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Mariano Cenamo: “Não há como imaginar a conservação da Floresta Amazônica, em longo prazo, sem uma nova economia, que possa substituir a de desmatamento”

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Os superlativos cercam a Amazônia, quando nela pensamos. Magnífica, a região é berço do maior bioma do país e a mais importante floresta tropical do mundo. Mas o Patrimônio da Humanidade também guarda em si algumas das mais tristes contradições, já que o maior estado brasileiro e o de maior concentração de matas é também um dos três estados que mais desmatam.

Vale destacar que, em Manaus, nove em cada 10 habitantes sofrem com a falta de esgoto, embora a cidade esteja está localizada na confluência dos rios Negro e Solimões — alma da Bacia Amazônica.

Em 2020, segundo o Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), escancarou-se a maior taxa de desmatamento dos últimos 12 anos — uma área equivalente a sete vezes o tamanho da cidade de São Paulo. E os últimos relatórios do Inpe e do Imazon indicam que este será um ano de alto desmatamento novamente.

Nesse cenário repleto de contradições, a Amaz foi fundada – mais precisamente em 2021. Trata-se de uma aceleradora da região amazônica, que carrega a vocação de projetar um futuro de perspectivas otimistas e renovadoras. Seu primeiro passo foi abrir uma chamada para selecionar negócios — encerrada em 14 de junho, com 156 candidatos — que gerem soluções para os principais problemas sociais e ambientais da Amazônia. Os candidatos concorrerão a aceleração e investimentos de até R$600 mil.

No radar da chamada estão negócios sustentáveis nas áreas de alimentação, extrativismo, agricultura e pecuária sustentável, turismo sustentável, artesanato, moda, cosmética, transporte, logística, geração de energia para áreas rurais, além de outras áreas de atuação.

A Amaz é fruto do Programa de Aceleração e Investimento de Impacto, da Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA), que atua desde 2018. É a evolução natural do programa, nas palavras de Mariano Cenamo, CEO da Amaz e diretor de Novos Negócios do Idesam.

“Um dos grandes aprendizados que tivemos, a partir do programa de aceleração, foi que era necessária uma estrutura de investimento, apoio, gestão e acompanhamento dos negócios, mais em longo prazo”, avalia.

Cenamo divide o seu olhar sobre as questões mais urgentes da Amazônia e também como acredita que a inovação e as parcerias no Terceiro Setor podem transformar aquela realidade. Acompanhe a conversa, a seguir.

AUPA –  O que mudou na experiência do programa de aceleração anterior para a Amaz?
Mariano Cenamo – Por dois anos, lideramos duas chamadas, recebemos e avaliamos cerca de 280 propostas de negócios. Selecionamos 30 – sendo 15 no ciclo de 2019 e outras 15 no de 2020 – para participar do programa de aceleração. No primeiro ciclo, investimos em quatro e, no segundo ciclo, em oito. Então, de 30 empreendimentos, investimos em 12, resultando na distribuição de mais de R$5 milhões.

Se antes operávamos um programa de duração anual, financiado basicamente por recursos filantrópicos, agora ficou evidente que precisávamos montar uma estrutura que permitisse acompanhar o negócio em um prazo maior. Daí veio a motivação de estruturar uma aceleradora.

O modelo de funcionamento por trás dela garantirá termos duas fases. Na primeira, serão cinco anos de operação do primeiro fundo de investimento da Amaz. Em cinco chamadas, poderemos selecionar, investir e acelerar seis startups – ou seja, 30 negócios no total.

A partir do quinto ano, começaremos a fase de gestão, acompanhamento e “desinvestimento”. As que entrarem no primeiro ano, já recebem aporte financeiro, todo o nosso pacote de aceleração e passarão a ser acompanhadas. Mas, a partir do fim do primeiro ano, já as preparamos para atrair investidores para entrar em etapas posteriores. Por isso, o nome desinvestimento.

Esse ciclo dura cinco anos. A partir de 2025, não vamos mais investir em nenhuma startup com esse fundo. Apenas prepararemos os negócios para acessar fundos de investimento maiores, para, então, trabalharmos a nossa saída desses negócios.

Há ainda, atrelado à Amaz, um fundo de financiamento híbrido no valor de R$25 milhões, onde metade dos investimentos é filantrópica e a outra metade é constituída por recursos de investidores privados. Os apoios que oferecemos aos negócios vão desde indiretos, como bolsas e monitorias, até diretos, colocando dinheiro no caixa da empresa, que é de onde vem, principalmente, o investimento privado da Amaz.

AUPA – Qual é a importância dos negócios de impacto para a região?
Mariano Cenamo – É preciso destacar que a economia da região vai mal, muito mal. O estado do Amazonas tem na base de sua economia a Zona Franca de Manaus. Seu circuito industrial se encontra em uma crise latente, com a redução do consumo de bens duráveis. Isso se reflete um pouco na tendência de desmatamento pela qual estamos passando. E o desmatamento na Amazônia nunca esteve tão alto.

Portanto, os negócios de impacto têm importância vital. Não há como imaginar a conservação da Floresta Amazônica, em longo prazo, sem uma nova economia, que possa substituir a de desmatamento. Para construir essa nova economia, precisamos de empreendedores e empresas. E essas empresas, hoje, não existem na região. 

Com exceção de pouquíssimos negócios, projetos-piloto e pequenas empresas, não temos, hoje, uma grande referência empresarial que gere renda, empregos e prosperidade a partir da conservação e do uso sustentável das florestas da região.

O foco da Amaz é trabalhar na Amazônia rural e florestal. Estamos buscando negócios que realmente possam gerar uma transformação na economia regional. Não vejo outro caminho. É claro que não existe bala de prata; é uma solução de médio e longo prazos, fundamental.

AUPA – Quais são os planos da aceleradora para os próximos anos e quais tipos de negócios serão beneficiados?
Mariano Cenamo – Até 2025, a meta é investir e acelerar 30 startups. Com elas, esperamos conservar uma área de 5 milhões de hectares de floresta, gerar renda para 10 mil famílias de comunidades tradicionais, agricultores e povos indígenas, que, por sua vez, geram renda a partir da conservação da floresta.

Esperamos alavancar mais de R$50 milhões em investimentos – de modo que investidores possam se aproximar da Amaz dentro dos próximos dez anos.

A lógica da Amaz é investir e preparar os negócios para captar investimentos maiores. Vamos investir entre R$200 mil e R$600 mil por negócio, no máximo, com a proposta de prepará-los para uma captação de investimento maior, em torno de R$1 milhão ou R$3 milhões de fundos de investimento de venture capital.

AUPA – Vocês têm metas para acelerar negócios liderados por indígenas, populações ribeirinhas, por exemplo? 
Mariano Cenamo – Sim. É uma das nossas grandes metas e esperamos encontrar tais negócios. O que acontece é que o ecossistema de negócios de impacto nessa região ainda não está totalmente estruturado. Não há abundância de negócios de impacto voltados à economia rural ou florestal. Então, nem sempre é fácil encontrar esses negócios. 

Por isso a importância de um trabalho ativo de prospecção de pipeline, assim como, o trabalho de outras organizações que atuam no fortalecimento e para despertar o olhar empreendedor nessas comunidades, como o ICV, o Instituto Conexsus, o próprio Idesam, a Fundação Amazônia Sustentável, e tantas outras organizações que atuam na base das cadeias de valor da floresta.

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Negócios e investimentos de impacto e a ingenuidade de não se falar em direitos

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Desde que comecei a pesquisar sobre negócios e investimentos de impacto, me deparo com a definição de que eles têm como objetivo, além de gerar lucro, contribuir para a solução de problemas socioambientais. E tenho visto atores do campo elencarem problemas, como a pobreza ou até as desigualdades sociais, enquanto desafios a serem resolvidos pelos negócios de impacto.

