algumas sugestões:

1)     Trocar resoluções irreais de ano novo por metas que realmente contribuam para o mundo. Este texto de dezembro de 2020, publicado no portal UOL, continua válido para fazermos a diferença! Nele, o psicólogo Richard Ryan, professor da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, afirma que nenhuma resolução de ano novo garante tanta satisfação quanto metas que envolvam doar algo aos outros e pensar em formas de contribuir para o mundo.Tal afirmação vem ao encontro do Movimento por uma Cultura de Doação, que visa construir um Brasil melhor para todos os brasileiros e fortalecer a sociedade civil e a democracia por meio de um país mais doador. Algumas sugestões de metas nesse bloco podem ser tornar-se um doador recorrente, fazer trabalho voluntário, recolher três pedaços de plástico de cada praia que visite, entre outras ações.

2)     Colocar o ESG em prática “pra valer”. Essas três letrinhas viraram moda (ou tendência? Confira o artigo da Andressa Trivelli aqui na Aupa), mas para além de querer “fazer bonito” nos relatórios de sustentabilidade, cabe às empresas repensar suas atuações e fazer os investimentos necessários para de fato mitigar (se possível eliminar) os efeitos negativos socioambientais que causam, não apenas diretamente, mas em toda a cadeia de fornecedores. E, claro, de preferência que consigam promover impacto positivo também. Dependendo do tipo e do tamanho da empresa, algumas medidas podem envolver políticas afirmativas na seleção de colaboradores, a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia, uma política de investimento social alinhada ao core business da empresa, entre outras práticas.

3)    Consumir conscientemente. Em 29 de julho de 2021, três semanas mais cedo do que em 2020, “celebramos” o Dia da Sobrecarga da Terra (em inglês, Earth Overshoot Day), que marca o dia do ano em que a demanda da humanidade por recursos naturais supera a capacidade da Terra de produzir ou renovar esses recursos ao longo de 365 dias. É importante nos lembrarmos de que cada consumo que fazemos no dia a dia, seja uma cápsula de café, uma nova peça de roupa, um novo celular, um novo carro, contribui para gastarmos os recursos naturais do planeta. Precisamos mesmo comprar esse novo item? Dá para seguir usando ou consertar o antigo? E qual será o destino do que não vamos mais usar? Não existe “jogar fora” do planeta Terra.

4)    Promover, no nosso dia a dia e nas empresas, práticas antirracistas (e práticas feministas, antietaristas, antiLGBTfobistas…, mas fiquemos só no primeiro exemplo). Algumas atitudes simples passam por informar-se mais sobre racismo, ler mais autores negros, reconhecer os privilégios de ter nascido branco, apoiar ações que promovam a igualdade racial nos diferentes âmbitos da sociedade, entre outras ações, sugeridas pela filósofa e escritora Djamila Ribeiro, em seu livro Pequeno Manual Antirracista (Companhia das Letras).

5)    Votar conscientemente. Claro que não podemos deixar de lado as eleições de 2022 que, ao que tudo indica, tendem a ser tão polarizadas e conturbadas como as de 2018. Escolher conscientemente os futuros governantes do país, sem repetir os erros do passado (e de um passado nem tão distante assim), é essencial para uma sociedade mais justa e igualitária.

Como já diz o poema Receita de Ano-Novo, de Carlos Drummond de Andrade:

“Para ganhar um Ano-Novo / que mereça este nome, / você, meu caro, tem de merecê-lo, / tem de fazê-lo novo”.

Vamos fazer em conjunto um ano novo realmente novo?

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa. 

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Impactos da energia

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Crédito: Pexel

Para haver uma transformação relevante do setor energético do Brasil seria necessário a integração de diferentes níveis de governança local e regional, assim como levar em consideração os conflitos de demandas entre diferentes setores. A conclusão é de estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública e do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Instituto de Energia da Universidade de Durham, do Reino Unido, publicado na revista “Energy Research & Social Science”.

Os autores usaram dados públicos do setor energético do estado de São Paulo e do Brasil da base de dados de 1980 a 2019. As análises dos balanços energéticos documentados pelo Ministério de Minas e Energia foram realizadas sob um dos modelos de avaliação validados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês). A pesquisa considerou os indicadores de consumo de energia, emissão de gases do efeito estufa por consumo de combustíveis, geração de energia renovável e frota de veículos do estado.