Quando vejo essas promessas, fico me perguntando onde foi parar o Estado como promotor de Políticas Públicas que buscam solucionar justamente esses problemas. Não estou dizendo que os negócios e investimentos de impacto não possam contribuir, mas sem uma visão crítica sobre o papel do Estado, qualquer ação com esse objetivo se torna, no mínimo, ingênua.

No âmbito da erradicação da pobreza, a principal ação estatal desenvolvida foi o Programa Bolsa Família. Criado em 2003, a partir da unificação de programas de transferências de renda já existentes, o programa é responsável por garantir que famílias pobres e extremamente pobres tenham um mínimo de dignidade. Contudo, desde 2013 o número de famílias incluídas no Programa Bolsa Família permanece estável, sendo que, desde 2015, já estava sendo identificado aumento do número das famílias pobres.

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Com a pandemia, esse descompasso entre o aumento da pobreza e a diminuição do acesso a Políticas Públicas se tornou gritante. As dificuldades de operacionalização do Auxílio Emergencial expuseram o grande número de pessoas que ficaram vulneráveis em função da pandemia, mas, certamente, teria sido menor se as políticas voltadas à população pobre estivessem acompanhando o crescimento da pobreza.

Mesmo o Auxílio Emergencial teve seu valor diminuído, justificado por um discurso de responsabilidade fiscal, passando a ser cada vez menos capaz de atender as necessidades mais básicas da população que dele precisa. Em virtude disso, atualmente, mais da metade da população encontra-se em alguma situação de insegurança alimentar.

Nas sociedades atuais, a única instituição capaz de universalizar acesso a serviços que garantem direitos é o Estado. Por mais escalável que seja o negócio de impacto, dificilmente um serviço ofertado por uma empresa com fins lucrativos poderá atender às pessoas sem restrições, como é dever do Estado no que se refere às políticas que garantem direitos universais.

Voltando aos negócios e investimento de impacto, um dos principais desafios desse tipo de iniciativa é identificar a causa do problema que se quer resolver. Entre as causas da pobreza, por exemplo, certamente está a falta de oportunidades para as pessoas vulneráveis. Mas é causa desse problema também a falta de garantia dos direitos mais básicos. Por isso, microcrédito produtivo, inserção de pessoas vulneráveis no mercado de trabalho, entre outras ações, podem, sim, contribuir para a solução desse problema. Mas elas precisam vir juntas com a reivindicação por direitos: direito à alimentação, direito aos meios mais básicos de sobrevivência para não ficar à mercê de iniciativas benevolentes que podem acabar a qualquer momento.

Sim, os negócios e investimentos de impacto são importantes. Tem o potencial de fornecer as oportunidades que o mercado tradicional não está disposto a oferecer. Podem resolver problemas que impactam o acesso a bens e serviços por diferentes públicos. Mas eles não podem se pretender substituir direitos.

Sem um discurso crítico sobre as causas dos problemas sociais para os quais os negócios e investimento de impacto pretendem contribuir e sobre qual o papel do Estado e do mercado no desenvolvimento de soluções, corre-se o risco de propor ações voluntaristas e com pouca efetividade.

Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete, necessariamente, a opinião de Aupa.

Uma nova realidade para os pequenos produtores

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No segundo episódio da série “O que não te contaram sobre impacto?”, do AupaCast, Fábio Deboni dialoga com Priscilla Veras, CEO da Muda Meu Mundo.

Mãe, empreendedora e professora, Priscilla sempre cultivou um sonho. “Queria fazer as pessoas saírem da pobreza. Entendia que a Educação era o principal caminho para realizá-lo”, conta. Esse desejo a levou a escolher Pedagogia na graduação, decisão vista como “revolucionária” pelo seu histórico familiar formado por médicos e advogados. A partir da sua trajetória profissional dentro do Terceiro Setor, conheceu o ecossistema de negócios de impacto e, anos depois, largou o trabalho formal para começar a empreender.

O negócio
Localizada em Fortaleza, Ceará, a Muda Meu Mundo conecta o pequeno produtor com o varejo, por intermédio de inteligência de dados, para construir um supply chain (cadeia de mantimentos) sustentável do campo até a cidade. De maneira simples, Priscilla traz outra explicação: “O que queremos é mudar a realidade dos pequenos produtores, que não conseguem vender seus produtos e receber o (valor) justo por essas mercadorias”.

O negócio de impacto atua como ponte entre o agricultor familiar e os supermercados. “Desenvolvemos algumas ferramentas que vão da formação do produtor, para ele entender como trabalhar de forma sustentável e com a qualidade que o varejo precisa, passando pela regularização da cadeia, em termos de precificação, de modo que ninguém será injustiçado nessa relação, até a venda direta desse produtor para o supermercado”, explica. Todo o processo gera informações e análises de ESG (Environmental, Social and Corporate Governance – ou ambiental, social e governança, em português) que são utilizados pelo varejo.

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O desafio e as soluções
A solução da startup propõe outra lógica ao varejo, que, por conta dos atravessadores, incentiva explorações e remunerações injustas aos pequenos produtores e também a paralisação de suas produções. “Ao ir no mercado e ver os preços altos de tomate, cebola ou batata, saiba que o produtor daquele alimento está ganhando uma porcentagem baixa por aquele preço”, ressalta Priscilla.

A prática é global, o que aumenta o tamanho da questão. “O varejo não consegue se conectar com o pequeno produtor, porque ele vive nas mãos dos atravessadores. Como o próprio produtor não chega até o varejo, porque está nas mãos deles também”, observa. Oferecendo aos produtores locais uma logística estruturada, obstáculo identificado pelo negócio, a conexão entre as duas pontas se torna mais direta. 

Por outro lado, Priscilla comenta que a linha tênue entre o social e a empresa é um desafio constante para os negócios de impacto: “É muito difícil (dentro deste tipo de negócio) encontrar um modelo que consiga ser lucrativo, parar de pé, mas, ao mesmo tempo, gerar impacto. Não pode ser um ou outro, tem que ser os dois acontecendo juntos”. Com a definição mais clara da sua solução e as expertises acumuladas nesse processo, a Muda Meu Mundo já estrutura seus próximos passos, a expansão para São Paulo, capital paulista, nos próximos meses. O objetivo é crescer, aos poucos, para além do país.

Confira o episódio completo.


Serviço
Nome do empreendedor: Priscilla Veras.
Negócio: Muda Meu Mundo.
O que (o negócio) faz: conexão entre agricultores familiares e varejistas, por intermédio de inteligência de dados.
De onde é: Fortaleza, Ceará.
Quando começou: 2017.
Principal tema da conversa: como encontrar seu modelo de negócio de impacto?
Soluções buscadas: conhecer, adaptar e aprimorar seu modelo de negócio à medida que define sua solução de impacto.

André Lima: “Estamos retrocedendo em relação a 30 anos de construção de políticas ambientais. Isso torna mais desafiador a implementação de uma reforma tributária que olhe para a frente”

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A política ambiental brasileira tem enfrentado diversos retrocessos e os números atestam o cenário crítico. Em 2020, o desmatamento teve um aumento de 9,5% em comparação ao ano anterior, segundo o Prodes-Inpe. Dados da plataforma Terra Brasilis apontam que, em maio, os alertas de desmatamento alcançaram a marca de 1.180 km², um aumento de 41% em relação ao mesmo mês de 2020, e a maior área de alertas desde o início da série do sistema Deter-B, do Inpe, em 2016.

Na esfera governamental, o recente exonerado ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já defendeu, em reunião ministerial em abril de 2020, “passar a boiada” e simplificar regras ambientais, uma vez que a mídia está com atenção voltada à pandemia causada pela Covid-19. Alinhado ao ministro, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é conhecido por se posicionar contra o avanço da demarcação de terras indígenas e a favor da liberação do garimpo nesses territórios, o que, atualmente, é proibido pela Constituição. Esses posicionamentos também se traduzem no Congresso Nacional, que se debruça para colocar em pauta projetos de leis que flexibilizam regras ambientais, como o PL 3729/04. Esse Projeto de Lei, que teve o texto-base aprovado pela Câmara dos Deputados, afrouxa o licenciamento ambiental, dispensando o documento para diversas atividades que impactam negativamente o meio ambiente.

Na contramão desses retrocessos, alguns movimentos surgem para incentivar políticas de uma economia verde em meio ao cenário adverso. O movimento #EstáFaltandoVerde, que prevê uma Reforma Tributária Sustentável, é um deles. Em nove propostas, as organizações participantes defendem um sistema tributário com regras simples e viáveis, socialmente justo e que permita transitar para uma economia de baixa emissões de carbono. A campanha é encabeçada por organizações como: Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), Instituto Akatu, Instituto Ethos, Observatório do Clima, Rede Advocacy Colaborativo (RAC), WWF Brasil, Instituto Clima e Sociedade (iCS), CDP, Instituto Escolhas, Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS), Centro Brasil no Clima e ISPN.

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Para falar mais sobre as propostas do movimento #EstáFaltandoVerde e da viabilidade do projeto em meio ao cenário de desmonte ambiental, conversamos com André Lima, advogado, ex-secretário do Meio Ambiente do Distrito Federal e um dos fundadores do IDS. Confira a entrevista completa:

AUPA – Quais as principais motivações para criar o movimento #EstáFaltandoVerde, que busca uma Reforma Tributária Sustentável?
André Lima – O principal motivo é porque a política tributária é um importante instrumento de fomento e incentivo de atividades econômicas. Aumentar ou reduzir tributos podem incentivar ou não determinadas atividades. Estudos que ajudamos a coordenar mostram que o Brasil, durante muitos anos – sobretudo, nas primeiras décadas deste século e na década de 1990 – deu muito incentivo às atividades altamente poluentes e intensivas em emissões de carbono. Inclusive incentivos para atividades como pecuária, consumo de agrotóxico e queima de combustível fóssil. Portanto, durante muito tempo, essas atividades se estabeleceram e se consolidaram com incentivos tributários, além de crédito também facilitado pelo Governo. Então, acreditamos que podemos caminhar por um outro rumo agora, ou seja, desenvolver incentivos para esta nova economia, que também pode gerar emprego, riqueza e prosperidade. Um estudo do WRI (World Research Institute) indica que, até 2030, é possível gerar mais de dois milhões de empregos só com atividades da economia verde e mais de dois trilhões de reais de agregação ao PIB com atividades sustentáveis. Os instrumentos econômicos, dentre eles, os incentivos fiscais e tributários, são importantes. A ideia da campanha é para chamar atenção dos parlamentares sobre a importância deste tema no contexto da reforma tributária.

AUPA – Qual o principal ponto que deve ser mudado na política tributária atual para que ela se torne mais sustentável e alinhada à Política Nacional de Meio Ambiente, de Biodiversidade e de Povos e Populações Tradicionais?
André Lima – São dois eixos centrais. O primeiro é proibir, ou reduzir gradualmente, incentivos tributários para atividades consideradas agressivas ao meio ambiente, como aquelas intensivas em consumo de energia e recursos naturais. Ou seja, vedar novos incentivos e reduzir os atuais para atividades poluentes. O outro eixo, que é muito importante também, é a identificação de novas cadeias produtivas e de atividades econômicas que mereçam incentivo na linha de energias renováveis, biocombustíveis, turismo ecológico e agricultura regenerativa. A ideia é canalizar os incentivos atuais das atividades econômicas predatórias, gradualmente e o mais rápido possível, para atividades consideradas sustentáveis que contribuam para a transição para uma nova economia.

AUPA – Temos um cenário de avanço no desmatamento da Amazônia, diminuição de recursos para políticas ambientais e propostas que afetam terras indígenas – como a permissão de atividades de mineração, que hoje são proibidas, mas acontecem. Todas essas ações pesam contra a implementação da reforma proposta por vocês? 
André Lima – Um ponto é a ilegalidade, o crime que precisa ser combatido com controle, fiscalização, sanções sérias e efetivas. Outro ponto é toda a agenda de incentivos. O que está acontecendo com a Amazônia, em relação ao aumento de desmatamento, e toda a des-política ambiental, só mostra que o Brasil está andando na contramão. Estamos retrocedendo em relação a 30 anos de construção de políticas ambientais. E isso, obviamente, torna mais desafiador a implementação de uma agenda positiva e uma reforma tributária que olhe para a frente. De fato, ela cria um ambiente desfavorável e muito difícil. Até porque, o mesmo Governo que está deixando de fazer a lição de casa – o Governo Federal -, está também deixando de implementar as ações de controle e de fazer investimentos na governança ambiental. Pelo contrário, inclusive, o Governo que está desmontando a governança ambiental é o mesmo que está pilotando a discussão da reforma tributária. Então, não é que uma coisa atrapalha a outra, é que as duas estão sendo conduzidas pelo mesmo Governo, que tem discursos, no mínimo, ambíguos. Se considerarmos os discursos mais recentes do ministro da economia Paulo Guedes, eles são no sentido de que os recursos devem migrar para atividades de tecnologia e sustentabilidade. Mas isso destoa e não é coerente com a prática de governança ambiental deste Governo, que não faz nenhum esforço para conter a predação – pelo contrário, o esforço está no sentido de aprovar legislações mais flexíveis e mais vulneráveis, e que consolidam e premiam crimes ambientais.

Uma vez que o Governo, sequer, faz a lição de casa, será difícil o apoio a uma reforma tributária que realmente olhe para o futuro da economia verde. 

AUPA – Uma das propostas é a criação de um Fundo de Desenvolvimento Regional Sustentável, que fala sobre aumentar a capacidade de investimentos em atividades econômicas sustentáveis nas regiões mais vulneráveis, como na Amazônia e na Caatinga. Como essa proposta pode ajudar na criação e apoio no desenvolvimento de negócios sociais feitos pela população desses locais?
André Lima – A proposta do fundo é canalizar recursos arrecadados do que seria o novo tributo do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) – agora não sabemos mais se será esse caminho -, mas a ideia de um fundo  de desenvolvimento sustentável regional é exatamente para tentar viabilizar o acesso a recursos e investimentos produtivos por comunidades locais para populações mais vulneráveis – como organizações ligadas a povos indígenas, quilombolas e agricultores familiares. É como se fosse um Fundo Amazônia, que embora esteja suspenso  e é muito voltado às ações de governança, a ideia é termos um fundo de desenvolvimento econômico para mobilizar atividades econômicas sustentáveis e verdes de restauração florestal e agroflorestal, cadeia da bioeconomia e da biodiversidade, o campo de turismo ambiental ecológico. Então temos uma série de atividades que geram renda e movimentam a economia. O Poder Público tem condição de reservar uma parte dos recursos arrecadados para investir nessas atividades e seu propósito, no sentido de redução das desigualdades regionais e da justiça social, é captar recursos junto a quem tem condição de pagar tributos e canalizar para aqueles setores e regiões mais carentes de investimento e de infraestrutura. 