A partir da avaliação das mudanças energéticas ocorridas no estado de São Paulo no período, o estudo discutiu o papel e influência de políticas públicas nessas transições energéticas a um nível local e, posteriormente, nacional. A matriz energética de São Paulo figura como uma das mais limpas do mundo, com destaque para hidrelétricas e derivados da cana-de-açúcar.

Ainda assim, os pesquisadores concluíram esse cenário não pode ser considerado uma transição energética, mas sim uma adição de fontes de energia. Isso porque o consumo do estado, por mais diverso que seja hoje, permanece altamente dependente de derivados do petróleo. Isso pode ser associado, afirmam os autores, ao fato de que a maior parte do seu consumo é representado pelo setor de transporte.

Segundo o estudo, uma transição energética integral precisa alterar o consumo do estado ou considerar sua real demanda e ir além do que apenas disponibilizar outras fontes no contexto. Da mesma forma, é necessário que as transições sejam realizadas contemplando a gestão de outros setores associados. De acordo com Leandro Giatti, coautor do estudo, “a indústria do bioetanol compete com a produção de alimento, demanda energia e gera impacto pelo uso do solo e de recursos hídricos. Tudo isso está interconectado”, afirma.

O trabalho também mostra que a matriz energética de São Paulo apresentou experiências mais bem sucedidas e avanços. Contudo, tais avanços não são expandidos a um nível federal, dado que qualquer tomada de decisão dessa área, de acordo com o artigo 22 da Constituição de 1988, é de responsabilidade do governo federal. Lira Lázaro, autora principal do artigo, diz que no Brasil o governo não consegue conhecer as realidades de pequenos municípios e não avaliaria o que os governos subnacionais estão fazendo para contribuir em soluções. Para ela, levantar a discussão sobre o impacto que uma governança multinível teria nas decisões foi uma grande motivação para o estudo e essa necessidade aumenta com as mudanças climáticas.

Nesse contexto, assim como no Acordo de Paris foram estabelecidas as contribuições nacionalmente definidas, o mesmo poderia ser aplicado a nível nacional. A partir de um problema do país, cada região poderia contribuir com soluções a partir do seu próprio contexto e possibilidades.  No entanto, devido à centralização de políticas energéticas, os estados são impossibilitados de que suas colaborações promovam alguma reestruturação. “Mostramos que São Paulo está criando várias alternativas, mas não existe o espaço desse recorte regional para fazer uma voz atuante na estrutura da governança atual. Para nós, essa é a grande falha que exploramos”, diz Giatti.

Fonte: Agência Bori.

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Nem-nem, sem-sem ou jovem-potência?

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Os jovens que não estudam e nem trabalham representam 35,2% da população na faixa etária entre 20 e 24 anos, segundo a pesquisa Juventude e Trabalho: Qual foi o Impacto da Crise na Renda dos Jovens? E nos Nem-Nem?, realizada pela FGV Social. 

Em paralelo, o Brasil possui a maior geração de jovens da história , com 47,8 milhões de pessoas nesta faixa etária,  segundo os dados da pesquisa “Jovens, populações e percepções” também da FGV. 

A história de Estela Reis, de 22 anos, que está no oitavo semestre da Graduação em Direito, na Faculdade Anhanguera (São Paulo) e é moradora do extremo da Zona Sul da capital paulista, ilustra a situação dos jovens no Brasil e, como em muitos casos, o que falta é uma rede de apoio que ofereça, aos jovens, oportunidades de ingresso, na faculdade e/ou no mercado de trabalho.

Estela viu sua história mudar após participar de uma ocupação na escola que frequentava no Ensino Médio, em 2015. Ela matriculou-se no Cursinho Popular Carolina de Jesus e ingressou na Faculdade em 2018. Ainda no cursinho, conheceu a Escola de Notícias, no Campo Limpo (distrito da Zona Sul paulistana),  e, em 2019, chegou ao GOYN, onde atua hoje como assistente de projetos no Núcleo Jovem.

Estela Reis, graduanda em Direito, na Faculdade Anhanguera (São Paulo). Crédito: arquivo pessoal.

O Goyn é uma aliança de ações articuladas pela United Way Brasil, que visa promover a inclusão produtiva de jovens na cidade de São Paulo. Estela continua estagiando e, embora afirme ter perspectivas para o futuro, destaca a contradição: muitas empresas se dizem inclusivas, ao mesmo tempo que têm imensas dificuldades em dar oportunidades aos jovens – sobretudo, jovens negros e oriundos das periferias das cidades. “No núcleo, discutimos sobre questões acerca do preconceito estrutural na sociedade. Os jovens têm muita dificuldade, não só de chegar ao mercado de trabalho ou à faculdade, mas também de obter informações sobre essas oportunidades”, salienta.

           

Potência
Os jovens-potência são aqueles, entre 15 e 29 anos, que estão em situação de vulnerabilidade social e sem oportunidade de formação acadêmica e/ou emprego formal. Estima-se que somente na cidade de São Paulo sejam 765.525 nesta situação, sendo que destes cerca de 20% são responsáveis pelo sustento de suas famílias. Os dados foram publicados pelo Atlas das Juventudes, uma parceria entre a United Way Brasil e a Accenture para o GOYN São Paulo, entre maio e agosto de 2020, e apresenta o cenário atual do ecossistema dos jovens-potência na cidade.

Gabriella Bighetti, diretora executiva da United Way Brasil. Crédito: Ethos360.

Gabriella Bighetti é diretora executiva da United Way Brasil, associação sem fins lucrativos que, por meio do voluntariado e de ações de cidadania, potencializa o impacto de intervenções sociais para transformar a realidade de indivíduos e comunidades em situação vulnerável ao redor do mundo.  “Não é possível gerar oportunidade para os jovens em situação de vulnerabilidade na cidade de São Paulo sem saber quem eles são”, destaca. 

 

 

Desde agosto de 2020, a United Way Brasil realiza um mapeamento dos Jovens-Potência na cidade de São Paulo e, segundo a diretora executiva, o objetivo do projeto é conhecer quem são os jovens-potência, quantos são, onde estão e quais organizações fazem parte deste ecossistema, além de conhecer as atuais iniciativas e obter outras informações relevantes para o setor de inclusão produtiva.

“Queremos basear todas as ações em fatos e dados. Por isso, fomos buscar literatura sobre o tema, fizemos uma varredura sobre tudo o que se sabe acerca dos jovens na cidade de São Paulo e fomos às fontes colher as informações que faltavam e que eram essenciais para desenvolvimento de ações efetivas”, explicou. Os dados coletados a partir do mapeamento apontaram quatro desafios iniciais: a evasão escolar, o racismo estrutural, a lacuna digital e a crise laboral. Ao ser lançado, o estudo baseou ações de mais de 70 organizações que trabalham com juventude e também os órgãos públicos.

“Pretendemos influenciar todos os que trabalham com a juventude e já conseguimos desenhar alguns protótipos que, a partir deste ano, começaram a ser discutidos. Durante o processo, muitos workshops e mesas de trabalho por temas estão sendo realizados para que, a partir dos protótipos, possamos partir para ações efetivas”, comenta Gabriela.

A diretora executiva ainda explicou que a escolha da terminologia jovens-potência surgiu a partir desses movimentos e que os  jovens mostraram-se muito incomodados com o termo “nem-nem”. “Queremos destacar, nestes jovens, competências sócio-emocionais muito valorizadas, como automotivação, insistência, persistência e resiliência. Queremos vê-los pelo que eles têm de força”, afirmou. 

 

Movimento
A necessidade de incluir jovens entre 15 e 24 anos na educação ou no mercado de trabalho é uma demanda que interessa não somente aos próprios jovens, mas pode também evitar prejuízos de até 1,5% no PIB. É o que aponta os dados do Atlas da Juventude, que traçou um panorama sobre a situação dos jovens no Brasil.

Mariana Resegue, secretária executiva do Em Movimento. Crédito: LinkedIn.