AUPA – Outro ponto levantado pela proposta do movimento é que há atividades econômicas intensivas em emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa), como nos setores de energia, agropecuária e transportes, que vêm recebendo isenções e incentivos fiscais há décadas e que continuam contribuindo para o aumento das emissões de carbono. Mudar essa lógica exige toda uma reestruturação do sistema. Como fazer isso?
André Lima – Primeiramente, é necessário vontade política. O básico e essencial é termos um maestro dessa reforma tributária, com esse propósito, que paute essa diretriz. Qual é a diretriz? Migrarmos de um sistema que incentiva atividades econômicas intensivas em queima de carbono, gradualmente e de forma ágil, para um sistema que incentive novas atividades geradoras de emprego e de baixa intensidade de emissões de carbono. Isso é uma decisão política que deve ser feita e a Constituição permite isso. No Art. 170 da Constituição, no inciso que menciona o meio ambiente como princípio da ordem econômica e financeira, é colocado que o Poder Público pode dar tratamento diferenciado a processos produtivos e produtos de acordo com a sua capacidade de impacto ambiental, portanto, isso já está dado, o que precisamos é trazer isso para dentro do sistema tributário. 

AUPA – Das nove propostas do movimento, qual você considera a mais urgente e por que?
André Lima – Bloquear novos incentivos para atividades predatórias, poluentes e intensivas em carbono. Precisamos de um programa para que os incentivos às atividades predatórias acabem. Isso já ajudaria muito as atividades econômicas verdes a se estabelecerem no sistema, porque, hoje, existe uma concorrência desleal. Por exemplo: o extrativismo do açaí paga um ICMS de 12% – às vezes, até mais – e a exportação de boi em pé paga 0 de ICMS, ou ICMS bem baixo. Isso é absolutamente injusto. Com isso, obviamente, que a atividade econômica com a floresta em pé fica menos competitiva em relação à atividade com a floresta derrubada. Quem derruba madeira e produz gado ganha mais dinheiro, pois paga menos impostos. Então, acredito que o mais urgente seja isso. Inclusive, aproveitar a aprovação da PEC Emergencial, pois ela diz que, em seis meses, o Governo deve estabelecer um mecanismo de corte e redução dos incentivos atuais. Portanto, usar critérios de sustentabilidade para redução desses incentivos é o mais urgente. Além disso, tem propostas importantes também, como tributar a queima de combustível fóssil, criar um tributo que pode começar quase insignificante e aos poucos vai aumentando, como também a proposta do IBS Ecológico, ou seja, canalizar recursos para Estados e Municípios, de acordo com a governança ambiental – ela é muito importante, pois aprimora esse aspecto nos municípios. 

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O valor do Cerrado

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Este é o episódio de estreia da série “O que não te contaram sobre impacto?”, produto integrante do AupaCast – selo voltado à produção de podcasts e demais conteúdos sonoros sobre o ecossistema de impacto. Fábio Deboni, colunista e apresentador, conversou com Bárbara Pachêco, fundadora da VerdeNovo Sementes.

Se autointitulando como uma pessoa “pulsante e inquieta”, Bárbara, por intermédio da Biologia – área onde possui Graduação pela Universidade de Brasília e Mestrado pela Universidade Estadual de Montes Claros – iniciou sua jornada em restauração ecológica. “Durante os estudos, fui uma aluna (um tanto) diferente. O que me levou para um lado mais trabalhador, pois, desde o segundo semestre da Graduação, tive uma atuação ampla e variada dentro da agenda socioambiental. Nenhuma delas dentro do ambiente universitário”, comenta. Hoje, ela percebe como essas experiências trouxeram insumos para o que viria a seguir.

O negócio
Bárbara, em um exercício de síntese, faz a apresentação do seu negócio: “Um olhar atento ao Cerrado e às pessoas que nele vivem”. Em termos técnicos, a startup de impacto coleta e comercializa sementes nativas do bioma para a restauração de regiões degradadas e atividades de preservação. Localizada em Brasília (DF), a empresa disponibiliza mais de 150 espécies, entre elas Ipê-verde e Jacarandá. Além de realizar serviços de consultoria também.

“Sempre ouvi que pessoas que vivem em áreas de vegetação nativa são pobres, principalmente no Cerrado, lugar que me acolheu desde o berço. Então, ecoava em mim a pergunta: por que a Dona Maria, que mora no meio do Cerrado, tem que ser pobre ou viver em situação de vulnerabilidade?”, questiona.

O propósito da VerdeNovo é acolher essas pessoas para que vejam o valor do Cerrado e seus biomas. Ter a semente nativa como uma ferramenta para proporcionar melhorias financeiras e, principalmente, sociais na vida dessa população. “Eu que estou na cidade preciso da semente para plantar e a Dona Maria, que tá no Cerrado, precisa da semente para viver. Por que não podemos unir uma ponta à outra? Um levando vida ao outro. Vidas de formas (e contextos) diferentes, mas tudo falando sobre vida”, afirma.

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O desafio e a solução
A precarização do trabalho realizado pelos coletores de sementes é um dos desafios enfrentados pela VerdeNovo. No início do negócio, Bárbara relembra que grandes fazendeiros, em diversos âmbitos, a procuraram com ofertas de sementes. “Como e quem iria coletar essas sementes para eles? Provavelmente, um empregado da fazenda. Mas qual é a qualidade (de vida) dessa pessoa?”, alerta e complementa: “Para a VerdeNovo, essa questão virou um ponto crucial. Nossa preocupação é com quem está do outro lado, senão o nosso impacto passa a não ser genuíno. Seriam apenas números por números”.

Ter um diálogo aberto e próximo desses coletores vulnerabilizados foi a solução encontrada por Bárbara e sua equipe. “Com transparência nas nossas escolhas, conseguimos manter balanceada essa linha tênue entre o social e a empresa. O que reflete diretamente no nosso crescimento”, finaliza.

Confira o episódio completo.

Serviço
Nome da empreendedora: Bárbara Pachêco.
Negócio: VerdeNovo Sementes Nativas.
O que (o negócio) faz: fortalecimento de coletores de sementes nativas.
De onde é: Guará, Distrito Federal.
Quando começou: 2017.
Principal tema da conversa: ter “pés no chão” para desenvolver seu negócio.
Soluções buscadas: transparência nas decisões e foco no público impactado.

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Vivian Rubia: “A pandemia aproximou distâncias e quebrou algumas barreiras territoriais”

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Como ficará o Brasil quando a pandemia acabar? Depois que as ações e os esforços emergenciais cessarem e a poeira abaixar, problemas como desemprego, fome, dificuldades na educação, questões de meio ambiente, entre tantos, saltarão aos olhos. Feridas estruturais abertas a serem tratadas agora e nos próximos anos.

Nessa direção, pensamentos e discussões, projetos em construção e, sobretudo, novas lentes buscam diferentes ângulos para solucionar os desafios. O Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) corre nessa via. É uma organização que atua pelo fortalecimento do campo dos investimentos e negócios de impacto.

“Nossa visão de futuro está ancorada na perspectiva de que o ecossistema de investimentos e negócios de impacto pode gerar soluções inovadoras para superação das principais questões sociais e ambientais do Brasil, contribuir para os ODS [Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas], atrair novos capitais e servir como referência e inspiração para uma economia que coloca impacto no centro de todas as decisões”, resume Vivian Rubia, coordenadora de Programas do ICE.

Com sede em São Paulo, o instituto é responsável por uma agenda importante, com uma equipe enxuta e alguns voluntários. Acompanhe a entrevista com Vivian, a seguir.

AUPA – Não há como pensar a vida sem considerar o cenário da pandemia. Do ponto de vista do ecossistema, quais foram as maiores dificuldades?
Vivian Rubia – O time do ICE Investimentos, que acompanha os empreendedores (que receberam aportes do ICE em 2018 e 2019), teve um acompanhamento próximo para entender a situação de cada negócio e renegociar as condições de empréstimos, como prazos, valores, entre outros.

Todos os demais programas adaptaram suas atividades (incluindo atividades de capacitação) para o formato virtual. Também fizemos inúmeros eventos, como o Fórum de Investimentos e Negócios de Impacto 2020 e também a edição 2021 (prevista para 8 a 10 de junho) 100% virtual.

Não atuamos diretamente com empreendedores, o que não significa que não tivemos nenhuma atuação focada no campo neste período desafiador. Fizemos uma captação de recursos adicionais e mobilizamos cerca de R$635 mil junto a parceiros para a iniciativa Elos de Impacto. Esses recursos foram direcionados para ações emergenciais de intermediários que apoiam empreendedores da base da pirâmide, periferia e de outros grupos vulneráveis, e projetos selecionados pelo Programa de Incubação e Aceleração de Impacto.

Conheça mais detalhes sobre os projetos apoiados pelo ICE. 

AUPA – Como a crise econômica mundial refletiu no fomento dos negócios?
Vivian Rubia – Como organização que apoia o campo de maneira mais ampla, vimos alguns setores que, diante da atual pandemia, obtiveram um crescimento exponencial, como saúde (equipamentos e telemedicina) e educação (acesso remoto). Empresas como a Magnamed, investida pela Vox Capital, que produz ventiladores pulmonares, cresceram 10 vezes em três meses, o que demandou uma grande capacidade de ganho de escala e busca de cooperação.

Saúde é um exemplo de um setor que sempre foi essencial para o país, mas a crise demonstrou a necessidade de investimentos em negócios de impacto com este foco. Não à toa, a Vox acaba de anunciar um fundo de R$100 milhões para investimentos em health techs em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein.

Apesar desse boom visto em alguns setores, não podemos correr o risco de generalizar e achar que este mesmo movimento acontece em todos os setores. Os negócios de impacto da periferia, por exemplo, foram duramente impactados pela crise. Acompanhamos algumas iniciativas neste campo e as necessidades mais urgentes são recursos para pagar recursos humanos e promoção de ações de acesso a mercados.

Não podemos esquecer a imensa desigualdade em nosso país.

Mais de 116 milhões de brasileiros não têm comida suficiente. Diante dessa calamidade, empreendedores pobres, mulheres, negros e oriundos de territórios vulnerabilizados são os mais afetados no curto e médio prazo.

AUPA – No mundo corporativo, o termo “novo normal” já virou jargão. No caso específico do ICE, quais as lições extraídas a partir da pandemia e que devem seguir neste novo normal?
Vivian Rubia – Em meados do fim de 2020, finalizamos a revisão da nossa teoria de mudança que, ancorada nas recomendações da Aliança, elencou algumas alavancas para o trabalho do ICE. Quatro delas são:o protagonismo dos territórios vulnerabilizados; o fortalecimento de ecossistemas locais; a conexão com a agenda ambiental, e a tecnologia para impacto, que tem uma conexão muito profunda com o que vislumbramos neste novo normal.

O nosso novo normal passa necessariamente pela visão de que precisamos reduzir as desigualdades territoriais, raciais e de gênero no ecossistema de impacto, fortalecer ecossistemas regionais, garantir oportunidades para investimentos e empreendimentos na área ambiental, além de ampliar o uso da tecnologia para impacto positivo.

AUPA – Como será o diálogo entre os pares daqui para frente?
Vivian Rubia – A pandemia aproximou distâncias e quebrou algumas barreiras territoriais. Ainda estamos aprendendo a lidar com essa comunicação à distância e tem sido excelente testar novos formatos de interação. Torcemos para que possamos voltar a nos conectar de forma pessoal em breve (quando tivermos vacina para todos), mas não temos dúvida que seremos muito mais seletivos entre as ações que faremos presencialmente e à distância.

AUPA – Qual o propósito da reestruturação do Programa de Incubação e Aceleração de Impacto?
Vivian Rubia – O Programa de Incubação e Aceleração de Impacto passou por uma mudança significativa nesta revisão da teoria de mudança.

Alteramos o nome: agora o programa se chama Elos de Impacto (mesmo nome usado na iniciativa que lançamos em resposta à Covid – mencionada acima). Cremos que nossa função é promover elos para ampliar impacto social, então este nome fez muito sentido para renomear o programa.

Público: tínhamos como foco uma rede de aceleradoras e incubadoras que apoiamos nos últimos cinco anos. Certamente, este público segue conosco. Mas passamos a considerar ações para outros dinamizadores que, embora não tenham participado dos nossos programas, também podem contribuir para o avanço da agenda de impacto no universo empreendedor.

Das quatro frentes revisitadas, nosso destaque é a Coalizão de Impacto — uma iniciativa ainda em fase de modelagem, mas que é nossa grande aposta para mobilizar recursos e atores em uma proporção maior do que temos feito até agora para movimentar a agenda de impacto no Brasil.

AUPA – Quais os maiores desafios para garantir que as boas práticas de incubação e aceleração sejam de fato aplicadas?
Vivian Rubia – A publicação das boas práticas de incubação e aceleração foram pensadas para dar visibilidade para algumas ações desenvolvidas por essas organizações ao longo de sua jornada de implementar impacto em sua atuação. Elas trazem um retrato e uma inspiração de que é possível evoluir nesta direção. Os desafios de incorporação dessa agenda por incubadoras e aceleradoras são imensos — vão desde desafios institucionais (gestão, equipe e recursos), técnicos (capacitação da equipe para apoiar negócios de impacto) e estruturais (relacionamento com organizações mantenedoras, no caso das aceleradoras ligadas a instituições de ensino; ecossistemas locais de impacto ainda pouco maduros e Políticas Públicas).

Especial: os reflexos da pandemia no mercado de trabalho

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Ter um trabalho é mais do que uma forma de estar inserido na sociedade: é também um direito assegurado em lei. De acordo com a Constituição de 1988, o valor social do trabalho é fundamento da República Brasileira (art. 1º, IV). Os direitos sociais estão dispostos no capítulo II do título II – Direitos e Garantias Fundamentais.

Entretanto, o acesso a esse direito tem sido cada vez mais penoso  no Brasil. Atualmente, o país tem 14,8 milhões de desempregados, o maior número registrado desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, em 2012. A taxa de desocupação para o primeiro trimestre de 2021 foi de 14,7%.

Em um período marcado pelo contexto pandêmico, o país registrou queda de 7,8 milhões de postos de trabalho no primeiro trimestre de 2021, quando comparado ao trimestre anterior.

Ainda, de acordo com os dados da PNAD Contínua, para as 85,9 milhões de pessoas ocupadas no país, a informalidade está presente em 34 milhões delas. 

Ednusa Ribeiro, cofundadora do Coletivo Meninas Mahin, que busca fortalecer o empreendedorismo das mulheres negras, comenta sobre a realidade informal presente nas relações trabalhistas atuais:

“Cada vez mais teremos menos acesso à CLT e a contratação será como PJ. Quando falo de contratação PJ, é MEI (Microempreendedor Individual). A pessoa precisa ter educação para pagar impostos e fazer plano de saúde pelo MEI”.

Confira a entrevista na íntegra. Clique aqui

A desigualdade já tão latente no país ficou ainda mais aprofundada pela crise advinda da pandemia causada pela Covid-19. Segundo a pesquisa “O futuro da Inclusão Produtiva”, da Fundação Arymax, apenas 24,6% da mão de obra do país se encontrava em setores que não foram impactados pela pandemia.

Balança desigual
A pandemia causada pela Covid-19 trouxe efeitos em escala global, mas pesquisas apontam que seus impactos são distintos de acordo com o público. No mercado de trabalho, os mais vulneráveis são mulheres, negros, jovens e profissionais mais pobres e com baixa escolaridade – segundo dados do DIEESE

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Além dos jovens, o mercado de trabalho para as mulheres foi impactado com a pandemia. Apesar de serem maioria em idade para trabalhar (53,3%) – segundo dados da PNAD Contínua referente ao primeiro trimestre de 2021, são as que menos ocupam os postos de trabalho.