Mariana Resegue, secretária executiva do Em Movimento, aliança de organizações que atua no suporte às juventudes, afirma que, apesar desse público ser diverso ao redor do Brasil,  nem sempre são contempladas todas as nuances que compõem esta realidade. “No Em Movimento, assim como nos demais projetos que coordeno, não chamamos os jovens de nem-nem, mas de sem-sem, porque estes jovens não acessam a escola ou o trabalho porque não tiveram oportunidade”, explica.

 

Sobre a realidade destes jovens, Mariana destaca que “Não há disponibilidade da internet que seja compatível com a atividade escolar, ou para dedicar-se à procura de vagas, ou, ainda,  existe a falta de tempo, pois eles estão se dedicando a trabalhos preconizados para garantir o sustento da família ou seu próprio sustento”.

A respeito da crise econômica laboral, a secretária executiva salientou a desconexão entre a formação dos jovens, a restrição das vagas no mercado de trabalho e o racismo estrutural. “É muito importante pensar que precisamos de diferentes Políticas Públicas para diferentes juventudes. São cerca de 50 milhões de pessoas que têm de 15 a 29 anos no Brasil. São pessoas com diferentes perfis e precisamos garantir que, tanto o setor privado quanto o público, pensem programas direcionados a esse público, para que tenhamos mais chance de incluir esses jovens”.

 

Oportunidade
A situação dos jovens agravou-se durante a pandemia, que intensificou a crise estrutural do mundo do trabalho e criou um desafio gigantesco para a inserção no mercado de trabalho. De acordo com a pesquisa Pesquisa Juventudes e a Pandemia do Coronavírus, do Conselho Nacional da Juventude (CONJUVE), em junho de 2020, 33% dos jovens tiveram diminuição da renda pessoal. Dentre aqueles cuja renda continuou igual (52%), 1 em cada 4 já não estava trabalhando e nem procurando trabalho antes, portanto, seguem na mesma situação vulnerável anterior à pandemia.

Gabriel Medina, ex-Secretário Nacional da Juventude. Crédito: LinkedIn

“Os comércios e serviços foram muito abalados durante a pandemia e, com o setor de vendas on-line aquecido, muitos jovens começaram a trabalhar com entregas, ficando ainda mais expostos ao vírus. Contudo, existe uma ilusão em torno do empreendedorismo, quer dizer, para empreender é preciso ter apoio e formação e nem todos os jovens têm essa oportunidade”, analisa Gabriel Medina, ex-Secretário Nacional da Juventude (SNJ), entre 2015 e 2016, e coordenador de Políticas da Juventude da Prefeitura de São Paulo na gestão de Fernando Haddad (PT).


Gabriel destaca o efeito em cadeia, ou seja, se profissionalmente há uma precarização das oportunidades de trabalho, há também desalento em relação à educação. “No Brasil, houve expansão, sobretudo no Ensino Técnico e Médio. Mas, muitos jovens com formação em Ensino Superior, começaram a se frustrar pela falta de oportunidades profissionais – embora o acesso à educação tenha ficado mais fácil, o mesmo não aconteceu com o mercado de trabalho”, disse.

É possível verificar os dados que comprovam a expansão no que se refere à educação, entre os anos 2000 e 2015. Os números começaram a cair em 2016. O próprio portal do Ministério da Educação aponta esse retrocesso. De acordo com o relatório intitulado “Educação para todos no Brasil”, publicado em 2014, “Os dados indicam uma expansão intensa de sua oferta nos últimos anos motivada, sobretudo, por políticas e investimentos federais com foco no oferecimento de maiores oportunidades educacionais aos jovens em idade escolar adequada ao Ensino Médio. Isto foi feito por meio da educação profissional integrada ao Ensino Médio”. 

A barreira posta no mundo do trabalho fez com que os jovens se inserissem, cada vez mais, em vagas de trabalho precárias. Com a pandemia,  a paralisação das escolas e o crescimento do desemprego, muitos jovens acabaram não conseguindo dar continuidade aos estudos. A pesquisa encomendada pelo banco digital C6 Bank, realizada pelo Instituto Datafolha, aponta que cerca de 4 milhões de estudantes brasileiros, com idade entre 6 e 34 anos, abandonaram os estudos em 2020, o que representa uma taxa de 8,4% de evasão escolar. 