As mulheres também são as mais afetadas no cenário de desocupação. No primeiro trimestre de 2021, elas representavam 54,5% das pessoas desocupadas no país, o maior percentual desde 2015 – período em que a PNAD Contínua iniciou a série. 

Quando ocupam os postos de trabalho, a diferença salarial ainda persiste para as mulheres em todo o país.

A balança desigual se estende para a América Latina, com 13 milhões de mulheres que perderam seus empregos na região desde o início da pandemia, segundo o último Panorama Laboral da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O dado gerou um retrocesso de mais de uma década em avanços na participação feminina no mercado de trabalho na América Latina e no Caribe, de acordo com o relatório especial da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal)

Empreendedorismo à força
Com a alta do desemprego, os postos de trabalho encolhendo e a queda de renda, o empreendedorismo nasce como forma de sobrevivência. Em 2020 foram abertos 2,6 milhões de microempreendedores individuais (MEI)  – um aumento de 8,4% em relação a 2019, segundo dados do Mapa de Empresas. O estudo, divulgado em fevereiro deste ano pelo Ministério da Economia, revelou que 2020 terminou com 3.359.750 novas empresas no Brasil, número 6% maior do que o registrado em 2019.

O crescimento de novas empresas vem acompanhado de diversos desafios, especialmente para microempreendedores. Durante a crise advinda pelo novo Coronavírus, por exemplo, 58,9% dos negócios interromperam o funcionamento temporariamente, afirma pesquisa realizada pelo Sebrae no início da pandemia. 

Apostar na formação dos egressos no universo do empreendedorismo tem sido a estratégia de organizações sociais para fortalecer este público frente ao cenário de crise. É o que faz a Aventura de Construir que, inicialmente, trabalhava com microempreendedores da periferia da Zona Oeste de São Paulo, e agora expandiu a atuação para todo o Brasil:

“O maior desafio é a sustentabilidade desses microempreendedores. Eles precisam ser formados e fortalecidos”.

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Assim como no mercado de trabalho formal, na “sevirologia” do empreendedorismo, negros, mulheres e periféricos também são impactados. Ednusa Ribeiro, cofundadora do Coletivo Meninas Mahin, fala sobre essa realidade:

“As mulheres negras empreendem, majoritariamente na dor, não necessariamente porque querem empreender, mas por necessidade”.

A necessidade de geração de renda destacada por Silvia e Ednusa se reflete nos dados, já que a redução do salário é uma constante para o trabalhador brasileiro.

Segundo pesquisa da FGV Social, a renda individual de quem trabalha teve uma queda média de 20,1% em 2020, que foi impulsionada pela redução da jornada de trabalho média de 14,34%.

Todos esses fatores contribuem para o chamado “empreendedorismo à força”, que muitas vezes faz surgir negócios menos estruturados, especialmente em territórios periféricos. Essa é a visão de Márcio Teixeira, sócio-fundador da A Banca, que atua no ecossistema de negócios de impacto periféricos desde 2008:

“É mais difícil você ver uma pessoa montando um negócio na periferia durante a pandemia, porque ela não tem grana. Ela vai empreender na escassez mesmo”.

Confira a entrevista na íntegra. Clique aqui

A pandemia forçou a entrada de vários negócios para o ambiente on-line, representando um complicador para empreendedores periféricos quanto ao uso e à acessibilidade dessas tecnologias. 

Para Ednusa Ribeiro, mesmo em São Paulo – que é considerado o maior polo econômico do país – a desigualdade digital é profunda:

“O cenário da desigualdade digital ficou latente. Isso que São Paulo é a capital econômica do Brasil”.

Apoiar pequenos negócios para a era da digitalização, inclusive, é um dos caminhos recomendados pelo estudoO futuro da Inclusão Produtiva”, da Fundação Arymax, para aumentar a produtividade e garantir a sustentabilidade do empreendimento neste contexto de crise.

Outra reflexão levantada por organizações é sobre a distribuição desigual de renda. Enquanto a pobreza é aprofundada pela crise, o aumento de bilionários foi registrado durante este período. De acordo com levantamento do banco suíço UBS e da PwC, divulgado em outubro de 2020, o número de bilionários espalhados pelo mundo passou de 2.158, em 2017, para 2.189, em 2020. A lógica desigual deste cenário é destacada por Márcio Teixeira, da A Banca:

“Ao mesmo tempo que na pandemia tivemos muitos negócios fechados, tem muita empresa grande faturando muito mais”.

Doações filantrópicas e investimento de impacto
Desde o início da pandemia, mais de R$6 bilhões foram doados, segundo dados do
Monitor das Doações Covid-19. Porém, deste montante apenas 3% são para projetos de geração de renda, e 74% deles são destinados à área da saúde. Isso demonstra uma centralização das causas em que os recursos estão sendo aplicados. 

As doações e a filantropia surgem para apoiar momentos emergenciais como o de agora. As doações e a filantropia surgem para apoiar momentos emergenciais como o de agora. Mas e a longo prazo? Como transformar doações pontuais em investimentos que vão causar impactos mais duradouros em comunidades mais vulneráveis? Camila Aloi, gerente de relacionamento institucional do GIFE, reflete sobre esses conceitos:

“O dinheiro da filantropia segue sendo fundamental para a agenda de direitos humanos”.

Confira a entrevista na íntegra. Clique aqui

Márcio Teixeira, que trabalha com empreendedorismo na periferia, acredita que grandes empresas podem fazer mais para apoiar este momento de crise:

“Os institutos e fundações das grandes empresas deveriam ter um olhar mais apurado para isso”.

Com negros majoritariamente na linha de frente dessas desigualdades, surge a necessidade de a filantropia e o investimento social privado atuarem mais para apoiar este público, segundo Camila do GIFE:

“Eu não posso falar de mudança, emprego e renda, se eu não penso como se pode olhar a partir dessa lente racial”.

Os conceitos de filantropia, responsabilidade social e investimento de impacto estão adquirindo uma presença renovada na perspectiva da contribuição que deles se espera diante de uma série de situações e problemas que afetam a sociedade como um todo. Mas Camila Aloi aponta que também é importante ressaltar o papel central do Poder Público com políticas efetivas:

“Existem temas na sociedade que a filantropia e o investimento social privado podem vir a dar conta, mas existem outros que apenas com a escala do poder público vamos conseguir transformar a situação”.

As consequências socioeconômicas da pandemia e também do movimento econômico anterior a ela serão sentidas no dia a dia do brasileiro ao longo dos próximos anos. Quais serão as saídas efetivas e políticas a serem adotadas com foco na geração de emprego e renda? Que retrato de país podemos projetar com a consolidação do afrouxamento de Direitos Trabalhistas, o aumento da informalidade e dos adeptos ao MEI? Que respostas e iniciativas condizentes com a proposta de lucro e mudanças sociais o ecossistema de impacto socioambiental pode nos fornecer nesta realidade? Perguntas cujas respostas estão muito além do setor e devem estar condizentes às demandas da população – precisam fazer parte da vontade política e também do Brasil pensado para além de 2030.

Créditos
Reportagem: Allan Brito e Angélica Weise.
Edição: Laiza Lopes e Fernanda Patrocínio. 
Design: Daniel Pereira.

De ONGs às fundações: quem são os trabalhadores de impacto social?

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Em um mundo cada vez mais dinâmico e diverso, definir um perfil do trabalhador de impacto social é tarefa difícil e até injusta. Afinal, é possível encontrar esses profissionais em diferentes atuações dentro do guarda-chuva de impacto: empreendimentos sociais, ONGs, institutos e fundações. 