A realidade foi confirmada por um relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que aponta que mais de 172 mil alunos, entre 6 e 17 anos, abandonaram ou deixaram de frequentar a escola do Brasil. Ou seja, o número subiu cerca de 12% no período.

Gabriel ainda observa que existe muita dificuldade para a educação pública desenvolver, de forma efetiva, o ensino remoto e, que essas dificuldades, resultaram em evasão escolar: “É muito difícil recuperar jovens que não têm contato com a escola e com a escassez de oportunidades. Cria-se um cenário de desalento e de falta de perspectiva em relação ao futuro”.

É o que aponta o estudo “Perda de Aprendizagem na Pandemia”, desenvolvido pelo Insper e o Instituto Unibanco: estima-se que, no ensino remoto, os estudantes aprendem, em média, apenas 17% do conteúdo de Matemática e 38% do de Língua Portuguesa, em comparação com o que ocorreria nas aulas presenciais. 

Contudo, Gabriel apontou perspectivas que podem resultar em resultados positivos para a juventude, como parcerias entre os setores público e privado. Há iniciativas neste sentido, como o apoio da da Organização Internacional do Trabalho à criação de uma Agenda Nacional de Trabalho Decente para a Juventude  e o programa Um Milhão de Oportunidades, da Unicef. Ainda segundo o ex-Secretário Nacional da Juventude, há ações que deveriam ser implementadas, como a ampliação do Programa Jovem Aprendiz que hoje conta com apenas 8% de jovens inseridos, enquanto poderia chegar a pelo menos 15%, a conversa pública com empresas como Uber e Ifood, que empregam muitos jovens, as leis de incentivo para cultura e, neste momento de pandemia, a manutenção de uma renda básica.

 

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As caravelas do mercado contra as ilhas verdes

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Crédito: Equipe de arte Aupa

A economia sempre fez o mundo girar e foi assim também com o pau-brasil. A madeira vermelha fez a Ilha de Santa Cruz aparecer no mapa econômico há mais de 500 anos. A descoberta marítima da terra de Pindorama dos indígenas fez a Terra de Santa Cruz dos portugueses entrar na rota da economia global e o resto da história já conhecemos. De Terra de Santa Cruz para o Brasil de hoje, o ciclo do crescimento seguiu de vento em polpa e o país viu nascer e crescer a cultura do café, do algodão e da borracha, com as moedas indo para o bolso dos poderosos de sempre, tanto na metrópole, quanto na colônia. Ambas se desenvolviam às custas da natureza e em prol da globalização sem fronteiras, enquanto o meio ambiente funcionava como um motor à serviço da economia. Um modelo de negócio bem sucedido com investimento e ótimo retorno capaz de gerar crescimento a partir do comércio de produtos e de pessoas. Do extrativismo, passando pela escravidão, até chegar ao agronegócio de hoje, a lógica de exploração econômica do meio ambiente no país e no mundo segue o rumo e ganha, a cada dia, mais relevância e escala. 

O mercantilismo do século XV se transformou no capitalismo financeiro do século XXI, e o verde invadiu as bolsas de valores com o pseudônimo de ESG. A preocupação com o fim do mundo persiste em nossas mentes, mas como a economia não pode parar, o neoliberalismo carimbou a pauta ambiental e rotulou os negócios sustentáveis com o fetiche da lógica “crise e oportunidade”. O resultado: hoje, além de um produto, o meio ambiente se tornou também uma ideia e um desejo. Um paradoxo capaz de salvar ou destruir o planeta e seus habitantes. 

Baseado nos discursos de Kennedy, o termo “crise e oportunidade” é exaustivamente repetido pelos mais engajados. Crédito: Equipe de arte Aupa.