Lançado em abril de 2021, o 3º Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental, organizado pela Pipe.Social, traz um vislumbre de quem é o empreendedor deste setor baseado em uma pesquisa com 1.272 negócios de impacto.

Entre as características do principal fundador dos negócios sociais mapeados alguns padrões ainda persistem: a maioria é homem, branco, de 30 a 44 anos, alta escolaridade e com formação em Administração, Economia, Ciências Contábeis e/ou STEM (Computação, Engenharia, Física e Química).

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Apesar das disparidades, o estudo traz um comparativo que aponta uma mudança neste perfil. Em 2017, no primeiro ano do Mapa, 58% dos negócios eram fundados apenas por homens, neste último ano, este número caiu para 27%. 

Segundo Lívia Hollerbach, co-fundadora da Pipe.Social e da Pipe.Labo, a falta de equidade de gênero não é só característica dos negócios de impacto: é do empreendedorismo como um todo.

Lívia Hollerbach, co-fundadora da Pipe.Social e da Pipe.Labo. Crédito: Divulgação.

“Esse movimento de gênero, que é global, tem se fortalecido na última década. E vemos os efeitos no nosso cenário. Negócios que têm só participação feminina tem mais desafios. Recebem menos apoio e acessam menos recursos, não só financeiros, como também de aceleradoras”,

analisa Lívia Hollerbach, co-fundadora da Pipe. Social e da Pipe.Labo. 

Para saber mais sobre gênero e empreendedorismo no Brasil, leia a entrevista com Cecília Zanotti, da ANDE Brasil

Já na Glocal Aceleradora, cujo trabalho de apoio está mais focado em organizações da sociedade civil (OSCs), as empreendedoras apoiadas são maioria na liderança de ONGs e negócios. Juliana Gouveia, diretora executiva da Glocal, pontua algumas diferenças de perfis de profissionais de negócios de impacto e ONGs.

Juliana Gouveia, diretora executiva da Glocal. Crédito: Divulgação

“Percebemos que os negócios partem de alguém que, geralmente, veio do mercado formal de trabalho. Quem está em um projeto social, não-raro, já trabalhou em ONG e não necessariamente atuou no mercado formal”, aponta Juliana. 

A informalidade, que atinge 34 milhões de brasileiros, também é presente nos profissionais do ecossistema de impacto. Ainda de acordo com o 3º Mapa da Pipe, 69% dos negócios sociais respondentes trabalham com equipes freelancers.

A formalização nos moldes da CLT é vista como um entrave para a sustentabilidade dos negócios que, muitas vezes, estão em fase incipiente.

Os encargos trabalhistas tornam quase impossível começar com a estrutura ideal do dia 0. O empreendedor está tentando equilibrar os pratos”, afirma Lívia Hollerbach, da Pipe.Social.

Juliana Gouveia, da Glocal Aceleradora, compartilha da mesma opinião, mas também vê um movimento que “força” a formalização de ONGs. “As ONGs têm até uma pressão para formalizar, pois tem esse critério para participar de captação de recursos”, comenta.

Diogo Bezerra é um dos fundadores da PLT4way, que democratiza o ensino da Língua Inglesa para a população periférica. Atualmente, 11 pessoas fazem parte da equipe e, mesmo contratando no modelo PJ (Pessoa Jurídica), o empreendedor paga benefícios similares à CLT. 

“Mesmo sendo PJ, os profissionais aqui têm 13º salário, férias remuneradas, quando saem pagamos o tempo de casa. Coisas que ainda fazem sentido, pois eles deixaram o legado deles aqui”, afirma Diogo.

Diogo Bezerra é um dos fundadores da PLT4way. Crédito: Divulgação

Corporatização
O domínio de características de gestão administrativa é cada vez mais exigido dos profissionais do ecossistema de impacto. Nos negócios sociais entrevistados pelo 3º Mapa da Pipe.Social, 50% dos fundadores são formados em Administração, Economia, Contábeis e STEM (Computação, Engenharia, Física e Química).

Para Lívia, há o desafio da cultura empreendedora e do pensamento de negócios no Brasil.  “Nós viemos da área de Humanas. Quando fomos estruturar a Pipe.Social como empresa, foi desafiador. Para entendermos modelos de negócios e fluxos de caixa, tivemos que trazer consultores. Para entrar no jogo, tem que aprender a jogar”, comenta ela sobre o exemplo da formalização da Pipe.Social. 

A diretora executiva da Glocal Aceleradora acredita que o paradigma de “preciso fazer o bem, mas não posso ganhar dinheiro com isso” ainda persiste no ecossistema. 

“Às vezes, as pessoas têm vergonha de captar recursos, com a pandemia mudou um pouco. Olhar as OSCs como um negócio é essencial para estruturá-las bem. Elas estão sendo cobradas para serem mais profissionais, por isso estão correndo atrás de programas de suporte”, afirma Juliana.

Em institutos e fundações, o modelo corporativo já está mais presente na rotina de trabalho. Um exemplo é a Fundação Grupo Volkswagen, que conta com um quadro de 11 colaboradores dedicados e faz interlocução com diferentes setores para implementar projetos em três áreas prioritárias: mobilidade urbana, mobilidade social e inclusão de pessoas com deficiência

Vitor Hugo Neia, diretor de administração e relações institucionais da Fundação Grupo Volkswagen. Crédito: Divulgação

“Sobre institutos e fundações empresariais, é necessário um entendimento das dinâmicas do mundo corporativo, por conta da relação estreita com instituidores e mantenedores. Isso impacta fortemente em governança, políticas internas, processos e gestão financeira, por exemplo”, explica Vitor Hugo Neia, diretor de Administração e Relações Institucionais da Fundação Grupo Volkswagen.

Mas a realidade corporativa e de negócios ainda não é democrática. Diogo Bezerra, empreendedor social da PLT4way, conseguiu dar um salto na carreira e criar o negócio após ter a oportunidade de fazer um intercâmbio religioso em Portugal e ver a importância do domínio do inglês. O jovem de 27 anos, que já morou na favela Jardim Pantanal, em São Paulo, analisa os desafios para a população periférica acessar recursos.

“Eu tive a possibilidade de pensar assim, pois, tive acesso a outra realidade, apesar de ser morador da favela. Eu podia ser criativo. Mas projetos de fomento ao empreendedorismo ainda não chegam muito forte à quebrada. Por exemplo, as pessoas, muitas vezes, não sabem o que é edital. Em cinco anos na área, não vi nenhum jovem da periferia querendo ser empreendedor de impacto social”,

reflete Diogo Bezerra, empreendedor social da PLT4way.

A falta de acesso e o deslocamento de realidades trazem à tona a discussão dos impactos da falta de diversidade dentro do ecossistema. 

“Realmente, o perfil de quem está empreendendo, acessando os recursos e não morrendo na praia é o perfil ‘faria limer’. Quando não incluímos perfis diversos também não incluímos a diversidade de problemas e como eles olham para essas questão”, aponta Lívia Hollerbach, da Pipe.Social.

Outra reflexão levantada por Lívia é que a rede de apoio aos negócios de impacto é muito concentrada nas capitais brasileiras, sendo o Estado de São Paulo o líder. “Fora das capitais, quais novos hubs podem ser criados? As universidades devem ser outro hub e as grandes cooperativas, como redes de cooperativas, por exemplo”, avalia ela. 

Clique na imagem para acessar a fonte.

No caso de institutos e fundações, a diversidade também é vista como um elemento fundamental, segundo o diretor de Administração e Relações Institucionais da Fundação Grupo Volkswagen.

“Nunca conseguiremos estar verdadeiramente próximos dos nossos beneficiários, transformando, de forma positiva, o contexto social no qual atuamos e gerando impacto de longo prazo, se a nossa equipe, responsável pela execução do nosso investimento, não trazer em si mesma diversidade e representatividade”, reflete Vitor. 