Mas nem sempre foi assim. A ideia econômica de que os indígenas, que dominavam o Brasil antes da exploração do pau-brasil, tinham era bem diferente da visão do “homo sapiens globalizado” das caravelas. Os povos originais são conservadores de florestas e também de ideias sobre terra, homem e crescimento: “Nascemos no centro da ecologia e lá crescemos”, diz o xamã Yanomani Davi Kopenawa (2015). As ideias do líder político e escritor permanecem iguais às de seus antepassados. O xamã segue compreendendo a relação de simbiose entre os seres vivos e o meio ambiente e convive com a natureza sem usar a floresta como motor. O pensamento filosófico é baseado no “bem viver” e, portanto, reflete o estilo de vida e da economia dos Yanomani. É uma lógica contrária do mundo civilizado, que busca o crescimento e o desenvolvimento e coloca a natureza a serviço da economia. Um conhecimento que reflete uma compreensão simples e que até poderia ser a solução para a crise climática, não fosse uma razão: os indígenas não têm voz na governança global ambiental. Na verdade, são exterminados por ainda terem essa visão tradicional. E, como a ideologia econômica muda o mundo, e o capitalismo orienta nosso modo e estilo de viver, seguimos sem soluções para essa era de crise e oportunidade climática. 

Contudo, nem tudo são trevas. A civilização do velho continente também gera conhecimento. Com certo descompasso e desconexão das questões ambientais, a ideologia ocidental, por fim, parece ter compreendido os limites do planeta. Através da ciência e, após muita pressão política de ambientalistas e cientistas, a narrativa ganhou destaque impulsionada por conferências sobre o meio ambiente e desenvolvimento e insistentes relatórios do IPCC. O bode do CO2 entrou na sala. O pensamento ecológico se aproximou da filosofia indígena, mas era tarde demais. O mundo globalizado criado na era do antropoceno é mais complexo e exige novas soluções e rearranjos. Os problemas ambientais seguem ordens planetárias e devem ter soluções de governança planetária, uma concertação global que reconheça que a natureza não percebe limites físicos políticos dos Estados. Essa percepção da finitude de recursos já tinha precedentes e teóricos desde o século passado, mas o movimento ganhou relevância a partir da primeira conferência da ONU realizada em Estocolmo em 1972. Reconhecemos que tínhamos um grande desafio. 

15 de setembro de 1971, Sede das Nações Unidas, Nova York. Maurice F. Strong, secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente Humano (à direita), mostra ao secretário-geral das Nações Unidas, U Thant, um desenho para o cartaz oficial da Conferência. À esquerda está Keith Johnson (Jamaica), presidente da Comissão Preparatória da Conferência. Crédito da foto: ONU/Teddy Chen.

O crescimento econômico, como gerador de custos sociais e ambientais não mensurados, entrou na pauta e abriu caminho a embates para descobrir os culpados. Países ricos e pobres entraram em disputa, enquanto a temperatura subia e os limites das fronteiras planetárias (Tockström, 2009) eram transpassados por todos. Os que destruíram antes diziam que não sabiam e os que queriam crescer diziam que precisavam destruir. As tentativas de se implementar uma governança global sobre a gestão ambiental do planeta seguiram estimuladas pela ONU e conceitos como “desenvolvimento sustentável” surgiram para inserir soluções centradas na ecologia e incluir as dimensões econômicas, sociais e culturais no contexto do problema. Evoluções conceituais e algumas e novas práticas resultam no relatório Brundtland de 1987, que coloca a dimensão ética no jogo: “O desenvolvimento sustentável é aquele capaz de satisfazer as necessidades atuais sem sacrificar o futuro”. 

Após 20 anos de Estocolmo, veio a Rio-92, que finalizou um ciclo com avanços e tropeços. O Protocolo de Kyoto (1997) e o Acordo de Paris (2015) foram outros marcos importantes na tentativa de estabelecer uma governança global que pudesse conter o aumento de temperatura global abaixo dos 2º. O acordo de Paris construiu o consenso entre as partes e formulou uma frase estimuladora: “Um equilíbrio entre as emissões causadas pela atividade humana e a remoção de gases de efeito estufa na segunda metade deste século, com base na equidade, no contexto de desenvolvimento sustentável e nos esforços para erradicar a pobreza”. Mas, no final, permaneceu a sensação da “desgovernança mundial da sustentabilidade” (Veiga, 2013) e a impotência do regime que apostou nas “responsabilidades comuns, porém diferenciadas” e nas “abordagens baseadas no mercado”. A sensação foi como uma vitória de Pirro.

O Acordo de Paris foi firmado por 196 países em prol da diminuição na temperatura global. Crédito: ONU.

A crítica vem também de quem faz gestão de milhões de reais em empresas de impacto socioambiental, como disse Daniel Izzo, da Vox Capital: “O Brasil precisa sair urgentemente dessa lógica de compensação, porque a natureza não se regenera na velocidade do crescimento dos lucros.”. Mas Denise Hills, diretora de Sustentabilidade da Natura, não pensa assim: “A compensação do  CO2 de uma empresa de moda, por exemplo, reverte em benefícios para a Amazônia”, diz ela, referindo-se aos créditos de carbono comprados de projetos de proteção ou restauração florestal. Ideias difíceis de entender tanto quanto de concretizar. Por hora, a discussão segue, enquanto os termômetros seguem subindo e o problema permanece: a tal da economia humana em busca da cifra e da equação perfeita de como resolver a economia da natureza.   

Novamente, ideias simples parecem conter respostas condizentes com o problema. O sociólogo Ricardo Abramovay traz uma análise a partir da publicação do último relatório do IPCC, em agosto de 2021. O também professor traz um conceito que dialoga com o líder indígena Kopenawa e busca trazer uma realidade humana à percepção econômica dos lobos de Wall Street. “A luta contra a crise climática tem que estar no cerne da gestão econômica pública e privada. Uma vida econômica que regenere os tecidos sociais, e naturais que até aqui tem acompanhado sistematicamente nossa oferta de bens e serviços (Abramovay, 2021). Tão simples como certeiro. Não há mágica na resolução da crise climática pela economia que não reconsidere a mudança do nosso modo de ser como humanos no planeta. ESG é uma sigla e uma carta de boas intenções de investidores e somente isso no caminho rumo a um lugar cheio de labaredas queimando. “A solução passa por uma economia que mimetize as relações biológicas da natureza e não que tente colocar cifras para crescer.” A natureza se regenera e se transforma. Cabe aos humanos compreender. Simples como investir em agroflorestas de café na Amazônia. Uma escolha econômica e ética melhor do que soja, pecuária e madeira. As mudanças na forma de viver buscam um caráter civilizatório na verdadeira força da palavra. Que promova uma justiça ambiental e uma democracia real e repense o crescimento econômico mais alinhado a Francisco do que a Adam. Onde a bioeconomia seja expandida e o agronegócio apenas se mantenha e dentro dos limites da floresta em pé. Onde a segurança alimentar e a energia renovável sejam o comum e não o alternativo. E um planeta com mais diversidade biológica capaz de segurar o clima e impedir devastações de espécies.  

Um futuro diferente para clima, florestas e agricultura

A resposta não está pronta. A caravela da solução ambiental está navegando e a resposta ainda está aberta. Ter uma visão crítica e colaborar para buscar soluções não virá de um só agente, mas, sim, da concertação entre agentes públicos, privados e sociedade civil. O desafio do clima é o desafio que poderá juntar todos. O paradoxo exposto no início do artigo se apresenta como o elixir verde e a kriptonita capaz de confundir humanos e enfraquecer seu poder de ação para solucionar a crise climática. A economia de mercado em busca do crescimento cego não é a solução e sim a causa do problema. É preciso diminuir o fetiche e o desejo do verde. O mercado de carbono foi e é o jeito do mercado e não o jeito humano de tratar com a crise climática. Se o meio ambiente figurar apenas como pauta alarmista, negacionista ou ainda dentro de uma lógica onde é preciso investir, crescer e potencializar o mercado sustentável, poderemos ter um destino incerto mais rápido pensando que estamos fazendo o certo. É preciso a inflexão do rio. Menos caravelas do mercado financeiro invadindo as praias habitadas por humanos. Que permaneçam as ilhas virgens no oceano sem plásticos em comunhão com os “homo sapiens conscientes”. Com menos cooptação e menos economês travestido de letras e mais economia real da economia solidária. A solução será pela economia circular, assim como a natureza – ou não será. As cifras de ativos de gestores da BlackRock em salas frias não fazem parte da solução do clima. A falácia é grande, mas a solução é simples. O capitalismo é inerente ao crescimento e aos mecanismos econômicos que perpetuam a dependência e os privilégios dos países ricos sobre os pobres (Altvater, 1992). Não precisamos salvar a economia, girar o capitalismo, o crescimento, nem o sistema. Precisamos salvar a nós mesmos e ao planeta.

Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa. 

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