E, quando se fala em diversidade, há um horizonte para incluir: seja profissionais mais maduros, de regiões fora do Sudeste, periféricos, pessoas com deficiência, mulheres, negros, LGBTQI+, a urgência de trazer múltiplos atores ao universo de impacto é alinhada à necessidade de ampliar as soluções desenvolvidas.

Fórum de Investimentos e Negócios de Impacto (Impacta Mais) debate soluções e desafios socioambientais

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Nos dias 8, 9 e 10 de junho, o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e o Impact Hub São Paulo realizaram a 4ª edição do “Fórum de Investimentos e Negócios de Impacto” (Impacta Mais). Com o tema “Construindo uma nova economia com impacto socioambiental positivo”, o evento on-line discutiu os caminhos da contribuição do ecossistema de investimentos e negócios de impacto para o enfrentamento dos desafios estruturais (sobretudo, sociais e ambientais) da realidade brasileira.

Com palestras, sessões paralelas e workshops, os participantes puderam conferir diálogos envolvendo ESG, tecnologia, meio ambiente, racismo estrutural, impacto, Governo e desigualdades sociais.

Confira os destaques e as discussões levantadas no fórum.

1º dia
“Nosso convite, com o Impacta Mais 2021, é que todos deem seu passo mais ousado e corajoso para que passemos a transição para uma nova economia, com equidade para as pessoas e regeneração para o planeta”, destacou Henrique Bussacos (Impact Hub São Paulo), na abertura do evento – que ainda contou com a presença de Celia Cruz (ICE), Vivian Rubia (ICE) e Pablo Handl (Impact Hub São Paulo).

Ainda: em vídeo, Ronald Cohen, investidor social e um dos criadores do Social Finance, primeira instituição a emitir contratos de impacto social, convidou empresas a refletirem sobre o seu papel e os impactos na sociedade. “Hoje, com a chegada da crise causada pela  Covid-19, Governos têm a chance de assumir uma posição igualmente ousada – e eu espero que o Governo brasileiro o faça. Pois, assim, será possível trazer transparência para o impacto das empresas, para que elas sejam capazes de nos ajudar a encarar os desafios da pandemia causada pela Covid-19”, afirmou.

Houve também seis sessões paralelas com temas abordando desigualdade, educação, saúde, meio ambiente, combate ao racismo estrutural e moradia digna. No debate “O que os investimentos e os negócios de impacto podem fazer pelo combate às desigualdades sociais: território, gênero e raça”, Itala Herta (Diver.ssa), acerca das questões estruturais e a necessidade de força política para combater o racismo, ressaltou: “O Brasil desconhece o Brasil. Ou seja, desconhece a realidade complexa do país. Por isso, o compromisso com as desigualdades”.

Neste painel, Adriana Barbosa (PretaHub), Bel Santos Mayer (IBEAC) e Selma Moreira (Fundo Baobá) ainda analisaram a história de luta de combate ao racismo. Adriana afirmou que: “Durante muito tempo, no campo dos negócios sociais, a população negra era percebida como público beneficiário. Porém, nos últimos oito anos, jovens negros têm falado ‘não’, ‘eu também sou tutor e tenho propriedade intelectual para descrever uma solução’”. O exemplo reforça que a população negra também é protagonista no que diz respeito à atuação intelectual e política.

O evento contou ainda com a realização de dois workshops – “Movimento A Onda Verde: oportunidades para investir e empreender com impacto ambiental no Brasil” e “Promoção da diversidade racial e de gênero no campo do empreendedorismo de impacto”. Além disso, houve a “Rodada de Negócios Impacta Mais – conexão às cegas”, onde os participantes tiveram a oportunidade de buscar oportunidades comerciais e estabelecer contato com empresas, pessoas e organizações do setor. 

2º dia
No segundo dia, no painel de abertura,  Livia Hollerbach (Pipe.Social) e Diogo Quitério (ICE) trouxeram informações e dados sobre investimentos e negócios de impacto, a partir de estudos e pesquisas sobre o setor lançadas nos últimos anos. Em seguida, as sete sessões paralelas contemplaram o debate sobre inovações e desafios no campo do ecossistema com os seguintes temas: (1) “Contabilidade de Impacto: tendências na forma de contabilizar e comunicar impacto”, (2) “Impacto e Governo: desafios jurídicos e avanços na agenda governamental”, (3) “Ecossistemas locais de impacto: como ampliar esta agenda num país tão diverso?”, (4) “Inovação aberta para impacto: oportunidades e desafios para grandes empresas e negócios de impacto”, (5) “Produtos financeiros de impacto”, (6) “Tecnologia para quem e para quê?” e (7) “Fomento a organizações dinamizadoras”

Na mesa “Catalisando impacto positivo: como o Investimento de Impacto se relaciona com o universo ESG?”, Patricia Genelhu (BTG Pactual), Gustavo Pimentel (SITAWI) e Daniel Izzo (Vox Capital) refletiram sobre a divergência dos temas e os desafios da prática de investimento de impacto. Daniel destacou que “A agenda de democratização de impacto ainda não avançou” e que a pandemia fez muitas empresas repensarem as suas ações.

Na sessão “Ecossistemas locais de impacto: como ampliar esta agenda num país tão diverso?”, Paulo Henrique Oliveira Silva (Startei), Carina Pimenta (Conexsus) e Ruth Espinola Melo (PUC-Rio) discorreram como os ecossistemas locais podem se fortalecer com a presença de diversos atores. Carina ressaltou a importância da agenda voltada ao campo: “Muitas vezes, o rural está perto do urbano e nós não enxergamos”. Considerando a pluralidade devido à extensão brasileira, lançou-se o questionamento:  como é possível fortalecer os ecossistemas de impacto em periferias e/ou áreas rurais?

Os participantes puderam compartilhar experiências ainda em três workshops, com os seguintes temas:  “Governo: boas práticas e inovação aberta”,  “Inovação aberta e intraempreendedorismo alavancando a agenda de impacto em grandes empresas” e “Os 10 passos para investidores e family offices que querem investir em negócios de impacto”.

3º dia
Finalmente, o terceiro e último dia de fórum teve na abertura o “Julgamento dos investimentos e dos negócios de impacto”. Filipe Borsato (BNDES), Ilana Trombka (Senado Federal), Leonardo Letelier (SITAWI), Tatiana Assali (SITAWI) e Diogo Quitério conduziram a mesa. Eles analisaram as narrativas sobre a agenda de impacto positivo que nem sempre são discutidas. Os palestrantes aproveitaram e falaram sobre os investimentos e negócios de impacto, questionando como organização e sociedade podem atuar de forma conjunta.

Já a mesa “Construindo uma concepção redistributiva e regenerativa para negócios e investimentos”, contou com a participação de Carlota Sanz Ruiz (DEAL). Os mediadores foram Vivian Rubia (ICE) e Pablo Handl Impact (Hub São Paulo) que num bate-papo retomaram alguns dos assuntos já levantados durante as sessões, como uma nova economia baseada na construção de uma espaço justo e seguro para a humanidade, além de questionar quais os novos critérios de escolha de investimento que estão emergindo e de como fazer o diálogo entre a formulação da política pública e as suas implementações.

Houve ainda o lançamento da Comunidade Impacta Mais, um novo espaço de conexão do ecossistema, além do anúncio dos projetos vencedores da Chamada Impacta Mais de Apoio a Eventos Locais.

3º Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental

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O que é: O Mapa de Negócios de Impacto Socioambiental é um estudo, na sua primeira versão publicado em 2017, e que se repete a cada 2 anos para acompanhar a evolução do pipeline de negócios de impacto positivo no país e referenciar o retrato atual do setor.

Quem fez: Pipe.Social e Pipe.Labo.

Ano: 2021.

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